Lado Rural

Crédito rural para médios produtores cai 90% em duas safras em MS

Financiamentos caíram de R$ 5,35 bilhões para R$ 530 milhões, e contratos recuaram de 7,5 mil para 979

Por Jhefferson Gamarra | 06/11/2026 17:28
Crédito rural para médios produtores cai 90% em duas safras em MS
Maquinário fazendo a colheita de grãos em lavoura de Mato Grosso do Sul (Foto: Divulgação/Aprosoja)

O acesso ao crédito rural ficou mais restrito para os médios produtores de Mato Grosso do Sul nas últimas duas safras. O volume de financiamentos contratados por essa categoria com recursos de LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) caiu 90,2%, passando de R$ 5,35 bilhões na safra 2023/2024 para R$ 530 milhões em 2025/2026. No mesmo intervalo, o número de contratos despencou de 7.585 para apenas 979.

RESUMO

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Os dados fazem parte do Informativo Econômico 17/2026, elaborado pela Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul), com base nos microdados do Banco Central, atualizados em 4 de novembro. O levantamento aponta uma redução expressiva na principal fonte privada de financiamento do agronegócio no Estado, com impacto especialmente forte sobre os produtores de médio porte.

A retração entre os médios produtores foi superior à registrada nas demais categorias. Entre os pequenos, o volume de crédito com recursos de LCA caiu 62,6%, de R$ 70 milhões para R$ 30 milhões. Já entre os grandes produtores, a redução foi de 55,9%, passando de R$ 6,57 bilhões para R$ 2,9 bilhões.

A queda também aparece no número de operações. Enquanto os médios produtores passaram de 7.585 contratos para 979, os pequenos recuaram de 507 para 152, e os grandes, de 5.211 para 1.734. Com isso, o valor médio por contrato aumentou de R$ 901 mil para R$ 1,2 milhão, indicando que as operações ficaram mais concentradas em financiamentos de maior valor.

O cenário acompanha uma mudança significativa na distribuição do crédito rural em Mato Grosso do Sul. Na safra 2023/2024, os financiamentos com recursos de LCA somaram R$ 11,99 bilhões no Estado. O montante caiu para R$ 6,31 bilhões em 2024/2025 e chegou a R$ 3,45 bilhões em 2025/2026, uma retração acumulada de 71,3% em duas safras.

A participação da LCA no total de crédito rural contratado no Estado também encolheu. A fonte representava 49,7% dos financiamentos em 2023/2024, praticamente metade de todo o crédito contratado, mas passou a responder por 23,2% em 2025/2026.

A redução foi a maior entre os nove estados brasileiros que mais contratam crédito rural com recursos dessa modalidade. Em âmbito nacional, a queda acumulada foi de 37,5% no mesmo período. Enquanto o volume brasileiro passou de R$ 174,34 bilhões para R$ 108,98 bilhões, Mato Grosso do Sul saiu de R$ 11,99 bilhões para R$ 3,45 bilhões.

Na última safra analisada, a diferença também ficou evidente. Enquanto o volume nacional apresentou leve crescimento de 1,2% em relação ao ciclo anterior, o Estado registrou nova retração, de 45,4%.

Bancos públicos concentram maior parte da retração - O levantamento da Aprosoja/MS também mostra que a redução do crédito com recursos de LCA não ocorreu de maneira uniforme entre as instituições financeiras. Os bancos públicos, que concentravam 78,7% dessa modalidade de financiamento em Mato Grosso do Sul, responderam por 94,5% da queda registrada no período.

Nessas instituições, o volume contratado recuou de R$ 9,44 bilhões na safra 2023/2024 para R$ 1,36 bilhão em 2025/2026, uma redução de 85,6%. O número de contratos caiu de 11.033 para 1.132.

Nos bancos privados, a retração foi menor, de 29,5%, com o volume passando de R$ 1,57 bilhão para R$ 1,1 bilhão. Já as cooperativas de crédito praticamente mantiveram o volume de recursos, que passou de R$ 990 milhões para R$ 980 milhões, queda de apenas 0,7%.

As cooperativas também ganharam participação no número de operações. Na safra 2025/2026, foram responsáveis por 1.467 contratos, mais da metade dos 2.865 registrados em todo o Estado com recursos de LCA. Na safra 2023/2024, haviam sido 1.573 contratos.

Parte da redução dos financiamentos dos bancos públicos foi compensada pelo aumento do uso da poupança rural. Ainda assim, o crédito total dessas instituições em Mato Grosso do Sul caiu de R$ 17,63 bilhões para R$ 8,88 bilhões no período analisado.

Juros e risco ajudam a explicar retração - O informativo aponta três fatores principais para explicar a redução da oferta de crédito com recursos de LCA: o custo de captação, o aumento da percepção de risco e as mudanças frequentes nas regras que regulamentam esses títulos.

Com a taxa básica de juros elevada, a LCA ficou mais cara para as instituições financeiras. Na safra 2025/2026, a taxa média do custeio contratado com essa fonte em Mato Grosso do Sul foi de 14,06% ao ano. Para comparação, a taxa média da poupança rural ficou em 12,34%, enquanto os recursos obrigatórios tiveram custo médio de 10,30%.

Outro fator apontado é o risco das operações. Em agosto de 2026, a parcela problemática da carteira de crédito rural chegou a 27,1% em Mato Grosso do Sul, acima da média nacional, de 23,8%. Nesse cenário, as instituições financeiras passaram a ter maior liberdade para selecionar onde aplicar a maior parte dos recursos captados por meio de LCA, priorizando operações consideradas mais seguras.

As alterações nas regras também influenciaram a atratividade do instrumento. Em fevereiro de 2024, o Conselho Monetário Nacional ampliou o prazo mínimo das LCAs de 90 dias para nove meses. Em maio de 2025, o prazo foi reduzido para seis meses, enquanto o percentual de direcionamento dos recursos para o financiamento do agronegócio passou de 50% para 60%.

Segundo o informativo, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) avalia que a ampliação do prazo mínimo reduziu a atratividade do título para os investidores.

Poupança rural ganha espaço, mas com juros livres - Com a retração da LCA, a poupança rural passou a ser a principal fonte de crédito rural em Mato Grosso do Sul. O volume contratado por meio dessa modalidade cresceu de R$ 3,09 bilhões na safra 2023/2024, quando representava 12,8% do total, para R$ 4,94 bilhões em 2025/2026, equivalente a 33,2% dos financiamentos.

Apesar do crescimento, o levantamento chama atenção para as condições desses recursos. Dos R$ 4,94 bilhões contratados na última safra, R$ 4,6 bilhões foram concedidos com taxas livres, negociadas entre as instituições financeiras e os produtores. Apenas R$ 340 milhões tiveram juros equalizados, ou seja, com condições subsidiadas pelo Plano Safra.

A ampliação da disponibilidade de recursos não significou, na mesma proporção, acesso a financiamentos com juros mais baixos.

O informativo destaca que o crédito rural contratado em Mato Grosso do Sul chegou a R$ 14,9 bilhões na safra 2025/2026. No caso da soja, os recursos oficiais de custeio registrados no Sicor (Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro) cobrem apenas 13,7% do custo total da cultura no Estado. O restante depende de capital próprio, emissão de CPR (Cédula de Produto Rural), troca de insumos por produção futura, modalidade conhecida como barter, e crédito concedido por fornecedores.

Início da nova safra apresenta sinais contraditórios - Os primeiros números da safra 2026/2027 mostram uma recuperação no volume geral de crédito contratado com recursos de LCA, mas o resultado exige cautela. Entre julho e outubro de 2026, foram registrados R$ 3,35 bilhões nessa modalidade em Mato Grosso do Sul, crescimento de 82,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Entretanto, seis operações de pelo menos R$ 100 milhões, todas fora das atividades de soja e milho, responderam por R$ 1,97 bilhão do total.

Quando essas operações de grande porte são desconsideradas nos dois períodos, o volume de crédito apresenta queda de 20,2%, passando de R$ 1,74 bilhão para R$ 1,39 bilhão.

O número de contratos também diminuiu 27,2%, de 1.715 para 1.248. Já o crédito destinado às atividades de soja e milho recuou 23,3%, passando de R$ 768 milhões para R$ 590 milhões.

Um indicador positivo foi a redução do custo dos financiamentos. A taxa média do custeio contratado com recursos de LCA caiu de 14,06% para 11,85% ao ano na comparação entre os mesmos períodos. A Aprosoja/MS ressalta, porém, que os dados mais recentes são preliminares e ainda podem ser revisados.

Outras fontes de financiamento ganham importância - Diante da redução do crédito bancário tradicional, outros instrumentos do mercado financeiro passaram a ter importância maior no financiamento do agronegócio. Entre eles estão a CPR, o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), o CDCA (Certificado de Direitos Creditórios do Agronegócio) e os fundos Fiagro.

A CPR é emitida pelo próprio produtor rural e representa uma promessa de entrega de determinado produto ou de pagamento em dinheiro. O instrumento pode ser utilizado em operações com bancos, tradings e revendas de insumos, inclusive como alternativa para financiar a produção por meio da troca de insumos.

Em setembro de 2026, o estoque nacional de CPR chegou a R$ 596,98 bilhões, crescimento de 13% em 12 meses. Apesar da expansão do volume financeiro, a quantidade de cédulas caiu de 390 mil para 333 mil, enquanto o valor médio das operações aumentou de R$ 1,35 milhão para R$ 1,79 milhão.

Já o CRA e o CDCA permitem que cooperativas e empresas do agronegócio transformem valores a receber em títulos negociados com investidores. O produtor costuma acessar esses recursos indiretamente, por meio de cooperativas, revendas e tradings que captam dinheiro no mercado para financiar insumos ou antecipar pagamentos.

O informativo cita como exemplo a Copasul, cooperativa com sede em Naviraí, que captou R$ 200 milhões por meio de um CRA em março de 2025. A operação foi lastreada em uma CPR financeira emitida pela própria cooperativa e teve participação integral de instituições financeiras.

Os Fiagro, por sua vez, reúnem recursos de investidores para aplicação em imóveis rurais, empresas do setor e títulos de crédito ligados ao agronegócio. O patrimônio desses fundos passou de R$ 39,97 bilhões em agosto de 2024 para R$ 73,22 bilhões em agosto de 2026, enquanto o número de fundos aumentou de 118 para 301.

Apesar do crescimento, a Aprosoja/MS ressalta que a expansão desses instrumentos não representa necessariamente mais dinheiro chegando diretamente às lavouras. As operações de maior porte e a participação de intermediários fazem com que parte dos recursos fique concentrada em empresas e estruturas financeiras com maior capacidade de captação.

Entidade aponta necessidade de ampliar acesso ao crédito - Nas considerações finais, o informativo destaca que o financiamento do agronegócio sul-mato-grossense depende cada vez mais de recursos privados, mas a disponibilidade de dinheiro no mercado financeiro não garante que ele chegue de maneira equilibrada aos produtores.

A avaliação é que a retração da LCA atingiu principalmente os médios produtores e as operações realizadas por bancos públicos. Embora a poupança rural tenha ocupado parte desse espaço, a maior parcela dos recursos foi contratada com taxas livres, enquanto instrumentos como CPR e Fiagro tendem a favorecer operações de maior porte.

Entre as medidas apontadas pela Aprosoja/MS estão a preservação da isenção tributária dos títulos do agronegócio, a manutenção da segurança jurídica das garantias e da CPR e a criação de um fundo garantidor ou de um fundo estadual de aval para ampliar o acesso ao financiamento por produtores que atualmente encontram dificuldades para contratar crédito.

A entidade também defende que as estatísticas públicas de CPR, CRA e Fiagro passem a apresentar dados específicos por Estado. Atualmente, a ausência desse detalhamento dificulta identificar quanto dos recursos movimentados por esses instrumentos efetivamente chega a Mato Grosso do Sul.

O levantamento reforça que, em um cenário de crédito mais seletivo, os produtores precisam comparar as condições de financiamento, avaliar o custo das operações e evitar comprometer toda a produção futura com dívidas. A redução de 90,2% no crédito com LCA destinado aos médios produtores evidencia o tamanho do desafio para manter o acesso ao financiamento em uma atividade que depende de recursos para custear cada nova safra.

 

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