Economia

Rota Bioceânica pode se tornar circuito turístico internacional entre 4 países

Proposta prevê integrar Bonito e Pantanal ao Chaco, à cultura andina e aos desertos e praias do Chile

Por Anderson Viegas | 02/11/2026 08:14
Rota Bioceânica pode se tornar circuito turístico internacional entre 4 países
Lhama, animal característico das regiões andinas, representa a riqueza da fauna e das tradições culturais do Noroeste argentino, um dos destinos turísticos que podem integrar os roteiros da Rota Bioceânica (Foto: Anderson Viegas)

De rios de águas cristalinas e planícies repletas de animais silvestres a florestas secas, montanhas coloridas, desertos e praias do Oceano Pacífico. Além de encurtar o caminho das exportações brasileiras até os portos chilenos, a Rota Bioceânica poderá abrir uma nova fronteira para o turismo na América do Sul, conectando paisagens, culturas e experiências de quatro países em um único roteiro internacional.

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Com a perspectiva de entrada em operação do corredor nos próximos anos, o Ministério do Turismo trabalha para transformar a ligação rodoviária entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile em um itinerário turístico multinacional, com Mato Grosso do Sul como uma das principais portas de entrada.

Trecho da Rota Bioceânica na Cordilheira dos Andes revela uma paisagem de montanhas imponentes e curvas sinuosas, em meio à beleza natural do Noroeste argentino (Foto: Anderson Viegas)

Em entrevista ao Campo Grande News, o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, afirmou que a pasta coordena a Mesa de Turismo do Fórum dos Governos Nacionais do Corredor Bioceânico, espaço de articulação entre os quatro países para desenvolver o potencial turístico da nova ligação. "Vamos transformar o que nasceu como um corredor logístico em um grande itinerário rodoviário internacional, com muita cultura, ecoturismo e gastronomia", afirmou.

A proposta é aproveitar a diversidade de paisagens e culturas ao longo do corredor para atrair viajantes interessados em experiências por via terrestre, ampliando as oportunidades para hotéis, restaurantes, agências, guias turísticos e empreendimentos locais.

De Bonito à vida selvagem do Pantanal - No lado brasileiro, a Rota Bioceânica terá como grandes vitrines turísticas dois destinos já conhecidos internacionalmente: Bonito e o Pantanal.

Na Serra da Bodoquena, Bonito reúne mais de 40 atrativos, entre rios de águas transparentes, grutas, cachoeiras e trilhas. Flutuação, mergulho, passeios de bote e atividades de aventura fazem parte das experiências oferecidas aos visitantes. Em 2025, o município recebeu 293.712 turistas.

Gruta do Lago Azul, em Bonito, impressiona pelas águas de azul intenso e pelas formações rochosas, sendo um dos principais cartões-postais do turismo sul-mato-grossense (Foto: Anderson Viegas)

Já o Pantanal oferece uma experiência marcada pela observação da fauna e pelo ritmo das cheias e secas, que transformam a paisagem ao longo do ano. Safáris fotográficos, passeios de barco, cavalgadas e hospedagens em fazendas pantaneiras permitem observar animais como tuiuiús, jacarés, capivaras e, em determinadas regiões, onças-pintadas.

Em Mato Grosso do Sul, a Estrada-Parque Pantanal, a Serra do Amolar e as regiões de Corumbá, Miranda e Aquidauana estão entre os principais destinos de turismo de natureza, pesca esportiva e experiências culturais.

Pôr do sol sobre o Rio Paraguai, em Corumbá, revela a beleza das paisagens pantaneiras, um dos grandes atrativos turísticos de Mato Grosso do Sul (Foto: Anderson Viegas)

Chaco paraguaio: flamingos, florestas e história - Ao atravessar a fronteira com o Paraguai, o viajante encontra um cenário diferente. O Chaco ocupa cerca de 60% do território paraguaio e combina extensas planícies, florestas secas, savanas, lagoas salgadas e áreas de grande biodiversidade.

 Um dos atrativos mais curiosos são as lagoas salgadas do Chaco Central, onde é possível observar flamingos e outras aves aquáticas. A região também oferece oportunidades de turismo de natureza e observação de animais silvestres.

Flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis) nas lagoas salgadas do Chaco paraguaio, região que se destaca pela biodiversidade e pelo potencial para o turismo de observação de aves. (Foto: Édgar Romero/Medios del Estado)

A história é outro diferencial. Fortificações como Boquerón, Isla Po'i e Toledo preservam a memória da Guerra do Chaco, travada entre Paraguai e Bolívia na década de 1930. Na região de Filadélfia, a presença de comunidades indígenas e colônias menonitas acrescenta experiências culturais e gastronômicas aos roteiros.

A melhoria das estradas, incluindo a implantação da Rota Bioceânica, é vista pelo setor turístico paraguaio como uma oportunidade para ampliar o acesso a esses destinos.

Tradições andinas na Argentina - No Noroeste argentino, a paisagem ganha montanhas, vales, salares e povoados marcados pela herança cultural andina. As províncias de Salta e Jujuy reúnem alguns dos cenários mais conhecidos da região. Entre eles estão a Quebrada de Humahuaca, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco, o Cerro das Sete Cores, em Purmamarca, e as Salinas Grandes.

O Cerro das Sete Cores, em Purmamarca, no Noroeste argentino, impressiona pelas montanhas de diferentes tonalidades, um dos cenários mais emblemáticos da região andina (Foto: Anderson Viegas)

A gastronomia regional, o artesanato, as peñas folclóricas e celebrações tradicionais, como as homenagens à Pachamama, a Mãe Terra na cultura andina, complementam a experiência.

Além dos atrativos culturais, a travessia pela região aproxima o viajante das paisagens da Cordilheira dos Andes, com suas montanhas imponentes e ambientes de altitude.

Do deserto chileno às praias do Pacífico - Depois das paisagens andinas, o Norte chileno oferece outro contraste: desertos, salares e montanhas que se encontram com o litoral do Oceano Pacífico. Iquique é um dos destaques, com praias como Cavancha, esportes aquáticos e atrações históricas ligadas ao ciclo do salitre. Nas proximidades, as antigas instalações industriais de Humberstone e Santa Laura são reconhecidas como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Paisagem das Salinas Grandes, no Noroeste argentino, onde a imensidão branca do salar contrasta com as montanhas da Cordilheira dos Andes (Foto: Anderson Viegas)

A região também oferece possibilidades de conhecer paisagens desérticas, lagoas de altitude e formações naturais características do Atacama. Em outros circuitos do Norte chileno, destinos como San Pedro de Atacama reúnem atrações como o Vale da Lua, os Gêiseres de El Tatio e experiências de observação astronômica.

Paisagem de beleza quase surreal na Cordilheira dos Andes, onde montanhas multicoloridas, formações rochosas e extensões áridas compõem um cenário impressionante no Noroeste argentino (Foto: Anderson Viegas)

A diversidade permite combinar turismo de aventura, natureza, patrimônio histórico e lazer no litoral, tendo os portos do Pacífico como pontos estratégicos da integração continental.

Turismo e oportunidade econômica - Para o Ministério do Turismo, o desafio é transformar essa diversidade em produtos turísticos comercializáveis, com infraestrutura, serviços e integração entre os países. Segundo Gustavo Feliciano, a pasta acompanha as obras rodoviárias e fronteiriças e trabalha com outros órgãos federais para melhorar a recepção de visitantes nas cidades de fronteira.

O ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, defende transformar a Rota Bioceânica em um circuito turístico internacional, integrando atrativos do Brasil, Paraguai, Argentina e Chile (Foto: Ministério do Turismo/Divulgação)

 O ministro também destacou o Plano Brasis, desenvolvido em articulação com a Embratur, como instrumento para promover destinos brasileiros no mercado internacional e ampliar sua presença nos catálogos de operadoras estrangeiras.

A estratégia inclui fortalecer o turismo rural, a pesca esportiva sustentável, as experiências comunitárias e os roteiros culturais, de aventura e de fronteira.

Embora a ligação rodoviária ainda esteja em implantação, o governo federal aposta que a integração poderá ampliar a circulação de turistas e distribuir oportunidades econômicas por municípios que hoje estão fora dos principais circuitos internacionais.

A proposta é fazer com que a Rota Bioceânica deixe de ser apenas um caminho para o transporte de mercadorias e se torne também uma viagem pelas diferentes paisagens e culturas da América do Sul.

Obras e ligações rodoviárias - Enquanto os quatro países discutem a integração turística, a infraestrutura da Rota Bioceânica continua em implantação. Uma das principais obras é a ponte internacional sobre o Rio Paraguai, que ligará Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, a Carmelo Peralta, no Paraguai. Com 1.294 metros de extensão e investimento estimado em US$ 103 milhões, a estrutura teve seus dois lados unidos em julho de 2026 e avançou para a fase de acabamento, pavimentação, sinalização e instalação de equipamentos de segurança.

Ponte da Bioceânica, sobre o Rio Paraguai, ligará Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta, no Paraguai, e será uma das principais estruturas de integração rodoviária entre os quatro países (Foto: MPOC/Divulgação)

Do lado brasileiro, a conclusão do acesso à ponte é considerada prioridade nacional para 2027. O empreendimento, que inclui 13,1 quilômetros de ligação com a BR-267, o contorno de Porto Murtinho e um centro aduaneiro, foi incluído pelo TCU (Tribunal de Contas da União) entre 10 obras prioritárias para o próximo ano. Segundo o órgão, são necessários R$ 279,1 milhões para finalizar os trabalhos. Em março, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) havia informado execução de 31,73% do conjunto das intervenções.

No Paraguai, a pavimentação do corredor foi dividida em três trechos. O primeiro, de 277 quilômetros entre Carmelo Peralta e Loma Plata, já está concluído, após investimento de US$ 443 milhões. O segundo compreende 102 quilômetros entre Cruce Centinela e Mariscal Estigarribia, com investimento previsto de US$ 200 milhões. Já o terceiro contempla 224 quilômetros entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina.

A conclusão dessas ligações será fundamental para consolidar o corredor rodoviário entre os oceanos Atlântico e Pacífico e criar condições para ampliar a circulação de cargas e turistas entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.

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