Política

Eleição coloca Rota Bioceânica e MS no centro da disputa entre EUA e China

Lula e Flávio divergem sobre "Escudo das Américas", projeto que afeta Estado na busca de mercados asiáticos

Por Viviane Moneiro e Vasconcelo Quadros, de Brasília | 23/10/2026 17:25
Eleição coloca Rota Bioceânica e MS no centro da disputa entre EUA e China
Ponte da Rota Bioceânica, entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (PY) (Foto: MPOC/Diulgação)

Uma das obras de infraestrutura mais importantes para as exportações brasileiras e, seguramente, a mais estratégica para a economia de Mato Grosso do Sul, a Rota Bioceânica tem seu futuro atrelado à eleição presidencial deste domingo. O resultado revelará para que lado o país penderá na queda de braço travada por Estados Unidos e China pela influência na América do Sul, com o Brasil no centro da disputa. O governo de Donald Trump não esconde que fará o possível para retomar o protagonismo na região.

RESUMO

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Embora o andamento das obras do corredor rodoviário internacional que liga Brasil, Paraguai, Argentina e Chile não deva ser alterado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, uma possível adesão do País ao Escudo das Américas, iniciativa liderada pelos EUA sob o pretexto de combater o crime organizado transnacional, pode gerar conflitos e dificuldades nas relações comerciais com a China, principal mercado de parte das exportações locais. Esse é o entendimento de especialistas entrevistados pelo Campo Grande News.

Paraguai se abre aos EUA - O candidato do PL à Presidência tem reiterado que pretende incluir o Brasil no acordo liderado pelo presidente americano, Donald Trump, com outros 14 países da América Latina e do Caribe governados pela direita. Entre as diretrizes estão ações coordenadas contra 24 “redes narcoterroristas armadas”, incluindo as facções brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho, que dominam as rotas de tráfico na Bolívia e Paraguai que passam por Mato Grosso do Sul.

Na quinta-feira (22), em meio à acirrada corrida eleitoral brasileira, os Estados Unidos anunciaram a abertura de um escritório de INL (Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei em Assunção), no Paraguai, para coordenar operações antidrogas e programas de segurança no Cone Sul. A iniciativa prevê o envio de um assessor de contraterrorismo à embaixada americana e investimentos de US$ 11,75 milhões: US$ 5,5 milhões para combater o financiamento do terrorismo e US$ 6,25 milhões para enfrentar o crime organizado transnacional.

Uma das principais medidas do governo Trump para tentar retomar o controle da região, o Escudo das Américas não contaria com adesão de um eventual governo Lula, mas teria apoio forte caso Flávio Bolsonaro vença a eleição. Além de aderir ao projeto, o Paraguai passou a negociar com os americanos o excedente de energia de Itaipu, antes vendido ao Brasil.

Na quarta-feira (21), após visita do subsecretário de Estado americano Christopher Landau ao Paraguai, a empresa americana Crusoe, de infraestrutura para IA (Inteligência Artificial) e a paraguaia Araico fecharam acordo para construir um data center abastecido pela usina, em uma estratégia para ampliar os interesses americanos na região e conter o avanço da China.

Com extensão estimada entre 2,4 mil e 3,3 mil quilômetros, o corredor liga os oceanos Atlântico e Pacífico e cria uma alternativa logística para transportar mercadorias brasileiras aos mercados asiáticos, principalmente à China, um dos principais destinos das exportações de Mato Grosso do Sul e do Brasil, com redução de tempo e de custos.

Imagem mostra pichações das facções em vias públicas de MS (Foto: Arquivo)

Ideologia comercial - Um alinhamento político maior com os EUA e possíveis divergências ideológicas com a China poderiam representar riscos à estratégia exportadora de Mato Grosso do Sul em caso de mudança de governo, avalia o economista Daniel Massen Frainer, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e doutor em Economia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Procurada, a campanha de Flávio não respondeu à reportagem.

“Essa proximidade com os EUA, principalmente na área de segurança, representa um problema de soberania nacional. Um eventual governo dele poderia se assemelhar ao que vivemos na ditadura militar, na década de 1960, quando houve grande interferência dos EUA nas questões de segurança pública”, disse o especialista, lembrando que os americanos financiaram as ditaduras militares.

Vários livros de diferentes autores registram que, no mesmo período, o PC Chinês apoiou a resistência da esquerda armada, treinando, durante o governo Mao Tsé-Tung, militantes do PC do B que lutaram na Guerrilha do Araguaia. A ditadura exterminou o movimento, que desapareceu com os corpos de 67 guerrilheiros, 41 deles depois de feitos prisioneiros.

Na avaliação do economista, um eventual governo Bolsonaro adotaria uma política externa mais estreita com os EUA, sob a justificativa de classificar facções criminosas como organizações terroristas. “Essa classificação pode servir justamente para justificar intervenções, assim como os EUA fizeram em países do Oriente Médio, embora o interesse do governo norte-americano seja no petróleo e nas terras raras do Brasil.”

Como a Rota Bioceânica se baseia no relacionamento comercial com a Ásia, uma aproximação mais intensa com os EUA pode gerar atritos com a China e prejudicar os negócios viabilizados pelo corredor, que liga Mato Grosso do Sul, via Porto Murtinho, a Carmelo Peralta, no Paraguai, pela ponte internacional prevista para ser inaugurada no ano que vem.

O economista Daniel Massen Frainer, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) (Foto: Divulgação)

Nesse cenário, a expectativa é de mudanças significativas na política externa brasileira, com reflexos nas relações com parceiros comerciais e no atual esforço de diversificação da pauta exportadora. “Deverá haver restrição principalmente com a China, por conta do cunho ideológico que está por trás das propostas deles, e também do Trump (EUA), do (Javier) Milei (Argentina). Esse alinhamento ideológico impede que eles consigam enxergar o que causa problemas para os próprios países.”

O temor, contudo, é que o Brasil se renda aos interesses americanos em relação ao petróleo e às terras raras, em detrimento da agregação de valor a esses materiais e do desenvolvimento interno.

Projeto maduro - Para o ministro Carlos Parkinson de Castro, diplomata de carreira do Ministério das Relações Exteriores, uma eventual mudança de governo não deve comprometer o avanço da Rota Bioceânica. As principais obras estão concluídas, os recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) estão assegurados para finalizar os acessos à ponte e o empreendimento está praticamente pronto para inauguração. “Seja neste governo ou no outro, teremos de pensar numa cerimônia de inauguração da ponte.”

O diplomata ressalva, porém, que a política de segurança da Rota pode mudar se o Brasil aderir ao Escudo das Américas, com possibilidade de ingerência externa e de forças militares americanas combatendo grupos de traficantes na Amazônia ou em cidades brasileiras, como ocorre atualmente na Colômbia e no Equador.

“Isso não significa que os EUA não possam vir a interferir no âmbito do corredor. Acredito que uma das áreas em que essa interferência poderá ocorrer com mais força é a da segurança”, disse Castro, coordenador nacional dos Corredores Rodoviários e Ferroviários Bioceânicos e principal autoridade do governo brasileiro na articulação da Rota Bioceânica.

Nesse cenário, diferenças ideológicas poderiam aumentar a pressão americana para que o Brasil reveja suas relações com a China, com possíveis impactos negativos no comércio exterior. A presença de forças americanas em setores estratégicos ao longo do corredor também poderia incomodar os chineses, em meio à acirrada competição entre as duas superpotências nos campos tecnológico e econômico.

O diplomata lembrou, contudo, que Flávio Bolsonaro, durante visita ao Chile em março de 2026 para a posse de José Antonio Kast, defendeu publicamente a importância do corredor bioceânico para a integração regional e o comércio brasileiro.

Pragmatismo - Em caso de mudança de governo, o ministro defende que o Brasil mantenha uma posição pragmática nas relações comerciais com todos os países, principalmente China e EUA, para “tirar benefícios” dos dois lados. O Itamaraty espera a manutenção dos acordos de cooperação, do intercâmbio de informações e inteligência e dos esforços para abrir novos mercados e diversificar a pauta exportadora. A expectativa é que um eventual governo Bolsonaro reconheça os avanços e apoie a continuidade dos trabalhos para ampliar os benefícios do corredor para Mato Grosso do Sul.

“Mato Grosso do Sul tem um papel estratégico e a sociedade está profundamente consciente da importância do corredor para ampliar o desenvolvimento local.”

O comércio com a China - A China respondeu por 29,7% das exportações brasileiras entre janeiro e setembro de 2026, com compras de US$ 84,68 bilhões, segundo dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). A corrente de comércio entre os dois países bateu recorde, somando US$ 143,30 bilhões, alta de 11,1% sobre o mesmo período de 2025.

As exportações brasileiras para a China cresceram 12% nos nove primeiros meses de 2026, enquanto as importações somaram US$ 58,62 bilhões, aumento de 9,9%.

Em Mato Grosso do Sul, a China concentrou US$ 4,27 bilhões das vendas no mesmo período, o equivalente a 46,34% dos US$ 9,21 bilhões exportados pelo Estado. Em seguida aparecem os Estados Unidos, com 6,46%, e os Países Baixos, com 4,81%, segundo os dados mais recentes da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).

Sistema de segurança - A mesa de segurança formada pelos parceiros da Rota Bioceânica estuda implementar um sistema de alcance transnacional ao longo do corredor para combater organizações criminosas internacionais. O objetivo é garantir a segurança tanto do transporte de cargas quanto dos cidadãos.

Ministro da carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores, João Carlos Parkinson de Castro (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

O Brasil, que transferirá ao Chile a presidência da governança da Rota Bioceânica em dezembro, prepara mais de dez protocolos para apreciação dos demais países em reunião entre as partes. O país assumiu a presidência em novembro de 2025, sucedendo a Argentina.

Sem antecipar as propostas, o ministro do Itamaraty lembrou que a PF (Polícia Federal) e a PRF (Polícia Rodoviária Federal) têm atuação limitada além das fronteiras. A intenção é criar mecanismos como o mapeamento de áreas de risco para distribuir as forças de segurança, investir em capacitação e estabelecer redes e sistemas de comunicação em tempo real. Também está prevista a criação de centros integrados de comando e controle ao longo do corredor, paralelamente à integração aduaneira.

“Para recuperar, por exemplo, um carro roubado com brevidade, é necessário ter uma rede e um sistema de comunicação integrado”, exemplificou.

Carlos Parkinson de Castro reconhece o desafio de combater a criminalidade ao longo do corredor e defende reforçar a segurança. Segundo ele, o plano continental de segurança era muito restrito à Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal), organização intergovernamental que reúne 196 países para facilitar a cooperação policial e o combate ao crime global.

O consenso é que a Interpol não tem sido suficiente e que é necessário complementar sua atuação com outras forças.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Senado, o sul-mato-grossense Nelsinho Trad (PSD-MS) defendeu a cooperação internacional contra o crime organizado transfronteiriço e a integração dos Ministérios da Justiça e da Segurança Pública do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Chile. O objetivo é garantir segurança em todas as áreas, da logística ao turismo, e estimular o desenvolvimento e o intercâmbio educacional e cultural.

“Isso é fundamental para que a Rota cumpra a sua missão de desenvolvimento econômico e progresso”, disse o senador.

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