PRF prepara nova unidade e integração policial para a Rota Bioceânica
Treinamentos com forças de segurança do Chile, Argentina e Paraguai antecipam desafios do corredor

A PRF (Polícia Rodoviária Federal) está se preparando para os desafios de segurança que virão com a consolidação da Rota Bioceânica, corredor internacional que ligará Mato Grosso do Sul aos portos do Oceano Pacífico, passando pelo Paraguai e pela Argentina até chegar ao Chile. Entre as iniciativas estão a capacitação conjunta com forças policiais dos países envolvidos, o investimento em tecnologia e a previsão de construção de uma nova unidade operacional no Centro Aduaneiro de Porto Murtinho, próximo à ponte internacional sobre o Rio Paraguai.
RESUMO
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A Polícia Rodoviária Federal em Mato Grosso do Sul prepara-se para os desafios de segurança da Rota Bioceânica, corredor que ligará o estado aos portos do Chile via Paraguai e Argentina. O superintendente, inspetor João Paulo Pinheiro Bueno, informou que há cursos conjuntos com policiais dos três países, aposta em tecnologia e previsão de nova unidade no Centro Aduaneiro de Porto Murtinho, sem cronograma ou investimento definidos. Ele alertou que a rota também ampliará o risco de crimes transnacionais.
Em entrevista ao Campo Grande News, o superintendente da PRF em Mato Grosso do Sul, inspetor João Paulo Pinheiro Bueno, explicou que a preparação para o corredor já ultrapassa as fronteiras brasileiras. A instituição vem promovendo a aproximação com organismos policiais dos três países vizinhos, com foco na segurança viária, na legislação de trânsito e no futuro compartilhamento de informações estratégicas.
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A avaliação é de que a nova ligação internacional, ao mesmo tempo em que ampliará as oportunidades comerciais e logísticas para Mato Grosso do Sul, também exigirá maior capacidade de fiscalização e enfrentamento à criminalidade transnacional. "É uma nova rota para o desenvolvimento, mas também é uma nova rota para a criminalidade. A gente tem que entender isso", afirmou o superintendente.
Policiais de quatro países passam por integração
Uma das principais frentes de preparação está na formação e no intercâmbio de conhecimentos entre as forças policiais dos quatro países que integram o corredor.
Segundo Bueno, a PRF já desenvolve cursos de segurança viária e de legislação de trânsito com a participação de policiais do Chile, da Argentina e do Paraguai. As atividades fazem parte de um alinhamento institucional conduzido pelo departamento nacional da corporação, em Brasília.
"Já temos cursos de segurança viária, de código de trânsito com as polícias do Chile, com as polícias da Argentina, do Paraguai. A gente já está fazendo essa integração por parte do departamento na nossa universidade", explicou.
A formação ocorre no âmbito da UniPRF (Universidade Corporativa da Polícia Rodoviária Federal), instituição responsável pela capacitação dos profissionais da corporação. De acordo com o superintendente, a universidade, atualmente sediada em Florianópolis, passa por um processo de transferência para uma nova estrutura em Brasília.
A iniciativa busca preparar os agentes para uma realidade em que o transporte rodoviário internacional terá maior importância na circulação de mercadorias e pessoas pelo território sul-mato-grossense.
Além das diferenças entre as legislações de trânsito dos países, a operação do corredor exigirá comunicação permanente entre as instituições responsáveis pela fiscalização das rodovias e pelo combate a crimes que ultrapassam as fronteiras nacionais.
"A gente entende que, com a consolidação da rota, vai precisar dessa integração. Integração não somente de força operacional, mas de compartilhamento de dados, de informação", destacou Bueno.
Nova unidade da PRF será construída em Porto Murtinho
Outra medida prevista é a implantação de uma unidade operacional da PRF no Centro Aduaneiro de Controle de Fronteira, que será construído em Porto Murtinho, nas proximidades da ligação internacional com Carmelo Peralta, no Paraguai.
A estrutura fará parte do complexo brasileiro de acesso à Ponte da Rota Bioceânica e deverá ampliar a presença da corporação em um ponto estratégico para a fiscalização do fluxo internacional de veículos.
"A gente tem já a previsão de uma construção de uma nova unidade operacional da Polícia Rodoviária no Centro Aduaneiro, que vai ser construído lá em Porto Murtinho. Então a gente vai ter uma nova unidade, vai ser o posto de Porto Murtinho", revelou o superintendente.
Embora a instalação esteja prevista, Bueno esclareceu que ainda não há definição sobre o investimento necessário para a nova estrutura. Também não foi apresentado um cronograma específico para a construção ou informações sobre o efetivo que será destinado ao posto.
A localização é considerada estratégica por concentrar a passagem de veículos que utilizarão a ponte internacional e o sistema de acesso rodoviário à BR-267.
Tecnologia será fundamental para fiscalização
Para o superintendente, a preparação da PRF para a nova dinâmica de circulação de veículos não depende exclusivamente da ampliação do número de policiais.
O investimento em recursos tecnológicos é considerado essencial para aumentar a capacidade de fiscalização, apoiar o trabalho das equipes e tornar mais eficiente a atuação nas rodovias. "A PRF tem um efetivo bom, muito competente. Só que o investimento em tecnologia facilita muito o nosso trabalho, principalmente dos policiais que estão operando na pista", afirmou.
Segundo Bueno, a corporação tem priorizado a modernização de suas ferramentas operacionais, enquanto busca ampliar a cooperação e a troca de informações com as instituições policiais dos países vizinhos.
A preocupação é assegurar que o crescimento do transporte internacional seja acompanhado por mecanismos capazes de identificar riscos e apoiar a prevenção e a repressão de crimes.
O superintendente relaciona diretamente a segurança pública à capacidade de Mato Grosso do Sul de atrair investimentos e aproveitar as oportunidades econômicas proporcionadas pelo corredor.
"A gente tem que atuar para que as empresas venham para cá. Para que elas entendam que o Estado é realmente um Estado seguro", ressaltou.
Ampliação do efetivo depende de novos investimentos
Apesar da previsão de instalação do posto de Porto Murtinho, ainda não existe um planejamento anunciado de ampliação de efetivo ou abertura de outras unidades operacionais especificamente para atender à Rota Bioceânica.
Bueno, no entanto, acredita que a corporação poderá passar por uma expansão nos próximos anos, especialmente diante das discussões nacionais sobre a reorganização das atribuições da PRF.
Uma das expectativas está relacionada à proposta de emenda constitucional da segurança pública, que prevê mudanças na atuação da instituição.
O superintendente considera que uma eventual ampliação das atribuições para outros modais de transporte exigirá reforço de pessoal e investimentos em estrutura. "A gente vai poder avançar em outros modais, não somente no rodoviário. Vamos para o ferroviário, vamos para o hidroviário. Então, com toda a certeza, vamos ter que ter um novo concurso. Vamos ter que ter um novo investimento", afirmou.
A possibilidade, entretanto, ainda depende da tramitação e aprovação das mudanças legislativas, além de decisões administrativas e orçamentárias. Não há, até o momento, concurso ou reforço de efetivo anunciado na entrevista especificamente para a operação da Rota Bioceânica.
Acesso à ponte é prioridade nacional para 2027
A previsão da nova unidade da PRF ocorre em um momento decisivo para a infraestrutura da Rota Bioceânica. O TCU (Tribunal de Contas da União) incluiu o acesso rodoviário brasileiro à ponte internacional na relação de 10 obras prioritárias para conclusão em 2027.
Conforme reportagem publicada pelo Campo Grande News em 21 de outubro, o empreendimento lidera a lista apresentada durante a análise do Fiscobras 2026 e necessita de R$ 279,1 milhões para ser finalizado. O valor corresponde a aproximadamente 53% dos recursos estimados para a conclusão dos dez projetos selecionados.
A obra compreende 13,1 quilômetros de ligação entre a BR-267 e a ponte internacional, incluindo o contorno rodoviário de Porto Murtinho e o Centro Aduaneiro de Controle de Fronteira, onde está prevista a instalação do novo posto da PRF.
Em março de 2026, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) informou que o conjunto das intervenções havia alcançado 31,73% de execução, com investimento total estimado em R$ 496,9 milhões.
A indicação do TCU busca subsidiar as discussões sobre a destinação de recursos no Orçamento da União de 2027, mas não assegura automaticamente a liberação dos valores necessários.
Ponte internacional avança para etapa de acabamento
Enquanto a PRF organiza sua preparação operacional, a construção da ponte internacional entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta avança nas etapas de acabamento e instalação de equipamentos.
A estrutura de 1.294 metros teve seus dois lados unidos em 15 de julho de 2026, com o encontro das últimas aduelas sobre o Rio Paraguai.
Desde então, os trabalhos incluem ajustes na tensão dos cabos de sustentação, proteção de estruturas metálicas, pavimentação, sinalização e instalação de dispositivos de segurança.
Com investimento estimado em US$ 103 milhões, financiado pela margem paraguaia da Itaipu Binacional, a ponte representa uma das principais estruturas do corredor. A previsão inicial de entrega, em maio de 2026, foi revista, e ainda não há uma nova data oficial de conclusão informada.
A implantação do corredor também depende da conclusão das obras rodoviárias no Paraguai. Segundo o MOPC (Ministério de Obras Públicas e Comunicações do país), a extensão da Rota Bioceânica no país foi dividida em três trechos para pavimentação. O primeiro, de Carmelo Peralta a Loma Plata, tem 277 quilômetros e já está concluído. O investimento na iniciativa foi de US$ 443 milhões.
Em Carmelo Peralta está sendo construída a Ponte da Bioceânica, que liga o Paraguai ao Brasil por Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul. A obra é outra estrutura fundamental para viabilizar o corredor e deve ser concluída até setembro deste ano.
Já o segundo trecho da rota no Paraguai vai de Cruce Centinela a Mariscal Estigarribia. São 102 quilômetros de extensão, com investimento previsto de US$ 200 milhões e empréstimo já autorizado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Segundo o ministério, enquanto a pavimentação não é executada, a PY09, rodovia já existente na região e que foi remodelada, pode funcionar como alternativa para o trecho.
O terceiro trecho é o da pavimentação de 224 quilômetros da rodovia PY15, entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina.