Capital

IPTU mais alto expõe contrastes entre bairros e critérios usados para reajuste

Entre planilhas e ruas, impacto do imposto varia conforme a região

Por Kamila Alcântara | 15/01/2026 08:55
IPTU mais alto expõe contrastes entre bairros e critérios usados para reajuste
Cruzamento da Rua Jauna com a Catiguá, no Jardim Canguru (Foto: Juliano Almeida)

A atualização do IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana) em Campo Grande, baseada no novo PSEI (Perfil Socioeconômico Imobiliário), atingiu bairros com realidades urbanas bastante distintas. 

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Enquanto moradores de regiões periféricas relatam limitações na infraestrutura, contribuintes de áreas valorizadas questionam aumentos mesmo sem mudanças recentes no entorno. Em comum, estão os impactos financeiros e a dificuldade de compreender os critérios aplicados.

Segundo dados da Prefeitura de Campo Grande, 44,7% dos imóveis da Capital subiram de categoria após a revisão do PSEI, o que influenciou diretamente o valor do IPTU e da taxa de coleta de lixo. A metodologia considera fatores como valorização imobiliária, renda média da região, padrão construtivo e volume estimado de resíduos.

Rua Caruru, no Jardim Canguru em Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)

Levantamento técnico aponta que setores como Jardim Canguru, Paulo Coelho Machado, Jardim dos Estados e Santa Fé apresentam médias mensais elevadas de resíduos coletados. A prefeitura sustenta que “imóveis de maior valor tendem a apresentar padrões de consumo que resultam em maior demanda pelo serviço de coleta”.

No Jardim Canguru, porém, moradores dizem que a classificação não condiz com a estrutura disponível. No bairro, apenas as vias por onde passam ônibus são asfaltadas, não há coleta seletiva e parte dos contribuintes afirma não ter recebido o carnê do IPTU até o início do ano.

A vigilante Maria Eunice Oliveira, de 46 anos, relata que o imposto da casa subiu cerca de R$ 150. “Aqui subiu uns cento e cinquenta reais a mais. A gente recebeu já em cima do prazo para pagar a primeira parcela”, diz. Segundo ela, não houve tempo para planejamento. “Não deu nem para pensar em desconto. A gente acaba pagando porque sabe que, se esperar, demora muito para resolver.”

 Maria Eunice foi a única moradora ouvida pela reportagem, no Jardim Canguru, que recebeu o boleto; o aumento foi de R$ 150 (Foto: Juliano Almeida)

Pelas ruas dos bairros, os moradores disseram ao Campo Grande News que ainda nem receberam os boletos para saber o quanto aumentou ou como vão parcelar. É o caso do barbeiro Wagner Araújo, morador da região há sete anos. “Impostos do carro e da moto chegou. Da casa, nada. Nem sei quanto vai vir”, afirma. Segundo ele, a intenção é aguardar uma definição antes de procurar a Central do Cidadão. “Vou esperar passar um pouco, ver o que decidem.”

Outro lado da cidade - Já no Carandá Bosque, bairro com ruas pavimentadas e serviços urbanos consolidados, os carnês chegaram em dezembro e a coleta seletiva funciona com dias definidos. Mesmo assim, parte dos moradores questiona o reajuste aplicado.

A engenheira civil Carla Belliard, de 63 anos, afirma que o IPTU dos imóveis dela teve aumento médio de 30%. “Teve aumento, sim. Eles dizem que reavaliaram o enquadramento do imóvel, mas isso não procede”, afirma. Para ela, não houve nenhuma melhoria recente que justifique o reajuste. “Zero. Não mudou nada aqui.”

Carla diz que decidiu não pagar o imposto neste momento. “Eu vou esperar resolverem. Já assinei abaixo-assinado para a Câmara rever isso e, até que essa situação seja realmente resolvida, não vou pagar”, relata.

Rua Abricó do Pará, no Carandá Bosque em Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)

Outro morador do bairro, o engenheiro de computação Marcelo Genaro, conta que o valor subiu cerca de R$ 200. “Ano passado foi em torno de mil e quinhentos, esse ano veio perto de mil e setecentos”, diz. Para ele, embora o bairro tenha boa estrutura, o reajuste não veio acompanhado de melhorias. “Não fizemos melhorias no imóvel e nem houve melhorias na região. Então fica difícil entender.”

Ele reconhece que a coleta seletiva funciona, mas pondera. “Aqui passa praticamente todo dia o caminhão, mas mesmo assim a sensação é que o retorno é pequeno perto do que a gente paga.”

A prefeitura argumenta que a revisão do PSEI era necessária porque a base anterior, de 2017, estava defasada e gerava distorções. O estudo foi elaborado pela Gerência de Cartografia da Divisão de Avaliação e Geoprocessamento da Sefaz (Secretaria Estadual de Fazenda), com uso de imagens aéreas e dados do sistema municipal de geoprocessamento.

O levantamento também identificou ampliações não declaradas, incluiu novos imóveis no cadastro e retirou da taxa de lixo residências onde o caminhão da Solurb não realiza coleta.

Sobre os contribuintes que nem chegaram a receber os boletos em casa, a reportagem questionou a gestão municipal, mas ainda não houve retorno. O espaço está aberto para esclarecimentos. 

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