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Defesa nega que Hoffman ficou com R$ 15 milhões do tráfico de drogas

Delegado é réu por desvio de entorpecentes e foi alvo de operação da Polícia Federal contra esquema de facções

Por Ana Paula Chuva e Bruna Marques | 06/11/2026 10:24
Defesa nega que Hoffman ficou com R$ 15 milhões do tráfico de drogas
Nas imagens interceptadas pela PF, o investigado Adel Haidar e o delegado Hoffman aparecem na mesma festa, soltando a voz em karaokê (Foto: Reprodução)

A defesa do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa rebateu as acusações das operações Infiltrados e Ifrit, classificando as suspeitas da polícia como "inconsistentes" e sem amparo em provas diretas. Nesta semana o servidor virou réu por suspeita de desvio de drogas de delegacias e foi alvo da Polícia Federal em ação que investiga esquema de facções. 

RESUMO

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Em entrevista na manhã desta sexta-feira (6), o advogado José Roberto da Rosa sustentou que a tese de que o policial teria lucrado R$ 15 milhões com esquemas criminosos não tem comprovação nos autos. Conforme o defensor, a evolução patrimonial do ex-titular da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) é compatível com seus rendimentos declarados. 

José Roberto explicou durante coletiva de imprensa que Hoffman recebia salário mensal superior a R$ 45 mil, somava bens provenientes do casamento e contraiu um financiamento de mais de R$ 750 mil para construir a residência da família em Campo Grande.

"Se ele tem R$ 15 milhões de reais como lucro, como que a investigação não conseguiu identificar? O carro dele, que foi objeto de sequestro, é financiado, o imóvel que ele está construindo está pelo menos 60% financiado, não há dinheiro em espécie nem nas contas. Infelizmente, eles chutaram esse valor, venderam essa ideia e não encontraram esse dinheiro em canto nenhum", afirmou o advogado.

Policiais da confiança e fotos em eventos -  Em conversas com a defesa ainda na cela da Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros), Hoffman negou integralmente as acusações. 

O advogado ponderou que o cliente desconhecia as irregularidades cometidas nas dependências da delegacia, sendo inserido na investigação por ser o titular da unidade à época.

"Ele nega todas as acusações. Alguns policiais da confiança dele, ao que tudo indica, estariam de fato muito ligados, especialmente alguns que teriam um contato muito próximo com alguns traficantes, mas ele desconhece que os fatos aconteciam na delegacia. O delegado Hoffman está nesta ideia acusatória em razão de que, à época que esses fatos ocorriam, ele era o chefe da DENAR. Ponto", declarou a defesa.

Questionado sobre imagens que mostram o delegado em confraternizações e sessões de karaokê com investigados por tráfico, Rosa alegou que ainda apura a origem e a data dos registros, destacando o contexto da região de fronteira.

"Em Ponta Porã, muitas vezes, você pode ter vários empresários na cidade que têm negócios lícitos, e você pode frequentar a casa dele, e eventualmente, passado um tempo, essas pessoas são descobertas. Nós precisamos verificar qual era a amizade do delegado com essa família, que contexto aconteceu essa confraternização. Era, de fato, ele já sendo o titular da DENAR? Era alguma situação que envolvia alguma facilitação ou isso é lá de trás, enquanto ele era ainda um simples delegado em início de carreira?", questionou o defensor.

Em relação à investigação da Polícia Federal, a defesa ressaltou que a única conduta direta atribuída ao delegado foi a assinatura para liberação de um veículo apreendido com drogas em 2025.

"Nenhuma conduta dele paira com relação ao tráfico de drogas. A única indicação de participação do delegado Hoffman é na liberação de um veículo que foi apreendido com cerca de 50 quilos de cocaína. Liberação do veículo, não da droga", pontuou José Roberto da Rosa.

Investigação repetida - José Roberto aponta ainda a ocorrência de dupla acusação pelo mesmo fato, sustentando que as instâncias estadual e federal investigam os mesmos acontecimentos com personagens distintos por falta de comunicação entre as instituições.

"Nós podemos estar diante de uma investigação que aconteceu sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo fato, uma no âmbito federal e outra no âmbito estadual. E isso pode, eventualmente e futuramente, ser explorado a gerar uma nulidade nesse processo, porque nós temos aqui um evidente bis in idem", ressaltou o advogado.

Outro ponto de questionamento é a recente transferência de Hoffman para o Presídio Federal de Campo Grande, ocorrida na última quarta-feira. Para a defesa, a medida é desproporcional e desprovida de fundamentação.

"O ingresso dele no presídio federal, ao meu ver, é completamente fora do game jurídico, não encontra amparo em nada. Nós não estamos diante de um sujeito perigoso, nós não estamos diante de um malfeitor que já tem antecedentes criminais. Não me parece que o presídio federal seja a melhor opção nesse momento", concluiu a defesa, que aguarda o acesso às decisões para requerer a revogação da medida.

Adel e Hoffman se despedem com abraço e delegado segue até a sede da Garras, segundo a investigação (Foto: PF/Reprodução)

Delegado que virou traficante - Com 17 anos de carreira policial, o delegado Hoffman ingressou na Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em 2014, após atuar como escrivão em Goiânia (GO). Passou por delegacias de Costa Rica e Campo Grande até chegar à Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), onde começou a trabalhar em 2019. Depois, assumiu a titularidade da unidade e permaneceu no comando até fevereiro de 2026.

Durante esse período, participou de operações e apreensões de grande quantidade de drogas. Uma delas ocorreu em maio de 2024, quando a Denar anunciou a apreensão de aproximadamente 650 quilos de cocaína em Bela Vista, avaliada em R$ 15 milhões. Posteriormente, o Gaeco apontou que mais de 400 quilos daquela carga teriam sido desviados e negociados com traficantes.

O caso passou a integrar as investigações da Operação Infiltrados, deflagrada em 24 de setembro de 2026. Hoffman é apontado como liderança de um esquema que envolvia policiais e integrantes do tráfico. Segundo a denúncia, os agentes retiravam drogas apreendidas ou omitiam parte dos entorpecentes dos registros oficiais para repassá-los a criminosos. Pelo menos 637 quilos teriam retornado ao mercado ilegal.

O esquema também envolveria o traficante Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK, apontado como intermediário entre os policiais e os compradores. Em outubro, o Gaeco denunciou 23 pessoas por crimes como organização criminosa, peculato, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.

A movimentação financeira de Hoffman também foi investigada. O Gaeco identificou R$ 436,7 mil em créditos bancários de origem desconhecida ou insuficientemente identificada, além de investimentos milionários e patrimônio incompatível com os rendimentos declarados.

Em 4 de novembro, o delegado voltou a ser alvo de mandado de prisão, desta vez na Operação Ifrit, da Polícia Federal. A investigação apura um esquema de tráfico internacional de drogas e armas e aponta que aproximadamente duas toneladas de cocaína teriam sido desviadas do depósito da Denar ao longo de dois anos.

Para disfarçar a retirada, segundo a investigação, os envolvidos substituíam a cocaína por uma mistura de amido de milho, fermento e outras substâncias. A droga original era comercializada, enquanto o material adulterado permanecia armazenado e seguia para destruição. A PF estima que Hoffman tenha obtido pelo menos R$ 15 milhões com o esquema, além de receber bens como veículos e imóveis.

Com as duas operações, o delegado passou a responder a investigações sobre o uso da estrutura policial para favorecer organizações criminosas. As acusações ainda dependem de julgamento, e a defesa contesta as medidas judiciais.

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