Apelidos, karaokê, selfies e abraços expõem laços de delegado com o tráfico
“Careca” ou “Batman” para os íntimos, Hoffman aparece em festas e reuniões secretas com traficantes

Uma festa com karaokê, abraços antes do expediente, encontros para discutir possíveis execuções e traficantes sorridentes dentro da delegacia. As imagens que a PF (Polícia Federal) encontrou durante as apurações que desembocaram na Operação Ifrit escancaram a relação entre o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa e integrantes de organizações criminosas voltadas ao tráfico de drogas.
RESUMO
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Imagens obtidas pela Polícia Federal na Operação Ifrit mostram o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar, em convivência com integrantes do clã Haidar, suspeito de comandar tráfico internacional com ligação ao PCC. Há registros de festa com karaokê, conversas sobre possíveis execuções e visitas de traficantes à delegacia. A PF suspeita de desvio de duas toneladas de cocaína e de vazamento de operações. Hoffman está preso e a defesa diz não ter acesso aos autos.
Chamado de “Careca” por traficantes investigados pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) e suspeito de ser o “Batman” que compartilhava informações policiais com o “Clã Haidar”, alvo da PF, o policial que comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) por 7 anos aparece em gravações e fotografias ao lado de quem deveria combater.
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Deflagrada nesta quarta-feira (4), a Operação Ifrit mira organização criminosa que teria movimentado mais de R$ 500 milhões em dois anos. A ofensiva esteve em sete estados para cumprir 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e 1 de prisão temporária. A Justiça também determinou o afastamento de 3 policiais civis, bloqueios de até R$ 300 milhões e sequestro de imóveis e veículos.
A investigação aponta que a família Haidar, de Ponta Porã, comandava uma rede de tráfico internacional de drogas e armas com conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense).
A “proteção” oferecida por agentes públicos seria uma das peças dessa engrenagem. Segundo a PF, policiais recebiam dinheiro e vantagens para fornecer informações sigilosas, antecipar operações, facilitar a liberação de bens apreendidos e ajudar a localizar adversários da organização. Os dados permitiam monitorar veículos, endereços e celulares de rivais, que se tornavam alvos de ameaças, atentados e até homicídios. Hoffman aparece no centro das suspeitas de colaboração com o grupo.
Karaokê e mortes – Um dos registros interceptados pela PF mostra que em 31 de maio de 2025, quando ainda chefiava a Denar, Hoffman participou de uma confraternização com Adel Hassan Haidar, empresário apontado como uma das lideranças da organização. O vídeo encontrado pelos investigadores mostra o delegado de boné, camiseta, crucifixo de ouro e microfone na mão, durante uma festa com karaokê em Ponta Porã.
O membro do “Clã Haidar” também aparece na gravação. Para a PF, as imagens ajudam a demonstrar que a relação entre os dois não se restringia a contatos ocasionais de “negócios”.
A intimidade ganha contornos mais graves em outra gravação. Hoffman aparece sentado à mesa, aos 3 minutos e 20 segundos de uma videochamada com Adel e Adule Vasques Haidar, filho do empresário e apontado como uma das lideranças operacionais do grupo. Segundo descrito na decisão judicial que viabilizou a operação, os participantes discutiam conflitos internos, ameaças e possíveis execuções, inclusive assuntos relacionados a um homem identificado como Higor, chamado de informante pelos criminosos.
Outro encontro, em 22 de novembro de 2025, também chamou a atenção dos investigadores. Hoffman estava com Adel quando o empresário apareceu empunhando uma arma longa, em situação descrita pela PF como um aparente teste de pontaria. Mais uma vez, o delegado estava na companhia de um integrante da cúpula da organização que sua unidade policial tinha a missão institucional de combater.
Selfies em delegacia – A intimidade também chegou às instalações da Polícia Civil. Em 16 de dezembro de 2025, Adule e Vitor da Silva, também apontado como integrante da quadrilha do tráfico, tiraram selfies dentro da Denar. Sorridentes, os dois posaram diante de uma porta identificada como “Diretoria de Investigação”, provavelmente a sala de Hoffman, e também com o painel contendo o símbolo da delegacia ao fundo, local geralmente usado para a divulgação de apreensões. As fotografias foram encontradas pela PF durante a análise de arquivos dos investigados.
Nenhum dos dois integrava o quadro de servidores da unidade. Para os investigadores, o acesso dos suspeitos às dependências policiais reforça a hipótese de que o grupo circulava livremente pela delegacia.
O deboche com a falta de atuação da polícia contra a família investigada ficou registrado também em fotografia de 25 de julho de 2021, quando Adule Haidar enviou a outro integrante do grupo uma selfie em frente a uma viatura da Garras, onde estavam os policiais Andrey Elesbão e Douglas Silva, também investigados na operação. O autor da foto escreve: “Polícia parou aqui, kkkkkkkkkkk”.
As selfies não são os únicos registros que a PF relaciona ao “passe livre”. Nos arquivos vasculhados, policiais encontraram fotografias de volumes semelhantes a tabletes de cocaína e vídeos que mostram a prensagem de substâncias, testes químicos e materiais com identificadores parecidos com os de carregamentos recolhidos pela polícia. A investigação relaciona essas gravações à suspeita de que a organização retirava cocaína do depósito da Denar e colocava em seu lugar uma mistura adulterada, destinada à posterior destruição oficial.
O esquema teria permitido o desvio de aproximadamente duas toneladas de cocaína em cerca de dois anos. A PF suspeita que Hoffman tenha “lucrado” R$ 15 milhões com a comercialização da droga, além de vantagens patrimoniais, entre elas veículos, uma mansão no Alphaville, em Campo Grande, e um sítio em Pirenópolis (GO). A investigação apura negócios e transferências que teriam utilizado empresas e pessoas próximas ao delegado para movimentar os recursos.
Abraço e retorno à Garras – A mudança de delegacia não encerrou a relação, também aponta a PF. Em fevereiro de 2026, Hoffman deixou a Denar e assumiu a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros), que comandou até junho deste ano.
Em março, agentes federais monitoraram um novo encontro entre ele e Adel. Os registros documentam a proximidade e a despedida dos dois, com um abraço. Na sequência, um Volkswagen Virtus acompanhado pela equipe seguiu até a sede da Garras.
A investigação também reúne imagens e informações sobre operações da Garras que chegaram ao conhecimento de Adule. O material aparece em conversas com um contato identificado como “Batman”, que a PF suspeita ser Hoffman. Em 11 de março de 2026, o interlocutor encaminhou fotografias e detalhes sobre uma apreensão realizada pela unidade, envolvendo aproximadamente 700 quilos de cocaína e pasta-base. Adule chegou a perguntar qual droga havia sido encontrada.
A suspeita de vazamento não se limita a esse episódio. Em dezembro de 2025, ainda durante a gestão de Hoffman na Denar, Adule perguntou a “Batman” sobre possíveis operações nas rodovias. O interlocutor respondeu que verificaria a situação. A PF considera os diálogos indícios de que a organização conseguia obter informações sobre ações policiais por meio de um contato com acesso à estrutura de segurança pública.
Outros policiais na engrenagem – Hoffman não é o único policial civil de Mato Grosso do Sul investigado na Ifrit. Os investigadores Douglas Tobias e Andrey Elesbão Silva também aparecem entre os agentes suspeitos de colaborar com a organização.
No caso de Andrey, a PF identificou conversas nas quais Adule solicitava consultas sobre pessoas, veículos, endereços e patrimônio. O investigador teria repassado informações obtidas em sistemas restritos e discutido a possibilidade de buscar outros dados. Para a investigação, o acesso a essas informações ajudava o grupo a acompanhar adversários e localizar pessoas de seu interesse.
Douglas Tobias, por sua vez, aparece nas duas operações. Investigado pelo Gaeco por suspeita de participação no desvio de drogas do “estoque” da Denar, ele voltou à mira das autoridades na Ifrit. Durante as buscas de quarta-feira, a PF apreendeu na residência dele, no Alphaville, um Ford Mustang Shelby GT500 avaliado em R$ 370 mil e registrado em nome de empresa da esposa. A investigação examina movimentações financeiras e a origem de bens associados ao policial.
Conforme a PF, integrantes das forças de segurança também teriam colaborado para intimidar rivais, interferir em investigações, ocultar provas e facilitar a liberação irregular de drogas e veículos apreendidos. A organização utilizaria esses serviços para proteger carregamentos, preservar seus negócios e atingir adversários, principalmente na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
Do “Careca” ao “Batman” – O apelido “Careca” foi revelado pela Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco em setembro. Conforme mostrou o Campo Grande News, um traficante usava o termo para se referir a Hoffman, apontado pelo Ministério Público como chefe de uma estrutura formada por 12 policiais suspeitos de desviar entorpecentes apreendidos para revendê-los no mercado ilegal.
A investigação do Gaeco aponta que o esquema começou em 2021, dois anos depois de Hoffman assumir a Denar. Enquanto alguns policiais localizavam carregamentos e participavam das apreensões, outros cuidavam do repasse da droga aos compradores. O delegado teria a responsabilidade de dar respaldo às operações. Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, seria o intermediário entre os agentes e os traficantes interessados nas cargas.
A Ifrit acrescentou outra dimensão às suspeitas contra Hoffman. Se a Infiltrados descreve o delegado como responsável por dar “sustentação institucional” a um esquema de revenda de drogas, a investigação da PF apresenta registros de sua convivência com a cúpula de uma organização de tráfico internacional.
O delegado está preso desde setembro e recebeu outro mandado de prisão preventiva na operação desta quarta-feira. Ele foi encaminhado ao Presídio Federal de Campo Grande.
Outro lado – Na ocasião da nova prisão, a defesa afirmou que ainda não havia tido acesso integral aos autos e considerou prematuro se manifestar sobre as acusações.
O advogado Luiz Renê Gonçalves, que representa o investigador Douglas Tobias, informou que ainda não teve acesso à documentação completa da Operação Ifrit e, por isso, não pode se manifestar sobre as suspeitas. Ressaltou que a investigação está em andamento e que ainda não há definição sobre eventual indiciamento ou denúncia contra o cliente.
O espaço segue aberto para as manifestações dos demais citados.