Reportagens Especiais

Aberto por nordestinos nos anos 90, restaurante resiste à crise do Centro

Família tocava o Bar Tropical e o Souza Restaurante, no passado, e hoje mantém o Souza Grill

Por Cassia Modena | 09/03/2026 09:48
Aberto por nordestinos nos anos 90, restaurante resiste à crise do Centro
Com guarda-chuva para se proteger do sol, pedestre passa em frente à atual fachada do restaurante, na Rua Dom Aquino (Foto: Osmar Veiga)

Antes, o Centro de Campo Grande fazia valer seu significado: era o centro da vida urbana, concentrava mercadorias, serviços e pulsava com o fluxo de pessoas. Por diversos fatores econômicos, de comportamento e de planejamento, hoje enfrenta crise que o deixa esvaziado de gente e de negócios. Esse fenômeno não é só local, é mundial.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Uma família nordestina que chegou à região numa época de ouro representa muito bem essa transição. Entre 1993 e 1995, montou um bar com samba aos finais de semana e um restaurante na Rua Rui Barbosa que deram certo. O primeiro se chamava Tropical e o segundo era o Souza, sobrenome que o casal de comerciantes Miguel e Juditi compartilhava e deu aos seus cinco filhos. 

O caçula de 16 anos e os irmãos ajudavam os pais a tocarem os negócios desde sempre. Já trabalhavam desde a época em que os retirantes foram para São Paulo (SP) tentar melhorar a vida. 

Em Pernambuco, Miguel tinha uma propriedade rural e era patrão. Colocou todas as suas economias no banco e estava tranquilo, até 80% do valor ser confiscado pelo Plano Collor. Juditi atuou na política e era mulher à frente do seu tempo que se viu obrigada a migrar com o marido e suas crianças para sobreviver à falta de dinheiro e à perda do patrimônio que tinham. Estudou pouco, mas era uma exímia leitora e entendia de muitos assuntos, além de cozinhar muito bem.

Filho mais novo dos nordestinos, Emerson conta a história do casal e do negócio (Foto: Osmar Veiga)

A família quase foi para Rondônia. Mato Grosso do Sul estava crescendo e parecia uma opção melhor. E para eles foi, porque clientes não faltaram nos primeiros anos. O casal e os filhos moraram no prédio comercial que alugaram, dormiram em colchões e colchonetes no segundo andar e economizaram no que era possível.

O bar fechou e virou restaurante. A comida de Juditi tinha um tempero especial que conquistou o gosto dos campo-grandenses e virou a preferida de muitos que trabalhavam no Centro ou estavam de passagem.

Miguel e Juditi eram católicos e frequentavam a Igreja São José, que ficava bem próxima ao comércio. Eles e os filhos iam a pé. A família não perdia uma missa e era conhecida da comunidade religiosa.

Mais tarde, abriram também duas pequenas lanchonetes em frente a pontos de ônibus. Pastel e Tubaína em saquinho com canudo era o combo que mais saía. Os clientes compravam antigas fichas de ônibus no comércio ou podiam trocá-las pelo lanche. Naquele tempo, a região era cheia de gente até altas horas da noite e muitas pessoas que dependiam do transporte público circulavam por lá. A família encerrava o dia de trabalho quando funcionários da prefeitura começavam a lavar as calçadas e ruas do Centro.

Emerson, o filho mais novo, também era camelô. Viajava para a fronteira com o Paraguai e trazia de cigarros a vasilhas para vender na banca montada na Rua Rui Barbosa. Foi um dos que insistiu em ficar no local mesmo após o processo de remoção dos vendedores ambulantes para o prédio do Camelódromo, anos depois construído na Avenida Afonso Pena.  

Emerson e a esposa Erica dão continuidade ao Souza Restaurante (Foto: Osmar Veiga)

Os irmãos curtiram boa parte da juventude no Clube Viola de Ouro, a poucas quadras do restaurante. Foi lá que o caçula conheceu a gaúcha Erica Carla Rodrigues, também camelô, e se apaixonou. Namoraram e casaram. 

Fechou

O restaurante fechou as portas em 2008, quando Miguel e Juditi já estavam cansados de trabalhar e o Centro começava a perder sua força. Adultos e casados, os filhos criaram seus próprios negócios e cuidaram dos pais até eles morrerem.

Todos viraram comerciantes, exceto o caçula, que decidiu mexer com construção civil. A empresa cresceu rápido e começou a erguer grandes lojas do varejo em outros estados. 

Ela ia bem até a retração da economia brasileira atingir a construção civil. Em 2014, ele se viu endividado e quebrou. Em casa, quase não havia o que comer. Foi a esposa Erica quem manteve a casa com o trabalho em um salão de beleza.

Os dois filhos do casal estavam adultos quando Emerson decidiu reabrir o restaurante dos pais na Rua Dom Aquino, quase esquina com a rua onde tudo começou. Pegaram um empréstimo de R$ 20 mil e compraram o que era necessário para começar de novo. 

Recomeço 

O antigo nome, Souza Restaurante, virou Souza Grill. A filha do casal atendia clientes nas mesas, o filho ficava no caixa, Erica cozinhava e Emerson fazia todas as outras tarefas que iam surgindo. 

Aos poucos, foi possível melhorar o lugar. Cadeiras novas, contratação de funcionários e o churrasco como carro-chefe. As dívidas liquidadas e a situação em casa se reorganizando.

Um contrato com uma operadora de telefonia e outras empresas fez o restaurante ficar bastante movimentado e entrar mais dinheiro. A família Souza abriu outras unidades nessa época.

Balcão para autoserviço no restaurante, hoje aberto próximo ao local onde era o antigo (Foto: Osmar Veiga)

Passaram praticamente ilesos dos efeitos da pandemia de covid-19 porque conseguiram um contrato para fornecer alimentação a servidores da Segurança Pública. Investiram rapidamente nas entregas e isso garantiu o caixa. 

Crise no Centro

Mas o esvaziamento do Centro e o processo de recuperação judicial de uma empresa cliente estremeceram o Souza Grill. Foi preciso vender bens para pagar funcionários que precisaram ser demitidos das outras unidades. Ficaram apenas com o restaurante da Rua Dom Aquino.

O que manteve o negócio vivo foi a fidelidade de quem conhece o local desde a época de Miguel e Juditi, além de estratégias para se adaptar aos novos tempos. Uma delas foi colocar um boi de acrílico na calçada para indicar que ali tem churrasco.

Medalhas e certificados que o Souza Grill recebeu como reconhecimento após reabrir (Foto: Osmar Veiga)

Mais presença nas redes sociais, descontos para categorias profissionais como os funcionários da Segurança Pública, que já conheciam o sabor, e entregas rápidas e com embalagens iguais às popularizadas por redes nacionais foram outras práticas que ancoraram o restaurante.

Vão abandonar a região em crise?

O Centro está atrelado à história do Souza Grill e à do casal, que está junto há mais de 30 anos. Para Emerson e Erica, é praticamente impossível deixarem o lugar onde nasceu o restaurante, onde se conheceram e de onde veio o sustento dos filhos.

"Dá desgosto de ver o quanto tudo mudou, mas a gente está se adaptando à nova realidade. No meu ponto de vista, estamos atrasados, andamos para trás no Centro. Só que o investimento que fizemos aqui é tão grande e estamos carregando o nome dos meus pais. Aqui, existe um legado, amigos antigos. Não temos como sair daqui", diz Emerson.

História do casal se enlaça na do Centro; eles não querem ter que deixá-lo (Foto: Osmar Veiga)
Casal no avião com os dois filhos, criados a partir do que veio do Centro (Foto: Arquivo pessoal)

Erica tem carinho pela região. "Chegamos a morar aqui, nossos filhos andavam de bicicleta por essas calçadas. Conhecemos muita gente aqui, o pessoal do Centro é uma grande família", afirma. 

Eles pretendem insistir no Centro. "Não vamos abandonar. Vamos continuar nos adaptando e vamos cobrar do Poder Público que essa situação melhore. Só não deixaremos. Tudo nosso está aqui", finaliza o comerciante.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.

Veja Mais