Política

Vitória de Lula amplia espaço da esquerda na disputa política em MS

Fábio Trad e Camila Jara juntam forças para tentar romper o longo domínio de Reinaldo e Riedel

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 27/10/2026 05:29
Vitória de Lula amplia espaço da esquerda na disputa política em MS
Na montagem, o governador Eduardo Riedel (PP), presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ex-deputado federal Fábio Trad (PT) (Foto: Arquivo/Divulgação)

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) coloca o Brasil como ator relevante no tabuleiro internacional, redesenha a correlação de forças nacionais e deve provocar um rearranjo na política de Mato Grosso do Sul.

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Mesmo derrotados na disputa pelo governo estadual no primeiro turno, o PT e seu ex-candidato, Fábio Trad (PSD), saem fortalecidos para organizar uma oposição consistente ao governo de Eduardo Riedel (PSDB) e ao bolsonarismo no Estado. A vitória nacional também preserva para a esquerda o acesso à estrutura federal, com influência sobre políticas públicas e cargos estratégicos, impedindo que a direita concentre o poder nos âmbitos estadual e federal.

A força jovem - A mudança começa pela renovação das lideranças, com a deputada federal Camila Jara (PT) como uma das principais expoentes da esquerda sul-mato-grossense. Reeleita com 157.157 votos neste ano, ela se tornou a parlamentar mais bem votada da história de Mato Grosso do Sul em eleições para a Câmara dos Deputados. No próximo ano, será a única representante da esquerda estadual no Congresso, em uma bancada de 11 integrantes (três senadores e oito deputados federais) dominada pela direita e pela extrema-direita.

A atuação de Camila nos palanques de Lula durante o segundo turno e sua capacidade de comunicação digital podem abrir espaço para a deputada no governo federal. Fábio Trad considera que ela reúne atributos para assumir uma função nacional ligada à juventude.

“A Camila é um quadro importantíssimo. Na minha avaliação, ela pode representar a força da mulher e da juventude numa Secretaria Nacional da Juventude no quarto mandato de Lula”, afirma. E completa: “Ela tem uma liderança espontânea, perfil e capacidade. Vamos ver se ela topa, né?”

Trad também destaca a aproximação da deputada com André Janones (Rede-MG), que comandou o chamado “Exército de Lula” no ambiente digital. “A Camila comunica-se muito bem no plano digital e dialoga com o Janones”, diz. Depois de garantir a reeleição, ela participou de atos da campanha presidencial pelo país, consolidando-se entre os quadros jovens que podem ajudar a sustentar a frente política vitoriosa em 2026 e a preparar a sucessão de Lula, que concluirá o quarto mandato com 85 anos, em 2030.

A disputa pela sucessão presidencial começa a se desenhar em meio à necessidade de preservar a coalizão que reelegeu Lula e conter o avanço do bolsonarismo. Nesse cenário, Mato Grosso do Sul ganha relevância como território de enfrentamento político.

Fábio Trad afirma que a mobilização do segundo turno foi decisiva para ampliar a votação do presidente, que recebeu no Estado 112 mil votos a mais do que no primeiro turno, pouco mais de 40% do eleitorado, e avalia que o resultado abre uma nova etapa para a esquerda no Estado.

Para Trad, a permanência do PT no Planalto impede que a direita concentre também o poder federal no Estado e cria condições para fortalecer a oposição ao grupo liderado pelo senador eleito Reinaldo Azambuja (PSDB) e pelo governador Eduardo Riedel (PSDB). 

“Equilibra, impede o monopólio, não é?”, afirma, ao avaliar o efeito da vitória de Lula sobre a correlação de forças regional. A hegemonia do grupo dominante se apoia em setores do agronegócio e da indústria, além de alianças que vão do centro à extrema-direita. A senadora Tereza Cristina (PP), que participou da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) no país, pede que os correligionários se mantenham organizados para fazer oposição a Lula. "Nós precisamos continuar mobilizados para cobrar tudo que desejamos!"

O cientista político Wander Medeiros, professor de Direito da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), avalia que a reeleição de Lula tende a provocar insatisfação em parte do eleitorado sul-mato-grossense, devido ao perfil predominantemente de direita da população. Do ponto de vista econômico, porém, ele não espera grandes sobressaltos. “O governo Lula tem se conduzido bem no agronegócio, como mostra o Plano Safra”, afirmou.

O grupo político dominante no Estado completará 16 anos consecutivos no governo em 2030 e poderá ampliar esse período de hegemonia caso não encontre um adversário capaz de romper seu domínio. 

Influência dos cargos - A influência da oposição passa também pela ocupação de cargos federais estratégicos em Mato Grosso do Sul. A estrutura permite articular investimentos, acompanhar obras como as da Rota Bioceânica, facilitar o acesso a linhas de financiamento e definir prioridades administrativas, embora a destinação de recursos dependa de critérios legais e orçamentários.

Entre os postos de maior relevância estão os da Sudeco (Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste) e do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), ligados, respectivamente, ao desenvolvimento regional e às obras de infraestrutura. Também são estratégicas as chefias da PF (Polícia Federal), da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e da Receita Federal, fundamentais para a segurança e a fiscalização das fronteiras.

A lista inclui ainda as superintendências de Agricultura e Pecuária, Trabalho, Pesca e Aquicultura, Desenvolvimento Agrário e Patrimônio da União; as representações do Incra, Funai, Ibama, ICMBio, CGU, Anatel, Conab, Embratur e Funasa; o DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena); e a HU Brasil, antiga Ebserh, responsável pela gestão de hospitais universitários federais. Há também estruturas regionais ligadas ao desenvolvimento agrário e à área trabalhista.

Em conjunto, esses postos abrangem infraestrutura, crédito, segurança, fiscalização, meio ambiente, saúde, política indigenista, reforma agrária e desenvolvimento econômico. São áreas que dão ao governo federal capacidade de influência sobre temas centrais para o Estado.

Segurança e geopolítica - Entre essas áreas, a segurança pública tem peso especial. Principal preocupação da campanha, o tema também tem implicações geopolíticas e é central para Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com Paraguai e Bolívia e integra rotas internacionais de drogas e armas. Durante a campanha, Lula anunciou que recriará o Ministério da Segurança Pública e defendeu maior participação federal no enfrentamento da criminalidade. Uma eventual aprovação da PEC da Segurança poderá redefinir a coordenação entre União e estados em uma área cuja organização constitucional, desde 1988, atribui papel central aos governos estaduais. Lula afirmou durante a campanha que os estados não conseguem controlar o crime organizado.

O Brasil ocupa posição estratégica nas rotas internacionais da cocaína, conectando países produtores andinos a mercados consumidores na Europa e em outros continentes. Ao mesmo tempo, facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho ampliam sua atuação para além das fronteiras. Essas organizações controlam rotas, movimentam bilhões, infiltram-se em atividades econômicas e estabelecem redes transnacionais. O enfrentamento exige cooperação internacional, inteligência financeira e controle de fronteiras, mas também coloca o Brasil no centro de divergências com os Estados Unidos sobre a classificação e as estratégias de combate a essas facções.

Oposição organizada - Fábio Trad atribui a derrota da direita nacional à mobilização de diferentes setores da sociedade, mais motivados pelo receio de um retrocesso autoritário do que pela avaliação do governo. “Houve um levante popular com a mobilização de todas as forças comprometidas com a democracia no país”, afirma. 

Trad também reconhece que Lula precisará negociar com o centro e a centro-direita para assegurar governabilidade mexendo na composição do governo. “O presidente Lula vai ter que fazer concessões com a direita, inclusive na composição do governo. Ele sabe fazer, ele precisa fazer”, diz. Mas adverte que, se a oposição apostar no confronto permanente, a disputa poderá voltar às ruas: “Se não aceitar, o jogo vai pra rua de novo. E nós estamos mobilizados”.

O ex-candidato afirma não ter condicionado seu apoio a Lula à conquista de cargos federais. Diz que considera sua participação na campanha uma vitória política e que só avaliaria eventual convite para integrar o governo se pudesse ampliar sua contribuição ao país. “A minha expectativa já foi atendida com o fato de o fascismo não voltar ao país”, afirma.

No plano estadual, sua aposta é transformar o resultado nacional em força política organizada. Trad pretende cobrar da bancada estadual do PT uma oposição capaz de se apresentar como alternativa real ao grupo que governa Mato Grosso do Sul. “Cobrar da bancada estadual eleita uma oposição séria, republicana, construtiva”, resume.

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