Política

OAB repudia listas de boicote a comerciantes por preferência política

Subseção da entidade em Três Lagoas orienta atingidos a relatar casos e prevê pedidos de investigação

Por Mylena Fraiha | 28/10/2026 13:05
OAB repudia listas de boicote a comerciantes por preferência política
Mensagens compartilhadas em grupo de WhatsApp de apoio a Flávio Bolsonaro em Dourados (Foto: Direto das Ruas).

A 2ª Subseção da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul), que abrange Três Lagoas, Brasilândia e Selvíria, repudiou nesta quarta-feira (28) a elaboração e a distribuição de listas que incentivam o boicote a comerciantes e profissionais por preferência política. A entidade orientou os atingidos a comunicar os casos e afirmou que poderá encaminhar pedidos de apuração ao Ministério Público e à polícia.

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A manifestação ocorre em meio à circulação de listas em redes sociais e grupos de WhatsApp em Mato Grosso do Sul. Nos registros mais recentes, enviados de Dourados ao Campo Grande News nesta quarta-feira, participantes associam estabelecimentos ao PT e defendem comprar apenas de pessoas de direita. As conversas também contêm incentivo à discriminação de nordestinos na contratação e à violência contra vendedores de redes.

Na nota, a OAB afirma que as listas atacam a honra, a imagem e a liberdade política das pessoas, com especial gravidade quando direcionadas a profissionais da advocacia. “Toda manifestação de segregação, discriminação ou perseguição em razão de preferência política é inaceitável e incompatível com os valores republicanos”, declarou a entidade.

A subseção informou que profissionais que se sentirem lesados ou ofendidos podem formalizar a comunicação. A partir desses relatos, a entidade pretende solicitar investigação para eventual responsabilização dos autores.

“Munida de tais elementos, a OAB adotará as providências cabíveis, encaminhando pedidos formais de rigorosa apuração ao Ministério Público e à Polícia, para a devida responsabilização cível e criminal dos autores”, diz a nota.

A reportagem também procurou a Abrasel-MS (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Mato Grosso do Sul) e a Fecomércio-MS (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Mato Grosso do Sul).

As entidades, que representam empresas de alimentação fora do lar, comércio, serviços e turismo, informaram que vão preparar notas de posicionamento com orientações aos comerciantes. As respostas ainda eram aguardadas, e o espaço permanece aberto para manifestação.

Listas – Nos prints enviados à reportagem, participantes de um grupo de apoio ao candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), compartilham uma relação de estabelecimentos de Dourados, a 251 quilômetros de Campo Grande, que associam a apoiadores do PT. “Quem é direita só compra em pessoas de direita”, escreveu um participante. Em outra mensagem, um integrante pede que a lista continue a ser atualizada.

Além do chamado ao boicote, há mensagens de teor discriminatório. Um participante escreve “E não contratar nordestino”. Outra mensagem incentiva agressões contra nordestinos que vendem redes nas ruas e recebe reações de riso.

Em uma publicação no Facebook, também encaminhada ao jornal, uma lista de comércios de Dourados aparece acompanhada da frase “Não compre de um comunista”. A relação apresenta empresas de diferentes ramos como alvos de boicote por suposto posicionamento político dos proprietários.

A inclusão dos nomes nessas listas representa uma associação feita pelos autores das publicações e não comprova a preferência partidária dos comerciantes citados.

Conforme já noticiado pelo Campo Grande News, listas semelhantes circularam em Camapuã, a 140 quilômetros da Capital. Integrantes de um grupo de WhatsApp de apoio a Flávio Bolsonaro reuniram nomes de comerciantes, prestadores de serviços e pessoas ligadas à administração pública que apontavam como vinculados à esquerda.

Mensagens em grupo de Camapuã mostram participantes comentando sobre a possível presença de um apoiador do PT (Foto: Direto das Ruas)

Nas conversas, um participante defendeu diretamente o boicote a petistas. Outra integrante questionou a presença de possíveis apoiadores do PT no grupo e sugeriu que um deles estaria disfarçado.

A circulação dos registros também provocou preocupação entre os participantes. Um deles afirmou que os nomes de quem acrescentava comerciantes à relação estavam sendo divulgados fora do grupo.

Um dos estabelecimentos citados procurou a reportagem e manifestou receio de sofrer prejuízos financeiros por divergências políticas. “Não acho justo que alguém tenha seu trabalho colocado em risco por causa de uma disputa política, muito menos que outras pessoas sejam incentivadas a deixar de consumir em determinado estabelecimento como forma de punição ideológica”, afirmou o representante do empreendimento.

O empresário defendeu o direito de cada pessoa escolher em quem votar e criticou o uso da preferência política para constranger ou prejudicar quem pensa de outra forma. “Nosso compromisso é com os nossos clientes e com a nossa cidade. Nunca acreditamos que a pessoa precise pensar igual à gente para ser bem recebida no nosso estabelecimento”, disse.

Após a divulgação dos nomes associados à esquerda, integrantes do grupo passaram a organizar outra relação, intitulada “Profissionais de Direita”, para incentivar compras e contratações entre pessoas com o mesmo posicionamento político. “Assim, vamos conhecer e valorizar quem está do nosso lado, dando preferência para contratar e comprar dos nossos!”, escreveu uma participante.

A lista reuniu dezenas de nomes e estabelecimentos de setores como alimentação, transporte, serviços automotivos, construção civil e agronegócio.

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