Ida de Flávio aos EUA divide deputados de MS e abre debate sobre “nova” direita
Parlamentares divergem sobre a viagem após derrota para Lula e avaliam os rumos da oposição

A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu discussão sobre o futuro da direita brasileira e a possibilidade de surgimento de uma liderança política que não esteja vinculada diretamente à família Bolsonaro.
RESUMO
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Deputados estaduais de Mato Grosso do Sul divergem sobre a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil após a derrota para Lula. Pedro Caravina, do PSDB, vê chance de surgir uma liderança de direita sem vínculo com os Bolsonaro. Coronel David, do PL, fala em perseguição. Paulo Duarte e Gerson Claro evitam conclusões, e Pedro Kemp, do PT, chama o episódio de fuga. O senador é investigado, mas não foi condenado.
Em Mato Grosso do Sul, deputados estaduais ouvidos pelo Campo Grande News apresentaram avaliações distintas sobre a viagem do parlamentar aos Estados Unidos, a atuação do Judiciário e os caminhos da oposição ao governo federal.
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O deputado estadual Pedro Caravina (PSDB) avalia que o episódio, apesar de representar um problema para a direita, também pode criar uma oportunidade para o campo político se reorganizar e superar a dependência do bolsonarismo. Para ele, a oposição precisa construir um projeto próprio e encontrar um nome capaz de assumir o protagonismo sem necessariamente pertencer ao clã.
“É o momento de surgir um novo líder de direita que não precise ser efetivamente bolsonarista. A direita não é só Bolsonaro”, afirmou Caravina.
O parlamentar disse considerar negativa a saída do País de um político que, segundo ele, recebeu cerca de 60 milhões de votos. Ao mesmo tempo, ponderou que a situação política e judicial envolvendo a família Bolsonaro exige uma análise que considere as circunstâncias do caso.
Caravina também defendeu a aproximação de partidos de centro e centro-direita para a construção de uma alternativa política à polarização entre Lula e o bolsonarismo. Na avaliação dele, o PSDB, apesar da redução de seu espaço nacional, poderia participar desse movimento ao lado de outras legendas.
“Esse centro-direita, esse centro, acredito que tem que se juntar. Temos aí o Podemos, que fez 27 deputados, para começar a apresentar um projeto consistente para o Brasil”, declarou.
Para o deputado, a polarização prejudica o País e dificulta a consolidação de uma proposta política capaz de reunir setores que não se identificam integralmente com os dois principais polos. Ele se definiu como um político de centro-direita e afirmou que apoiou Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno de uma eleição anterior, mas não se considera parte do bolsonarismo mais alinhado à família do ex-presidente.
Ao comentar a ida do senador aos EUA com a família, Caravina ponderou que há questionamentos sobre a condução de processos judiciais envolvendo integrantes da família Bolsonaro. O deputado afirmou que, em sua avaliação, a possibilidade de um julgamento justo é uma preocupação que deve ser considerada, mas reconheceu não ter elementos para afirmar se a decisão de Flávio de deixar o Brasil foi correta ou equivocada.
Para ele, a situação também representa uma mudança no cenário político, porque havia expectativa de que o senador assumisse a liderança da oposição após a eleição presidencial.
“Todo mundo esperava que o Flávio assumisse o comando da direita no País. Agora nós temos a possibilidade de surgir com outro nome de direita para fazer oposição inteligente, de posicionamento pela direita”, disse.
Paulo Duarte destaca equilíbrio entre forças políticas - O deputado estadual Paulo Duarte (PSDB) adotou uma abordagem diferente. Para ele, a saída de Flávio é uma decisão pessoal do senador, que deverá apresentar suas justificativas, mas o episódio não deve apagar o resultado das urnas e o funcionamento das instituições democráticas.
O parlamentar ressaltou que representantes da família Bolsonaro foram eleitos democraticamente para cargos legislativos e que o Congresso Nacional conta com forte presença de parlamentares de direita. Ao mesmo tempo, Lula foi eleito presidente, demonstrando, na avaliação do deputado, o equilíbrio entre diferentes correntes políticas.
“Vivemos uma democracia, tanto é que a eleição provou isso. Nós temos um Congresso majoritariamente de direita eleito de forma democrática e temos um presidente da República de esquerda. É um equilíbrio de forças”, afirmou.
Para o tucano, o resultado eleitoral demonstra que a população pode escolher representantes de posições políticas diferentes, sem que isso represente uma contradição com o regime democrático.
A declaração contrasta com as avaliações de parlamentares que questionam a atuação do Judiciário no caso. Duarte preferiu destacar a legitimidade do processo eleitoral e a coexistência de forças políticas distintas no Executivo e no Legislativo.
Coronel David fala em perseguição política - Na outra ponta, o deputado estadual Coronel David (PL) defendeu Flávio Bolsonaro e afirmou acreditar que o senador deixou o País por receio de ser preso. Integrante do mesmo partido do parlamentar, David disse ter tomado conhecimento de informações anteriores ao segundo turno sobre a possibilidade de uma ordem de prisão caso Flávio perdesse a disputa presidencial.
O deputado também mencionou decisões judiciais envolvendo Jair Bolsonaro e a permanência de Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos para sustentar sua avaliação de que existe uma perseguição contra a família.
“A gente sabe que há uma perseguição desenfreada ao clã Bolsonaro, porque representa a direita e tem liderança dentro do partido de oposição ao governo”, declarou.
David questionou os fundamentos da medida que determinou a entrega dos passaportes e afirmou que, em sua avaliação, a suspeita relacionada à conta bancária não se sustentaria.
O parlamentar também chamou atenção para o intervalo entre a divulgação do resultado eleitoral e a adoção da medida judicial. Para ele, a rapidez com que a Polícia Federal solicitou a apreensão dos documentos reforça os questionamentos sobre a condução do caso.
A interpretação de David, porém, é uma avaliação política do deputado. A existência de uma investigação e a determinação judicial de entrega dos passaportes não comprovam, por si só, perseguição política ou culpa do senador. Da mesma forma, as alegações de irregularidades atribuídas a Flávio precisam ser examinadas no âmbito dos procedimentos legais.
Gerson Claro critica Judiciário, mas evita conclusões sobre o caso - O presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, deputado Gerson Claro (PP), afirmou que prefere não especular sobre os motivos que levaram Flávio a deixar o Brasil. Segundo ele, há diferentes versões sobre a viagem e sobre a decisão judicial, e uma avaliação conclusiva exigiria conhecimento do processo e do inquérito.
“Quem não conhece o processo, quem não conhece o inquérito, emitir uma opinião é muito perigoso, porque pode errar”, afirmou.
Advogado, Gerson disse não ter informações suficientes para avaliar se a decisão de Alexandre de Moraes teve relação com disputas políticas ou com os elementos reunidos na investigação. Ele também ressaltou que não sabe se havia uma medida judicial preparada antes da eleição ou se a decisão foi motivada pelas circunstâncias posteriores à votação.
Apesar da cautela em relação ao caso específico, o presidente da Assembleia fez críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal. Entre os pontos citados, questionou decisões tomadas individualmente por ministros em temas que, em sua avaliação, exigiriam análise institucional mais ampla.
Gerson também criticou a decisão de prorrogar o horário de votação durante a eleição presidencial. Para ele, a medida levantou dúvidas sobre a competência para determinar a extensão do período de votação e sobre a proporção entre o número de eleitores que ainda poderiam votar e o impacto da decisão no processo eleitoral.
O deputado ressaltou, contudo, que sua crítica não significa questionar automaticamente o resultado das urnas. Ele afirmou considerar inadequado que o STF concentre decisões sobre diferentes áreas, defendendo que cada órgão atue dentro de suas atribuições.
Sobre o futuro da direita, Gerson se definiu como um político de centro-direita, sem alinhamento com posições extremistas, e indicou que as forças políticas podem se reorganizar a partir de diferentes posições dentro do próprio campo conservador.
A avaliação dele se aproxima, em parte, da preocupação de Caravina com a necessidade de reorganização política, mas parte de uma crítica mais ampla ao funcionamento do Judiciário e à distribuição de competências entre as instituições.
Pedro Kemp condena saída do senador - O deputado estadual Pedro Kemp (PT) criticou duramente a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e classificou o episódio como uma fuga. Em pronunciamento, o parlamentar afirmou que a viagem deve ser registrada na história política do País e defendeu uma reflexão sobre o comportamento de representantes eleitos.
“Se foi embora é porque deve”, declarou Kemp.
O deputado também disse que os casos envolvendo políticos e integrantes do Judiciário precisam ser investigados e defendeu o esclarecimento das suspeitas relacionadas ao Banco Master. Para ele, Flávio deve retornar ao Brasil para responder às investigações.
Kemp ainda relacionou o episódio à disputa política e afirmou que o eleitor precisa avaliar o comportamento dos candidatos antes de tomar decisões nas urnas. Na avaliação do petista, a política não deve ser orientada apenas por sentimentos de raiva ou pela polarização entre grupos adversários.
As declarações do deputado representam a posição política do parlamentar e não constituem uma conclusão judicial sobre a responsabilidade de Flávio Bolsonaro. O senador é investigado, mas não deve ser tratado como culpado apenas com base nas suspeitas que motivaram os procedimentos.