Política

Frustrado, mas resignado, Geraldo dá adeus à Câmara, 'derrotado pela lacração'

Parlamentar acredita que o eleitor deixou de valorizar experiência e trabalho para privilegiar os extremos

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 30/10/2026 15:12
Frustrado, mas resignado, Geraldo dá adeus à Câmara, 'derrotado pela lacração'
Deputado federal e ex-secretário Estadual de Saúde de MS, Geraldo Resende (União) (Foto: Osmar Veiga)

Médico, 6 vezes eleito deputado federal, 2 vezes secretário de Saúde de Mato Grosso do Sul, o veterano Geraldo Resende (União Brasil) está se despedindo do Congresso com um sentimento misto de frustração por não ter sido valorizado pelo eleitor e a resignação de quem entende que a derrota faz parte do jogo democrático.

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Na quarta-feira (28), durante a primeira sessão da Cidoso (Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa) da Câmara dos Deputados depois das eleições, o deputado era a imagem da desolação, mas voltou ao trabalho e abordou o resultado de cabeça erguida, como bom perdedor, em entrevista ao Campo Grande News.

“Eu me sinto frustrado no sentido de não ter sido valorizado pelo eleitor nessa eleição”, resumiu. A explicação que apresenta para a derrota vai além das circunstâncias de sua campanha. Para ele, a polarização política que tomou conta do País e de Mato Grosso do Sul reduziu o espaço para candidaturas identificadas com o centro, independentemente da trajetória e dos serviços prestados à população.

Os extremos como opção - “O eleitor votava nos candidatos alinhados ao 22, ao PL, ou votava nos candidatos alinhados ao PT. Quem ficou no centro, o povo não identificou que era uma opção. A opção eram os extremos”, afirmou. Na avaliação do parlamentar, a mudança de comportamento do eleitorado abriu caminho para candidatos cuja principal plataforma, segundo ele, foi a exposição nas redes sociais.

“Se elegeram pessoas que não têm nenhum compromisso com nada, que ficaram só lacrando na rede social. Inclusive, elegeu gente que o eleitor nem conhece, mas que foi eleita por indicação de alguns influencers”, disse.

Embora não tenha citado nominalmente nenhum influenciador, a crítica alcança o fenômeno que ganhou força na direita brasileira, com figuras como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), cuja capacidade de mobilização nas redes sociais se tornou um componente da disputa eleitoral.

Em Mato Grosso do Sul, a atuação de influenciadores e de grupos digitais alinhados à direita ajudou a dar visibilidade a candidaturas que disputaram espaço com nomes de trajetória política mais longa. Foram os votos que faltaram para os experientes.

Geraldo não esconde a mágoa com o resultado, especialmente quando compara a votação deste ano ao reconhecimento que afirma ter recebido nas campanhas passadas.

“Em todas as campanhas anteriores, o eleitor valorizou quem fez mais pela saúde, pela educação, quem trabalha muito e mostrou responsabilidade em tornar a vida das pessoas melhor. Mas, dessa vez, acredito que essa polarização extremada fez com que as pessoas esquecessem tudo isso”, afirmou.

Combate à pandemia - A frustração ganha uma dimensão ainda mais pessoal quando ele recorda sua passagem pela Secretaria de Estado de Saúde durante a pandemia de covid-19. O deputado considera que nem mesmo o trabalho desenvolvido naquele período foi levado em conta pelo eleitorado.

“Esqueceram até de alguém que, durante a covid, salvou milhares de vidas em Mato Grosso do Sul, quando fui secretário de Saúde, inclusive gente que a gente salvou literalmente dentro das UTIs, assumindo o compromisso de dar todo o apoio para que não fossem mais um no obituário”, declarou.

Na sequência, lamentou que, em sua avaliação, não tenha havido reciprocidade nas urnas. “A gente viu que eles não valorizaram nem a própria vida, não tiveram nenhuma posição de dar reciprocidade a quem lhes salvou a vida, votando em candidatos que realmente não têm nenhuma bandeira a não ser a lacração, as chamadas fake news”, acrescentou.

Ao ser provocado sobre o predomínio da antipolítica, concordou que esse foi um dos traços da eleição: “Antipolítica. Aquilo que é condenável na política prevaleceu”, resumiu.

Futuro político - Apesar da derrota, Geraldo não trata a saída da Câmara como encerramento da vida pública. Aos 71 anos, 33 deles na vida pública, que se iniciou com um mandato de vereador em Dourados, ele acredita que ainda tem condições de contribuir com o Estado e com o País, embora não tenha definido qual será seu próximo passo. Com 31.714 votos, ele é o segundo suplente da federação União Brasil/PP, atrás do deputado Luiz Ovando (PP), que, médico e com trabalho relevante, também ficou para trás, vencido pelo mesmo fenômeno que deu palco a influenciadores.

“Eu tenho uma bagagem muito forte. Acredito que ainda posso dar uma contribuição muito grande, não só aqui em Brasília, mas também para o Estado”, afirmou.

Repactuação política - A transição também deve provocar mudanças na correlação de forças políticas em Mato Grosso do Sul. O deputado reconhece que o Estado tem perfil de uma direita que teve desempenho expressivo nas urnas, mas observa que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva exigirá novas articulações.

“Mato Grosso do Sul é um Estado muito conservador, em que a direita foi preponderante, com uma votação muito significativa. E, logicamente, com a eleição de um governo de esquerda, com a reeleição do presidente Lula, vamos ter que fazer repactuações”, avaliou.

Segundo ele, havia expectativas entre aliados de que a vitória do grupo político que disputou a eleição contra Lula abriria espaço para a ocupação de cargos importantes no governo federal. A derrota, porém, obriga esse campo a rever planos e buscar novas formas de atuação.

Vida que segue - “Agora é digerir, tirar lições disso e trabalhar para que a gente possa fazer aquilo que a política nos oferece, que é construir uma alternativa melhor para a nossa gente”, afirmou.

Sobre os deputados que assumirão a representação de Mato Grosso do Sul na Câmara, Geraldo disse esperar que os novos integrantes da bancada contribuam para o Estado. Sem esconder a preocupação com a qualidade da representação, afirmou que espera que novos eleitos que chegam a Brasília não deem motivos para os sul-mato-grossenses se envergonharem.

Mesmo admitindo a frustração, diz que não alimentará mágoas. “Fui vítima do processo eleitoral. Mas acredito que isso faz parte do jogo democrático. Respeito o resultado, como democrata que sou, e vamos continuar trabalhando”, concluiu.

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