Política

Fronteira de MS expõe avanço das facções e fica fora da campanha presidencial

Coronel critica debate eleitoral superficial e cobra integração policial e militar no combate ao crime

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 22/10/2026 05:21
Fronteira de MS expõe avanço das facções e fica fora da campanha presidencial

No topo das preocupações dos brasileiros, a segurança pública foi tratada superficialmente pelos candidatos à Presidência. Nos debates, prevaleceram promessas de endurecimento de penas, restrições às saídas temporárias e até castração química para estupradores, enquanto causas estruturais da violência receberam menos atenção.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O avanço do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) nas fronteiras de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia foi abordado genericamente, sem propostas proporcionais à dimensão nacional do problema: o corredor por onde passa a cocaína que enriquece os andares de baixo e de cima do crime organizado também fomenta a violência nos grandes centros urbanos.

A região reúne fronteiras extensas, circulação internacional de mercadorias e infraestrutura logística utilizada pela economia legal e por redes criminosas. O tráfico abastece mercados consumidores, financia organizações e contribui para a expansão da criminalidade para além da fronteira.

“Os problemas concretos foram discutidos de forma muito superficial”, afirma o coronel da reserva da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul Alírio Villasanti. Para ele, faltaram aos programas de governo e aos debates profissionais com conhecimento técnico e experiência em segurança pública.

Rota do tráfico - O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho de 2026, situa Mato Grosso do Sul na chamada Rota Caipira, estrutura logística do narcotráfico que abastece mercados internos e conecta o Brasil a circuitos internacionais. A cocaína segue para portos como Santos (SP) e Paranaguá (PR), de onde pode ser exportada.

O anuário aponta o PCC como organização predominante em MS, São Paulo e no norte de Santa Catarina. Em 2025, o Estado registrou 148,1 ocorrências de tráfico de drogas por 100 mil habitantes, terceira maior taxa do País. A média nacional foi de 97. O indicador mede registros policiais, não o volume efetivo de drogas transportadas.

As estimativas de autoridades e de entidades que estudam a criminalidade apontam que pelas fronteiras de acesso a Mato Grosso do Sul entram entre 40% e 60% da cocaína que abastece os mercados interno e internacional.

O enfrentamento exige resposta que ultrapasse as forças locais, com inteligência, coordenação institucional e estratégias capazes de atingir diferentes mercados ilícitos.

Cooperação na fronteira - Villasanti defende ampliar a presença estatal com batalhões especializados da Polícia Militar e reforçar órgãos federais, como Polícia Federal, Ministério Público e Justiça Federal.

“Eu acho que nós teríamos que ter também, dentro da Polícia Militar, os batalhões de fronteira, potencializar a Polícia Federal e os órgãos imediatamente afetos a isso, como a Procuradoria da República e a Justiça Federal”, afirma.

Villasanti também sugere criar em Mato Grosso do Sul um centro de cooperação policial internacional com Brasil, Paraguai e Bolívia, inspirado no CCPI-Amazônia (Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia) sediado em Manaus. “Podemos fazer aqui também, chamando a Bolívia e o Paraguai para participar”, propõe.

Coronel da reserva da Polícia Militar de MS, Alírio Villasanti (Foto: Osmar Veiga)


Interiorização da violência - Villasanti alerta para a interiorização da criminalidade e afirma que municípios menores, como Nova Andradina, Sonora e Coxim, palcos recentes da guerra entre PCC e CV e da polícia contra as facções, não dispõem de estrutura suficiente para enfrentar organizações articuladas.

“Nas pequenas cidades, a violência tem aumentado. Por quê? O aparato estatal não faz frente. É muito tímido, muito pequeno diante do poder dos criminosos”, avalia.

A falta de efetivo, investigação e inteligência pode dificultar a identificação de conexões entre crimes locais e redes de alcance regional e nacional. O coronel diz ter recebido informações sobre uma possível aproximação entre facções e ONGs que atuam em comunidades de municípios sul-mato-grossenses de maior vulnerabilidade social, fator que indicaria uma mudança de padrão do crime.

Sisfron - O Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), projeto do Exército, foi concebido para ampliar a vigilância, as comunicações e a capacidade de resposta na fronteira terrestre. O plano original previa investimento de aproximadamente R$ 11,99 bilhões, mas depois de várias interrupções, pouco se sabe sobre sua efetividade.

O sistema reúne sensores, radares e estruturas de comando e controle. Seu pleno funcionamento depende da implantação, manutenção, cobertura operacional e integração com os órgãos de segurança.

Villasanti questiona os resultados práticos. “Até hoje se fala muito no Sisfron, mas até agora a gente não viu ações efetivas”, afirma.

O coronel defende maior coordenação entre as Forças Armadas e os órgãos de segurança nas regiões de fronteira, respeitando as competências legais de cada instituição. O Exército, que tem atribuição, efetivos permanentes e legitimidade para atuar na faixa de fronteira terrestre, realiza operações independentes e raramente se integra às forças policiais. Segundo o coronel, deveria estar integrado às demais forças policiais e de controle num esforço para combater o crime.

Pressão externa - A segurança fronteiriça ganhou dimensão diplomática em 2026, quando os Estados Unidos designaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A decisão provocou divergências no Brasil e levantou questões sobre soberania, cooperação internacional e possíveis efeitos jurídicos e econômicos.

Na campanha, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se posicionou contra a classificação, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) defendeu designar as facções como organizações narcoterroristas. A medida norte-americana não altera automaticamente a legislação brasileira nem comprova, por si só, aumento da violência na fronteira. Mas ela paira como uma ameaça à soberania do país.

O episódio reforça a necessidade de uma estratégia nacional que combine cooperação internacional, troca de inteligência, atuação policial e judicial e rastreamento financeiro, sem depender de decisões unilaterais estrangeiras. 

Falta integração - Villasanti defende criar um Ministério da Segurança Pública para coordenar a atuação federal e vincular constitucionalmente recursos para a área, como ocorre com saúde e educação.

“A primeira ação concreta, indiscutivelmente, é a criação do Ministério da Segurança Pública”, afirma.

O coronel também propõe tipificar o domínio de cidades e territórios por organizações criminosas e criar incentivos para manter profissionais na fronteira, como adicional específico e critérios diferenciados de contagem do tempo de serviço.

No sistema prisional, aponta a reincidência e a influência das facções como obstáculos. Para ele, a segurança depende da integração entre policiamento preventivo, investigação, Ministério Público, Judiciário e sistema prisional.

“Geralmente se joga muito essa violência muito mais nas costas da Polícia Preventiva, que aí tem mais visibilidade, que é a Polícia Militar”, afirma.

Endurecer penas ou outras medidas paliativas podem aliviar a sensação de insegurança, mas não substituem a presença estatal, inteligência, financiamento e cooperação internacional reunidos num plano nacional de segurança que, a rigor, nunca foi posto em prática no país.

 Seja quem for o vitorioso na eleição de domingo, Mato Grosso do Sul expõe um desafio nacional: conter redes criminosas transnacionais que se modernizaram, enquanto o Estado ainda precisa integrar suas próprias instituições e transformar investimentos em capacidade operacional.

Veja Mais