Política

Cemitério que guarda fundadores e artistas pode virar patrimônio da Capital

Projeto de lei busca preservar túmulos, jazigos e obras do local, que hoje acumula registros de furtos e danos

Por Mylena Fraiha | 31/10/2026 16:05
Cemitério que guarda fundadores e artistas pode virar patrimônio da Capital
Mausoléus do Cemitério Santo Antônio, em Campo Grande; local pode ser reconhecido como patrimônio histórico da cidade caso projeto seja aprovado na Câmara (Foto: Arquivo/Osmar Veiga).

Após ficar sem votação na quinta-feira (29), o projeto que propõe reconhecer o Cemitério Santo Antônio como patrimônio histórico e cultural de Campo Grande deverá ser analisado pelos vereadores na terça-feira (3), um dia depois de Finados. Localizado na Vila Santa Dorotheia, o cemitério abriga túmulos de personagens da história da Capital e acumula registros de furtos e depredação.

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De autoria do vereador Otávio Trad (PSD), o projeto declara o cemitério e seu acervo de túmulos, sepulturas e jazigos como patrimônio material, histórico, cultural, religioso e imaterial do Município. A proposta estava prevista para votação na sessão anterior, mas não foi analisada devido ao bloqueio da pauta por outras matérias com pedidos de vista.

O texto prevê a proteção das obras e da arquitetura dos túmulos, a catalogação de sepulturas de pessoas de relevância para a cidade e a possibilidade de parcerias para recuperação do espaço.

Ao Campo Grande News, Otávio afirmou que a iniciativa surgiu após anos de reclamações sobre as condições dos cemitérios públicos. “Desde 2017, no meu segundo mandato, tenho recebido no gabinete reclamações das mais diversas classes sociais referentes à falta de manutenção e, principalmente, à depredação dos cemitérios municipais, públicos, aqui em Campo Grande”, relatou.

Segundo o vereador, uma das tentativas anteriores de melhorar a manutenção foi uma parceria com a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), entre 2018 e 2019, conforme sua lembrança, para que detentos do regime semiaberto auxiliassem nos serviços. Ele avalia, porém, que as medidas não produziram a melhora esperada.

“A família vai visitar o túmulo e, quando chega, foi roubada uma cruz de bronze, foi roubado um azulejo, foi saqueado alguma coisa. Ou seja, estamos perdendo isso. E a história de Campo Grande passa por aqueles que já contribuíram”, afirma Otávio. 

Túmulo apresenta sinais de furto de imagem de Cristo em metal e de molduras de fotografias no Cemitério Santo Antônio, em registro de outubro deste ano (Foto: Arquivo/Osmar Veiga).

Proteção do acervo – Pelo projeto, a Prefeitura deverá catalogar e identificar túmulos, sepulturas e jazigos de pessoas de grande relevância para Campo Grande. O entorno dessas estruturas também será reconhecido como área de especial interesse histórico e cultural.

O Executivo poderá realizar reparações, restaurações e revitalizações dos túmulos e seus entornos. A proposta também proíbe “qualquer descaracterização do terreno” do Cemitério Santo Antônio e autoriza convênios com a União, o Estado e pessoas jurídicas privadas para cumprir os objetivos da lei.

Otávio considera que as parcerias podem abrir caminhos para financiar melhorias, inclusive com participação de empresas. “No projeto, colocamos a possibilidade de a Prefeitura estabelecer convênios com o Estado, com a União e com entidades de direito público e privado”, disse. “Quem sabe, nessa questão privada, alguém possa enxergar essa importância e falar: ‘Não tem aquele projeto das praças? Eu vou ajudar, quero melhorar’.”

O texto não estabelece valores, fontes específicas de recursos ou prazo para a catalogação. Também não prevê medidas determinadas de vigilância, como instalação de câmeras ou ampliação de equipes de segurança.

O autor ressaltou que a proposta busca reconhecer o valor cultural do cemitério e não institui um tombamento. “É mais uma ferramenta que temos, agora não só do ponto de vista das indicações, como fazíamos, mas do ponto de vista legislativo, para inserir a importância do cemitério como patrimônio cultural. Não é um tombamento, é diferente”, afirmou.

Embora não determine expressamente o tombamento, o projeto estabelece regras de preservação do acervo e do terreno. Otávio disse que pretende permitir melhorias e resgatar a importância do espaço para a população. “Queremos, do ponto de vista da consciência da população campo-grandense, resgatar a importância da história dos cemitérios públicos de Campo Grande. Acho que isso é um começo para que possamos ter outras ações futuras”.

O vereador citou o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, como exemplo de espaço funerário que também atrai visitantes por sua história e arquitetura. “A gente não tem tratado isso com a devida importância, como grandes capitais do mundo tratam os cemitérios. Inclusive, são pontos turísticos”, comparou.

Túmulo da atriz campo-grandense Glauce Rocha tem placa com QR Code no Cemitério Santo Antônio (Foto: Arquivo/Osmar Veiga).

O Santo Antônio reúne sepulturas de personalidades que contribuíram para a formação de Campo Grande e do Estado. Entre elas estão o fundador da cidade, José Antônio Pereira, o médico e ex-prefeito Ary Coelho de Oliveira, a atriz Glauce Rocha, a artista plástica Lídia Baís e o músico Zé Corrêa, precursor do chamamé.

Também estão sepultados no local Manoel da Costa Lima, Coronel Antonino e Arnaldo Estêvão de Figueiredo, ex-governador de Mato Grosso antes da divisão do Estado.

Na justificativa, o autor defende que o cemitério seja reconhecido como um espaço de preservação da memória, da arquitetura e da cultura da Capital. O documento aponta os furtos, a violação de túmulos e a depredação como motivos para a proposta.

Furtos e danos – Em agosto deste ano, o Campo Grande News registrou dois episódios de furtos e depredação no Santo Antônio. No dia 6, a reportagem mostrou capelas funerárias arrombadas em duas quadras, com objetos furtados, molduras destruídas e fotografias retiradas das sepulturas. 

Já no dia 27 de agosto, a reportagem relatou a situação de Maria Lúcia Fidelis Salomão, que teve grades e cadeados instalados para proteger o túmulo da sogra furtados em apenas quatro dias.

Mais recentemente, em reportagem publicada em 27 de outubro, a equipe encontrou túmulos danificados, lápides com vidros quebrados e resíduos nos cemitérios Santo Amaro e São Sebastião, conhecido como Cruzeiro.

Na ocasião, a Prefeitura informou que os serviços de manutenção haviam sido intensificados para o Dia de Finados, com capina, poda, pintura e reparos, além da reconstrução de trechos do muro do Santo Amaro que desabaram em 2023.

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