Política

Câmara ignora abandono do esporte, mas aprova veto a atletas trans de competição

Aprovação aconteceu em regime de urgência e expôs o alinhamento dos parlamentares à pauta conservadora

Por Jhefferson Gamarra e Mylena Fraiha | 23/09/2025 12:48
Câmara ignora abandono do esporte, mas aprova veto a atletas trans de competição
Vereadores autores da proposta mostrando o projeto na Câmara (Foto: Divulgação)

A Câmara Municipal de Campo Grande aprovou nesta terça-feira (23), por 19 votos a favor e 6 contrários, o Projeto de Lei nº 11.526/25, de autoria dos vereadores Rafael Tavares (PL) e André Salineiro (PL), que estabelece o sexo biológico como único critério para a participação em competições esportivas profissionais no município.

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A medida, que agora segue para sanção do Executivo, na prática exclui mulheres trans de equipes que não correspondam ao sexo de nascimento. O texto aprovado prevê multas que podem chegar a 300 UFIC (Unidade Fiscal de Campo Grande), que atualmente é de R$ 160, para entidades esportivas que descumprirem a norma, além da anulação de títulos conquistados e até o banimento vitalício de atletas trans que omitirem sua condição.

A aprovação aconteceu em regime de urgência, apesar das manifestações contrárias de atletas, e expôs o alinhamento da maioria dos vereadores à pauta conservadora que defende restrições a pessoas trans no esporte. Votaram contra o projeto os vereadores Delei Pinheiro (PP), Flávio Moura (PSDB), Beto Avelar (PP), Jean Ferreira (PT), Landmark Rios (PT) e Luiza Ribeiro (PT)

Durante a sessão, a jogadora de vôlei Mikaella Lima, de 41 anos, atleta desde 2017 e também profissional de Educação Física, esteve presente e criticou duramente a votação. “Eu vim aqui, no meu horário de almoço, ver essa barbaridade. Como se nossa cidade não tivesse buracos nas ruas, falta de dipirona nos postos de saúde. E aí, em caráter de urgência, tentam aprovar um projeto que visa proibir uma pessoa trans dentro da capital, que sou eu”.

Jogadora de vôlei Mikaella Lima, de 41 anos, atleta desde 2017, lamentou a aprovação da proposta (Foto: Mylena Fraiha)

A atleta ressaltou que as federações esportivas já possuem critérios rigorosos de inclusão, exigindo exames hormonais por até dois anos antes de permitir a participação de uma atleta trans em competições. “O Estado Democrático de Direito já me reconhece como mulher. É um projeto totalmente inconstitucional. Eu sinto vergonha dos vereadores que dizem se preocupar com o feminino, mas ignoram os altos índices de feminicídio e a falta de investimento no esporte”, declarou.

Ela também destacou a precariedade do cenário esportivo em Campo Grande, lembrando que as quadras não oferecem estrutura mínima para mulheres treinarem, que nenhuma atleta recebe salário e que competições tradicionais, como os jogos abertos, foram canceladas. Para Mikaella, o projeto revela um paradoxo cruel: enquanto os vereadores afirmam proteger mulheres no esporte, ignoram a realidade de abandono e falta de políticas públicas que poderiam realmente fomentar a prática esportiva e apoiar atletas femininas.

Na justificativa apresentada, os autores da proposta alegam que o objetivo é garantir igualdade de condições nas competições, citando casos internacionais como o da nadadora trans Lia Thomas para argumentar que atletas trans teriam vantagens fisiológicas mesmo após tratamento hormonal.

O texto afirma ainda que não busca excluir, mas preservar a “justiça competitiva” e até sugere a criação de categorias específicas para atletas trans. No entanto, especialistas, juristas e entidades de defesa dos direitos humanos já apontam que a lei fere a Constituição ao violar a dignidade humana, invadir competências das federações esportivas e reforçar a exclusão em vez de promover o esporte.

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