Estudo aponta cheia mais curta e fogo prolongado no Pantanal
Pesquisa analisou 4 décadas de dados e propõe integrar a gestão hídrica à prevenção de incêndios

A redução do tempo de inundação e as mudanças na temporada de incêndios exigem uma revisão das estratégias de prevenção no Pantanal. Um estudo publicado, recentemente, na revista científica Global Change Biology identificou alterações no comportamento do fogo entre 1985 e 2024, com diferenças entre as regiões.
RESUMO
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Estudo publicado na Global Change Biology, com dados de 1985 a 2024, aponta que a menor duração das inundações e a mudança na temporada de incêndios exigem nova estratégia de prevenção no Pantanal. No setor central, o fim da temporada passou de setembro para novembro, e no Norte o pico avançou em direção a outubro. Pesquisadores de UFMS, UFMT, UFRJ e Embrapa defendem calendários regionais, monitoramento, restauração da vegetação, proteção da Amazônia e manejo integrado do fogo, com segurança operacional e jurídica.
No setor central, que inclui Paiaguás, Nhecolândia e Paraguai, o encerramento da temporada se deslocou de setembro para novembro. No Norte, o pico dos incêndios avançou de setembro em direção a outubro. No Sul, a pesquisa apontou redução do tempo de inundação, mas não identificou tendência significativa de aumento da área queimada.
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Para o professor Geraldo Alves Damasceno Júnior, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), um dos autores, a pesquisa confirma cientificamente uma tendência observada em campo; a perda de superfície de água acompanha o aumento da extensão das áreas queimadas.
Segundo ele, as áreas inundáveis produzem grande quantidade de biomassa. Quando a água não chega aos campos ou permanece por menos tempo, esse material fica exposto ao ressecamento e disponível para queimar.
A pesquisa tem como primeiro autor Lucas Barros-Rosa, vinculado à Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, e reúne pesquisadores de instituições como UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), UFMS, UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Embrapa Pantanal. Entre os participantes estão Fábio de Oliveira Roque e Damasceno, da UFMS, e Walfrido Moraes Tomas, da Embrapa.
Com dados de satélite e variáveis climáticas e hidrológicas, os pesquisadores aplicaram testes de tendência e modelos estatísticos para investigar a área queimada, o tamanho médio das manchas de fogo e sua distribuição ao longo do ano. A análise mensal apontou aumento após 2014, embora a série anual completa não tenha apresentado tendência significativa. O crescimento do tamanho médio das manchas queimadas se intensificou após 2018.
Respostas diferentes - Para entender as alterações no comportamento do fogo e a variação entre as regiões do Pantanal, Damasceno explica que também é necessário distinguir os sistemas que abastecem a planície. As condições do Rio Paraguai podem diferir das observadas em bacias como as dos rios Miranda, Aquidauana e Negro. Assim, chuvas e elevação dos níveis em uma área não significam recuperação semelhante em todo o Pantanal.
“Tem um sistema que está causando cheia e um sistema que não está”, afirma.
Na avaliação dele, o acompanhamento do risco precisa combinar informações sobre os níveis dos rios, a ocorrência de chuvas e a previsão de ondas de calor. Um período sem precipitação, associado a temperaturas elevadas e pouca água nos campos, pode favorecer incêndios mesmo fora dos meses habitualmente considerados mais críticos.
O pesquisador ressalta que o Pantanal tem ciclos de seca e cheia que se estendem por vários anos. Para ele, a preocupação está na combinação desses ciclos com eventos extremos, como ondas de calor, que podem intensificar o ressecamento.
Conexão com a Amazônia - Segundo Damasceno, as chuvas nas cabeceiras e nos tributários do Rio Paraguai dependem, em parte, da umidade transportada pela atmosfera através da Amazônia. O vapor de água vindo do Oceano Atlântico atravessa a floresta, onde a vegetação ajuda a devolver umidade ao ar. Essa circulação contribui para as precipitações que abastecem a bacia e, posteriormente, levam água à planície pantaneira.
Por isso, explica o professor, a conservação da floresta amazônica também importa para as cheias do Pantanal. O desmatamento pode comprometer esse transporte de umidade e contribuir para a redução das chuvas. Ele ressalva, porém, que não dispõe de números que permitam quantificar exatamente essa contribuição para as mudanças observadas na pesquisa.
Água e fogo no mesmo planejamento - Nas recomendações, os autores da pesquisa propõem duas frentes de ação. A primeira é reduzir os processos que tornam o Pantanal vulnerável e a segunda, adaptar a prevenção às condições em transformação. Os pesquisadores defendem conservar e restaurar a vegetação na Bacia do Alto Paraguai, regular o uso da água no planalto e proteger florestas amazônicas. Também sugerem calendários regionais, monitoramento, alertas apoiados por inteligência artificial e indicadores ambientais, restauração em larga escala e brigadas comunitárias.
A proposta conecta a prevenção dos incêndios às decisões sobre água e conservação, com atuação além dos limites da planície e ajustes conforme as condições de cada região.
Damasceno considera o manejo integrado do fogo um avanço e defende seu aperfeiçoamento durante a implementação. Em sua avaliação, as práticas precisam levar em conta o regime de inundação de cada área. O professor observa que a mudança envolve também superar uma cultura de proibição do uso do fogo. Segundo ele, o receio de que uma queima escape do controle e resulte em punição dificulta a adesão de proprietários e comunidades rurais.
Damasceno aponta duas necessidades para ampliar a participação: preparo para executar o manejo com segurança e clareza sobre as responsabilidades de quem o realiza.
“Eu vejo que o pessoal tem a questão da segurança operacional e a segurança jurídica. Essas duas coisas precisam melhorar”, afirma.
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