Comunidade do Pantanal atribui água suja à mineração: "mina de chocolate"
Após a reclamação, a Prefeitura de Corumbá prometeu apurar o caso e tomar providências
RESUMO
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Moradores da comunidade tradicional Antônio Maria Coelho, no Pantanal de Corumbá, relataram que água barrenta chegou às torneiras na manhã desta quarta-feira (29). A líder Edeltrudes Corrêa de Oliveira, a Dona Edil, culpa a mineração, que, segundo ela, joga poeira e minério na nascente que abastece as casas sem tratamento. A ONG Ecoa aponta impacto na produção de bocaiuva. A LHG Mining não respondeu, e a Prefeitura de Corumbá disse que vai apurar o caso.
Um caldo grosso formado por água e terra chegou às casas de moradores da comunidade tradicional Antônio Maria Coelho, no Pantanal de Corumbá, nesta manhã (29). Eles gravaram vídeos mostrando a situação e ironizando a "fantástica mina de chocolate" que saiu dos encanamentos das casas.
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Edeltrudes Corrêa de Oliveira, conhecida como Dona Edil, é uma das líderes da comunidade. Ela aponta que esse transtorno se repete cada vez mais e culpa as atividades de mineração na região.
"Ontem choveu um pouco, mas não foi tanto para isso acontecer. É o fluxo de caminhões da mineradora que mexem com terra e levam poeira e pó de minério para dentro da nascente", ela acredita.
Edil explica que, há 10 anos, o abastecimento depende da canalização de uma nascente localizada em propriedade particular próxima. Não há tratamento no percurso da água até as residências, também segundo ela.
Aos 56 anos de idade, a liderança lembra que isso não era necessário antes da chegada das mineradoras. "A gente nem precisava de água nas mangueiras. Tinha um córrego atrás das casas com água limpa e secou. Nós tínhamos água em abundância", recorda.
Os cursos d'água do entorno da comunidade eram procurados até por turistas que acreditavam em propriedades terapêuticas, acrescenta Edil.

"Diziam que aqui tinha água mineral. Vinham pessoas de outras cidades procurar por água que cura e pelas cachoeiras. Hoje, não vem quase ninguém", afirma.
A água saía suja durante quase toda a manhã. Começou a "limpar" próximo do horário do almoço.
Outros problemas - Edeltrudes trabalha com extrativismo e beneficiamento de produtos feitos da bocaiuva pantaneira. Ela teme que a mineração prejudique as atividades econômicas e cause ainda mais problemas à comunidade. A mulher também cita o pó respirado pelos moradores, que o Campo Grande News já mostrou aqui, e a irregularidade no nível das estradas que são entrada e saída da Antônio Maria Coelho e a invasão de lama no pátio de uma escolinha.
Nathália Ziolkowski, diretora da ONG Ecoa (Ecologia e Ação), conta que as atividades extrativistas já são afetadas pela mineração. A organização acompanha a comunidade e tenta auxiliar em seus problemas há muitos anos.
"A Ecoa ajudou a consolidar a associação da comunidade tradicional de Antônio Maria Coelho e também o centro de processamento da bocaiuva, que fica lá dentro. É um trabalho que é desenvolvido principalmente pelas mulheres, um apoio à autonomia econômica delas no território, mas que é muito impactada pela exploração de minério ali", relata.
A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Pantanal também já realizou trabalhos com as moradoras para facilitar a produção a partir da bocaiuva. "Inclusive, evitando contaminação de minério, que muitas vezes vem pelo ar e água, como estamos vendo", complementa Nathália.
A ONG tenta intervir para garantir a qualidade da água consumida pela comunidade. "Mas ainda não conseguimos encontrar uma solução que dê conta desse nível de contaminação de minério a qual estão expostas as pessoas que vivem ali, dos locais de extração e do caminho do minério no Pantanal", finaliza a diretora.
Mineradora e prefeitura - A reportagem procurou a LHG Mining, que extrai minérios na região e é citada no vídeo feito por um dos moradores, para falar sobre o caso. Não houve retorno até a publicação da matéria, mas o espaço segue aberto.
Por meio de nota, a Prefeitura de Corumbá informou que não sabia da situação e irá tomar providências. "Vamos buscar informações junto à comunidade para verificar o que está acontecendo e avaliar as medidas necessárias", prometeu.
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