Meio Ambiente

Avanço de plantas que engoliram Rio Pardo surpreende até especialista

Pesquisadora diz que o fenômeno pode estar ligado à agricultura, pecuária intensiva e dejetos.

Por Inara Silva | 04/10/2025 08:05
Avanço de plantas que engoliram Rio Pardo surpreende até especialista
Plantas aquáticas avançam sobre o Rio Pardo. (Reprodução de Vídeo)

O avanço de plantas aquáticas no Rio Pardo, em Ribas do Rio Pardo, a 96 km de Campo Grande, surpreendeu a professora do Instituto de Biociências da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Edna Scremin-Dias. Um grande tapete verde, formado principalmente por Pistia stratiotes, conhecida como alface-d’água, cobre uma extensa área do rio e levanta preocupações sobre a qualidade da água e os impactos ambientais.

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Doutora em botânica e especialista em plantas aquáticas, a professora analisou imagens feitas na região e afirmou ter ficado impressionada com a dimensão da área afetada, próxima à Usina Hidrelétrica Assis Chateaubriand, conhecida como Usina Mimoso.

“Essas plantas só se proliferam quando encontram condições favoráveis, especialmente nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio. Esse aumento pode estar relacionado a atividades agrícolas, esgoto ou criação intensiva de animais”, explicou.

Segundo a pesquisadora, o fenômeno é um sinal de eutrofização, processo em que a elevação de nutrientes na água favorece a multiplicação de plantas aquáticas, alterando o equilíbrio ecológico.

“A alface-d’água forma sombra sobre a coluna d’água e interfere em toda a biota que vive abaixo dela”, alertou.

Área extensa do rio está coberta pela vegetação. (Foto: Reprodução de vídeo)

Possíveis causas - Entre as fontes de nutrientes que podem estar relacionadas ao fenômeno, a professora cita o escoamento de fertilizantes usados em plantações, o lançamento de dejetos de gado em confinamento e de pocilgas, além do despejo de esgoto não tratado. A redução do nível da água também pode intensificar o problema.

“Quando o volume do rio diminui, os nutrientes ficam mais concentrados, favorecendo a proliferação das macrófitas”, afirmou.

Outro fator apontado é a presença da barragem da Usina Mimoso, que altera o fluxo natural do rio. Segundo a pesquisadora, grandes reservatórios tendem a acumular sedimentos e, com a evapotranspiração elevada, ocorre ainda maior concentração de nutrientes, criando condições para a proliferação das plantas aquáticas.

Ao analisar as imagens enviadas por moradores, a professora afirmou ser possível identificar diferentes tipos de macrófitas além da Pistia e até mesmo o surgimento de outras espécies aquáticas que podem estar formando “baceiros”, espécies de ilhas flutuantes. A Pistia, segundo ela, é uma planta aquática flutuante, mas as imagens parecem conter também espécies com raízes.

Estudo aprofundado - Edna Scremin-Dias ressaltou que é necessário realizar um estudo detalhado do histórico da região, especialmente das alterações ambientais que antecederam esse crescimento explosivo das plantas, que, segundo moradores, começou em janeiro de 2025.

Para ela, a solução imediata passa pela retirada das plantas, mas o enfrentamento definitivo depende da identificação da origem da poluição. A pesquisadora destacou que é essencial realizar análises químicas para verificar os níveis de nutrientes da água, inclusive daquela que é devolvida ao rio por empreendimentos como a Suzano, empresa de celulose. Só assim será possível identificar as causas e adotar medidas eficazes de mitigação.

Hidrelétrica - A usina recebeu ontem autorização do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) para realizar um vertimento controlado em seu reservatório, como medida contra o acúmulo de plantas.

A assessoria de imprensa informou que ainda não há data definida para o procedimento, mas que a usina está em fase de preparação dos equipamentos e que comunicará os moradores do entorno com antecedência.

O vertimento é a liberação da água acumulada antes da barragem, a jusante, onde o rio retoma seu curso. No manejo de macrófitas, o vertimento controlado libera gradualmente a água com as plantas, conduzindo-as ao leito do rio, onde perdem viabilidade em fluxo rápido. De acordo com a assessoria, a operação seguirá o Plano de Manejo de Macrófitas aprovado pelo Imasul, com monitoramento técnico e supervisão ambiental.

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