Lado Rural

Seca deixa dívida milionária no campo e agro recorre à Justiça para não falir

Saída é renegociar prazos ou recorrer à recuperação judicial

Por Aline dos Santos | 20/08/2025 12:25
Seca deixa dívida milionária no campo e agro recorre à Justiça para não falir
Lavoura de soja afetada pela seca em janeiro de 2025. (Foto: Leandro Holsbach)

Se na economia o agronegócio sempre vem embalado em boas notícias, o cenário no campo agora é da maior crise da década em Mato Grosso do Sul. O fator primordial foi a seca, que fez a soja “cozinhar” no pé. Mas o quadro ainda  inclui a redução de crédito e maior taxa de juros. Há caso de grupo agropecuário em MS que deve R$ 54 milhões e entrou em recuperação judicial.  A medida permite renegociar dívidas e evitar a falência. 

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“Em 2025, os pedidos de recuperação judicial em Mato Grosso do Sul superam os 300% de aumento. Nós temos uma conjuntura em que o produtor fica a reboque do poder público. A gente não vê políticas públicas que efetivamente levam o produtor a ter um amparo, apesar do nosso PIB [Produto Interno Bruto] depender do agronegócio. O que sobra para o produtor é, justamente, se valer dos pedidos de recuperação judicial para conseguir criar uma conjuntura favorável e renegociar o passivo que ele vem amealhando ao longo dos anos. Em razão da seca histórica e do aumento do preço do crédito”, afirma o advogado Lucas Mochi.

O advogado Lucas Mochi é especialista em recuperação judicial. (Foto: Arquivo pessoal)

Especialista em recuperação judicial, Mochi destaca o cenário sem saída que surge para os produtores rurais, pois os bancos não aceitam negociar. “As instituições financeiras e cooperativas tentam fazer valer seu direito de receber o máximo possível, não sendo transigentes nas negociações prévias. O que acaba gerando a necessidade do produtor se valer do instrumento da recuperação judicial para equiparar as armas”, diz Mochi. 

A penúria no campo é testemunhada pela advogada Carolina Daurea, do Escritório Daurea Advogados Associados. Há uma década ela atua nos setores de prorrogação rural e recuperação judicial, com cartela de centena de clientes em municípios produtores de grãos, como Sidrolândia, Maracaju, Naviraí, Miranda e Campo Grande. 

“Somente em Sidrolândia, são 39 ações de prorrogação rural por quebra de safra. Não conseguiram colher o suficiente e as dívidas ficaram muito grandes”, diz a advogada. 

Para entender a crise no agro, é preciso retroagir a 2020, quando começou a pandemia de covid. “A soja subiu e teve um boom, com financiamento de trator de R$ 800 mil, maquinário de R$ 1 milhão. Um arrendatário conseguia que o banco liberasse R$ 5 milhões, R$ 10 milhões. E hoje não libera mais. O produtor tem que ser proprietário da área e usar como garantia”, lembra Carolina. 

Contudo, o fator primordial para a quebradeira foi a seca que assolou Mato Grosso do Sul. A advogada afirma que teve produtor de soja em Anastácio que viu 400 hectares de soja “cozinhar” no campo.

Advogada Carolina Daurea aponta maior crise no campo em 10 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

“A seca foi fator determinante. Tinha produtor que estimava colher 60 sacas por hectare e colheu 13 sacas. Está devendo até o diesel. A pessoa que não tem costume de dever para ninguém entra em parafuso. Tem cliente que devia R$ 280 mil e o valor já foi para um milhão”. 

Neste contexto de dívidas, há fazendeiros que conseguem se capitalizar junto aos familiares e pagar os débitos. Para quem não pode recorrer a esse recurso, o caminho é procurar a prorrogação do prazo ou a recuperação judicial, quando o valor for muito alto. 

Conforme a advogada, a prorrogação da dívida rural por quebra de safra após crise climática é amparada por súmula do STJ (Superior Tribunal de Justiça). Já a recuperação judicial ainda é vista pelo setor com bastante reserva, pois uma empresa passa a administrar os negócios. Contudo, a medida, quando deferida pela Justiça, permite definir uma ordem para os pagamentos e acesso a crédito. 

Ela estima que, em média, 40% dos produtores façam seguro da safra. Mas a burocracia para receber é longa, com caso em que o proprietário espera há dois anos o pagamento da seguradora.

A inadimplência do setor já é destaque nos números do Banco do Brasil, que registrou R$ 12,73 bilhões em atrasos de mais de 90 dias nos pagamentos. De acordo com o UOL, devendo na praça, o agro vem recorrendo cada vez mais às recuperações judiciais. 

Fazenda do Grupo Santa Lourdes, em Mato Grosso do Sul. (Foto: Reprodução)

Ciclos da crise - Com pedido de recuperação judicial deferido em 15 de julho pelo juiz Márcio Rogério Alves, da 4ª Vara Cível de Três Lagoas, o Grupo Santa Lourdes, que existe desde 1993, em Anaurilândia, tem dívida de R$ 54 milhões. Na ação, a agropecuária detalha o ciclo do endividamento. 

“Alegam que a crise teve início no ciclo 2021/2022, em razão de uma estiagem severa, onde produtividade do grupo caiu drasticamente, cerca de 65%; que no ciclo de 2022/2023, o cenário financeiro permaneceu adverso, agravado pela perda de cultivo ocasionado por um ataque severo de cigarrinhas e a retração nos preços das commodities; que na safra 2023/2024 novamente foram registradas severas estiagens, dando início a um ciclo de dificuldades relacionadas à insuficiência de capital de giro”. 

O remédio foi recorrer a instituições financeiras e manter o mínimo necessário para a manutenção das operações. 

“O Grupo Santa Lourdes, que concentra suas atividades na região Sudeste de Mato Grosso do Sul, chama a atenção pela clareza com que reflete a vulnerabilidade do produtor rural brasileiro diante de choques climáticos, econômicos e financeiros. No processo, a dívida concursal declarada alcança R$ 25,6 milhões, mas, considerando o passivo extraconcursal, o valor sobe para aproximadamente R$ 54 milhões”, afirma o advogado Daniel Amaral, sócio do Escritório Deneszczuk, Antonio e Amaral, que representa o grupo agropecuário no pedido de recuperação judicial.

Na safra 2021 e 2022, a colheita passou de 55 sacas de soja por hectare para 20 sacas. "Inviabilizando o retorno financeiro. Dois anos depois, quando se esperava recuperação, a seca voltou ainda mais intensa, derrubando novamente os resultados, desta vez para uma média de 32 sacas por hectare", enfatiza Daniel. 

O advogado Carlos Deneszczuk destaca que o agronegócio tem sofrido com a alta dos custos de produção e a retração do crédito. "Muitos produtores se veem diante de uma equação inviável: dívidas caras e receitas cada vez mais apertadas. A recuperação judicial surge, nesse contexto, como o único caminho para reorganizar as finanças sem paralisar a atividade”.

Advogado e sócio da administradora judicial WBN, Jayme da Silva Neves Neto afirma que há aumento significativo de pedidos de recuperação. 

“A recuperação judicial é um meio processual onde a empresa em crise busca a manutenção das atividades, empregos, recolhimentos de tributos. Uma vez deferido o processamento pelo juiz, os credores vão aprovar ou não o plano de recuperação. Acaba sendo, nesta fase, um grande processo de negociação entre credores e devedores, de forma conjunta. Se rejeitado o plano, daí sim vai para falência. Então, quem tem o poder de aprovar ou não o plano, são os credores, na assembleia geral”. 

Plantação de milho em Mato Grosso do Sul. (Foto: Aprosoja)

Tempestade perfeita – De acordo com o administrador e especialista em comércio internacional, Aldo Barrigosse, a inadimplência no agronegócio não é um problema isolado, mas reflexo de uma tempestade perfeita que afeta a rentabilidade do produtor rural. 

“A conjunção de condições climáticas extremas e a volatilidade dos preços das commodities minam a receita, enquanto o custo elevado de insumos e o peso crescente do capital de giro aumentam os custos de produção e o peso das dívidas. A escalada da taxa básica de juros, em particular, funciona como um catalisador de crise. Ao encarecer o crédito rural, essa elevação não apenas torna os novos financiamentos mais onerosos, mas também pressiona o custo da dívida já existente, corroendo a capacidade de pagamento do produtor em um momento de margens já apertadas”. 

Inadimplência no agro - Segundo a Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), os produtores do Estado têm enfrentado grandes desafios nas últimas safras. 

"A escassez de chuvas nos momentos essenciais das culturas afetou fortemente a produtividade nas últimas três safras. A instabilidade geopolítica que ocorre de maneira crescente desde 2022, quando se iniciou a guerra entre Rússia e Ucrânia, contribuiu para o aumento dos custos dos insumos e fertilizantes. Além disso, o aumento da taxa básica de juros nacional fez com que o crédito rural encarecesse em demasia. Juntos, esses três fatores têm grande influência no aumento de inadimplência no setor do agro", diz o presidente da federação, Marcelo Bertoni. 

Marcelo Bertoni é presidente da Federação de Agricultura e Pecuária de MS. (Foto: Juliano Almeida)

 O diagnóstico econômico também passa pelas condições climáticas. Conforme a Famasul, o Estado registrou fortes quebras nas safras de soja e milho devido a estiagens, calor intenso, geadas e fenômenos climáticos como El Niño e La Niña. 

"A produção de milho caiu 12,67% em 2019/2020 e 38,55% em 2020/2021, enquanto a soja recuou 34,7% em 2021/2022 e 17,2% em 2023/2024. Vale ressaltar que, segundo o Banco Central, a inadimplência do crédito rural, em nível Brasil, com taxas reguladas, permanece em média a 0,9%, apresentando redução de 4,58% nos últimos dez anos. Por outro lado, no crédito com taxas de mercado, a inadimplência chega a 6,2%, registrando um incremento no mesmo período". 

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