Fã que comprava DVDs na feira acaba trabalhando com o Linkin Park
Bianca Ono, de 30 anos, integrou a equipe de filmagem e acompanhou os bastidores dos shows em São Paulo
Dos primeiros contatos com a fotografia em Campo Grande aos bastidores de uma das maiores bandas de rock do mundo, a trajetória de Bianca Ono, de 30 anos, passou por mudanças que ela própria não imaginava quando começou a estudar cinema.
RESUMO
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A cineasta sul-mato-grossense Bianca Ono, de 30 anos, integrou a equipe do documentário Linkin Park: Unshatter como segunda assistente de câmera. Natural de Campo Grande, formou-se em Cinema pela Unespar e acompanhou nos bastidores o show da banda em São Paulo, em novembro de 2024. O filme mostra o retorno do grupo após sete anos de pausa e a morte de Chester Bennington, em 2017. Fã desde a adolescência, ela destaca a representatividade asiática de Mike Shinoda e a nova fase com a vocalista Emily Armstrong.
Nascida na Capital, a cineasta sul-mato-grossense integrou a equipe de produção do documentário Linkin Park: Unshatter, lançado nos cinemas em 30 de setembro de 2026. Como segunda assistente de câmera, acompanhou a preparação dos músicos para o retorno aos palcos, registrou momentos dos bastidores e viu de perto uma nova fase do grupo que marcou sua adolescência.
O documentário acompanha a reconstrução do Linkin Park depois de 7 anos de pausa, período marcado pela perda do vocalista Chester Bennington, em 2017. A produção reúne imagens de arquivo, sessões de estúdio, entrevistas e apresentações da banda, incluindo o show realizado em São Paulo (SP), em novembro de 2024, durante o lançamento do álbum "From Zero". Bianca participou das gravações brasileiras, acompanhando a chegada dos artistas, os compromissos anteriores à apresentação e a movimentação nos bastidores.
“A gente gravou a chegada deles, a semana deles antes do show acontecer. Foi desde que eles chegaram até o show. Para mim foi muito único, porque a gente estava lá acompanhando o processo artístico deles antes da apresentação”, conta.

Estar tão perto de artistas que admirava desde adolescente tornou a experiência ainda mais especial. Bianca lembra que comprava DVDs do Linkin Park em feiras e encontrava no grupo uma referência que ia além da música. Descendente de japoneses, ela se identificava especialmente com Mike Shinoda, integrante da banda.
“Eu também sou fã do Linkin Park desde a adolescência. Comprava os DVDs na feira. Para mim tinha muito a questão da representatividade asiática, porque tinha o Mike Shinoda. Quando a gente tinha um artista japonês cantando rap, era muito importante para mim. E agora, adulta, estar participando de um documentário deles foi muito incrível”, relata.
Como tudo começou - O convite para trabalhar na produção surgiu por meio dos contatos profissionais que Bianca construiu ao longo da carreira. Depois de atuar em projetos no Paraná, ela se mudou para São Paulo, onde amigas que também trabalhavam no audiovisual passaram a indicá-la para novas oportunidades. Uma delas conhecia Bruno, primeiro assistente de câmera, responsável por coordenar parte da equipe técnica durante as filmagens. Foi por intermédio dele que Bianca recebeu o convite.
"Minhas amigas começaram a me chamar bastante para trabalhar. Uma dessas amigas conhecia o primeiro assistente de câmera, que queria me conhecer melhor porque a gente faria um projeto junto depois. Ele me chamou para esse trabalho e eu fiquei doida. Falei: 'Claro, óbvio, com certeza eu vou fazer'. Eu fui como segunda assistente de câmera e participei do documentário”, recorda.
As gravações exigiram restrição absoluta, principalmente porque a produção acompanhava momentos pessoais e profissionais dos integrantes do Linkin Park. Bianca explica que a equipe precisava preservar a espontaneidade das cenas e evitar interferências na rotina dos artistas. Por isso, embora estivesse próxima deles, as conversas eram limitadas e o trabalho precisava acontecer sem chamar atenção.
“A gente não podia ficar interagindo muito com eles, porque senão estaria quebrando a espontaneidade do documentário. Era importante manter a integridade do que estava sendo filmado. Tinha coisas em que a gente não podia estar dentro do hotel, até para os fãs não descobrirem onde eles estavam. Mas acompanhamos entrevistas, compromissos e toda a preparação para o show”, explica.
Bastidores - Entre as lembranças mais marcantes estão os instantes que antecederam a entrada da banda no palco. Bianca conta que teve a oportunidade de observar como cada integrante se preparava para enfrentar o público. Alguns desenhavam, outros cantavam juntos e havia momentos de descontração que contrastavam com a concentração exigida pela apresentação.
“A gente estava no backstage e podia ver como cada um se preparava. Um desenhava, outro cantava junto com outro para ficar animado. Antes do show, eles foram para uma sala e cantaram uma música. Não sei se era um ritual, mas foi uma coisa muito bonita. A Emily cantando, eles cantando juntos. A gente não entrou porque entendeu que era um momento de concentração muito importante. Depois eles aqueceram para entrar no palco, pulando, brincando, o Mike e a Emily cantando. Foi incrível”, relembra.
A presença da vocalista Emily Armstrong também chamou atenção da cineasta. Para Bianca, acompanhar a nova formação significou testemunhar como os integrantes buscavam preservar a história do Linkin Park sem deixar de construir uma identidade para o futuro. Durante as gravações, ela observou a relação de Emily com as músicas originalmente interpretadas por Chester Bennington.
“Ela falava muito sobre as músicas dele. Tinha algumas músicas específicas que davam muita vontade de chorar, porque parecia que ela sentia o que ele estava sentindo quando cantava. Eles conversavam muito sobre isso, lembravam do Chester, mas também sabiam que era uma nova fase. O Chester nunca vai ser substituído. Eles estão com a Emily, e ela também é a cara do Linkin Park”, afirma.
A cineasta diz que a emoção também alcançava quem estava atrás das câmeras, especialmente nos momentos em que as canções traziam lembranças do antigo vocalista.
Apesar da dimensão internacional do projeto, Bianca guarda lembranças de uma equipe acessível e de artistas preocupados em manter um ambiente confortável durante as gravações. Ela conta que os músicos cumprimentavam os profissionais, faziam brincadeiras e demonstravam entusiasmo com o retorno aos palcos.
Mesmo depois de construir uma carreira fora do Estado, Bianca mantém uma ligação afetiva com Campo Grande. Neste ano, retornou à cidade para participar das filmagens de um projeto sobre a pintora Lídia Baís, experiência que considera especial por trabalhar em lugares que fizeram parte de sua infância e adolescência. Também integrou a equipe de As Meninas da Garagem Secreta, série infantojuvenil que estreou em 19 de outubro.
De Campo Grande para o cinema – Antes de chegar aos bastidores do Linkin Park, Bianca precisou descobrir como transformar o interesse por imagens em profissão. Ela viveu em Campo Grande até os 18 anos e, durante a adolescência, gostava de fotografia, mas não enxergava o cinema como uma possibilidade concreta de carreira. Chegou a considerar os cursos de Publicidade e Jornalismo, por acreditar que seriam caminhos mais próximos da arte e da produção de narrativas.
A mudança aconteceu durante a preparação para o vestibular, quando uma amiga comentou sobre o curso de Cinema. Pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), Bianca conseguiu ingressar na Unespar (Universidade Estadual do Paraná), em 2016, e concluiu a graduação em 2020. “Eu sempre gostei de fotografia, mas quando chegou a época do vestibular, ficava pensando se trabalhar com arte era mesmo uma possibilidade. Quando descobri o curso de Cinema, comecei a entender que aquilo também poderia ser uma profissão. A faculdade ampliou muito a minha visão do mundo e de mim mesma”, relata.
Foi na universidade que ela encontrou mulheres atuando em departamentos técnicos, como fotografia e direção, funções nas quais antes não conseguia se imaginar. O contato com diferentes profissionais também despertou discussões sobre representatividade e sobre quem tem a oportunidade de contar histórias no cinema.
“Quando eu vi mulheres trabalhando e ocupando essas posições, comecei a pensar muito mais sobre machismo, feminismo e representatividade. Antes, a gente enxergava esses departamentos técnicos como lugares ocupados por homens. Quando conheci essas profissionais, comecei a assistir aos filmes delas e perceber histórias com as quais eu me identificava, mas que nunca tinha visto antes.
Aquilo foi um marco para eu ter certeza de que queria trabalhar com audiovisual”, explica. Bianca avalia que a experiência também modificou sua maneira de compreender as próprias origens e a responsabilidade de quem produz imagens.
Entrar no mercado, entretanto, não foi simples. Sem contatos familiares na área ou equipamentos próprios, Bianca começou a procurar oportunidades em páginas de produtoras e grupos de profissionais nas redes sociais. Também participou de cursos gratuitos, oficinas de videodança, estudos de gênero e atividades culturais oferecidas em espaços públicos. Foi justamente durante essas experiências que conheceu um diretor de fotografia que, posteriormente, a convidou para outros trabalhos.
“O grande desafio era entender como o mercado funcionava. Trabalhar com arte e conseguir viver disso é um privilégio, porque muitas pessoas já têm contatos, alguém que conhece alguém, um parente que pode investir em equipamento. Eu não tinha isso, então precisava encontrar uma forma de entrar.
Frequentar os espaços públicos e participar dos cursos foi fundamental, porque conheci pessoas que depois me levaram para outros projetos. Foi muito importante para a minha construção como pessoa e para conseguir trabalhar com cinema hoje”, afirma.
Para ela, cada produção representa a oportunidade de levar um pouco das próprias vivências para o audiovisual. “Quando penso em onde nasci, revisito as minhas origens e reconheço as coisas que vivi. Cada pessoa tem um olhar único, que só ela consegue transmitir.
“Quando gravei em Campo Grande, foi um orgulho enorme trabalhar em lugares por onde eu passava. A regionalidade diz muito sobre o espaço em que a gente atua e sobre a maneira como conta uma história”, conclui. Quem quiser acompanhar os trabalhos da cineasta pode encontrá-la no Instagram, pelo perfil @biancaono.