Comportamento

Yuki perdeu o carrinho, machucou a mão e achou na moto recomeço

Após deixar o emprego de cozinheira, ela voltou às ruas com fé, churros e vontade de seguir

Por Gabi Cenciarelli | 29/10/2025 07:41
Yuki perdeu o carrinho, machucou a mão e achou na moto recomeço
Daniela vende churros no Nova Lima com sua moto e ficou conhecida na região

No fim de tarde da Avenida Abraão Anache, o som entre os carros é inconfundível. “Chama o papai, chama a mamãe, o carro do churros está passando na rua, rua…” O jingle antigo, desses de feiras e bairros de antigamente, vem de uma moto preta coberta por um toldo lilás. Quem mora no Nova Lima já reconhece de longe: é a Yuki chegando com o sorriso que virou parte da rotina da creche municipal.

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Aos 48 anos, Yuki Daniela reencontrou nas ruas o mesmo sustento que um dia precisou abandonar. “Eu vendia churros em 2010, com um carrinho”, conta. “Mas chegou um momento em que eu precisei vender o carrinho pra pagar as contas. Fui trabalhar registrada, de cozinheira, e fiquei muitos anos assim.”

O trabalho formal parecia a estabilidade que ela buscava, até o corpo cobrar o preço. “Eu comecei a sentir dor e tontura na mão. Fui ao médico e disseram que vou precisar operar. Aí pensei: não posso ficar parada. Foi quando tive a ideia de voltar pro churros.”

Ela vende churros no bairro Nova Lima e seu trabalho ficou conhecido

Sem o carrinho de antes, a solução estava na garagem: uma pequena moto, que ela já usava para ir ao trabalho. “A moto é pequena, mas pensei: dá pra adaptar. E comecei a procurar tudo na internet”, lembra. O irmão ajudou a instalar o toldo; um colega improvisou o som e a corneta que anunciam o produto; e o resto foi feito com criatividade e fé.

O resultado é uma mistura de nostalgia e esperança sobre duas rodas. “O jingle é o mesmo de antigamente, aquele que chama a criançada. Só que no meio entra uma música de Deus, um louvor forte. Eu gosto assim. Fica alegre, mas também tem fé.”

A rotina agora tem endereço fixo: o portão azul da creche do Nova Lima. Quando o jingle começa, as crianças de uniforme azul da Semed correm até ela. Um pai paga por PIX, a filha observa o preparo, e Yuki conversa enquanto serve o doce quentinho. “Aqui o povo é muito bom. A gente faz amizade. Eu gosto de estar aqui”, diz.

O investimento, entre toldo, som e adaptações, chegou perto dos R$ 12 mil, valor que ela foi juntando aos poucos. Mas o retorno, diz, é mais emocional que financeiro. “Trabalhar com comida é o que eu sei fazer. E agora, mesmo com a mão doendo, me sinto útil de novo. Graças a Deus, tá dando certo.”

Quem escuta o jingle de longe já sabe que é Yuki chegando com seu churros 


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