Comportamento

Poesia 'sem contra indicação' alivia rotina de pacientes em hospital

Desenvolvido em hospital, projeto usa literatura para transformar cotidiano de quem espera voltar pra casa

Jéssica Fernandes | 20/04/2023 06:45
Poesia 'sem contra indicação' alivia rotina de pacientes em hospital
Paciente segura poema que recebeu do projeto A Literatura Cura. (Foto: Marcos Maluf)

No quarto do hospital uma mão marcada pelo acesso venoso segura a folha que não traz recomendações ou receita médica. O papel tem detalhes coloridos que combinam com o tom da caneta que Raquel Anderson, de 58 anos, usou para escrever um poema dedicado especialmente à paciente. 

Desde 2017, a historiadora conduz o projeto ‘A Literatura Cura’ na Cassems. Raquele começou a escrever poesias, textos literários, aos 50 anos e diz ter desenvolvido a iniciativa para ajudar a sociedade.

“Eu queria que meu dom se reverberasse de alguma forma em benefício para a sociedade, porque penso que quando a gente estuda tem o dever de devolver para a sociedade. Todas as vezes que escrevo os títulos nunca nascem no início, a única vez que nasceu um título em primeira mão foi quando passei aqui na frente”, conta. 

Caixa 'sem contra indicações' faz parte do material do projeto. (Foto: Marcos Maluf)

A experiência como historiadora contribuiu para elaborar o projeto de literatura hospitalar. “Do ponto de vista histórico desde o século dois na Roma Antiga já existiam prescrições de poesias com efeitos curativos. Eu fui estudar isso de como a literatura pode cumprir um papel importante no processo de cura”, explica. 

Desde que iniciou o trabalho, Raquel escreveu para mais de mil pessoas entre pacientes e acompanhamentos. Ela comenta que dedica as poesias para o segundo público por perceber a forma como eles lidam com a internação dos familiares. 

“Percebi que os acompanhantes dos pacientes oncológicos em alguns momentos estavam mais dilacerados nas emoções, mais tristes que os próprios pacientes. Eu escrevi um módulo e dei o nome de ‘Cuidar do Cuidador”, fala. 

No quarto, Raquel conversa com pacientes antes de começar a escrever. (Foto: Marcos Maluf)

A Literatura Cura é desenvolvida em parceria com o setor de psicologia e comunicação do hospital e chega em todos os lugares onde estão os pacientes. Quando a pessoa recebe alta, Raquel manda cartas para a pessoa receber em casa caso queira. 

O material de trabalho da Raquel é o estojo cheio de canetas coloridas, linhas de bordado e os papéis onde escreve as poesias. Com a bolsa em mãos, ela percorre quarto por quarto onde entra, se apresenta e conversa com a pessoa que está ali.

Ela relata que o contato próximo é essencial para fazer a iniciativa funcionar.  “A minha entrevista dei o nome de anamnese literária. Por meio dela conheço os pacientes para extrair algumas relevâncias da vida dele e com inspiração nisso componho os textos”, diz.  

Apoiada na janela, a idealizadora do projeto redige o poema. (Foto: Marcos Maluf)

O Lado B acompanhou uma das visitas feitas pela escritora aos pacientes. A conversa entre eles é leve e flui naturalmente sem formalidades. As pacientes dão alguns detalhes, falam sobre a passagem pelo hospital, de onde vieram e quem as esperam em casa. Em seguida, Raquel vai para a janela e com o papel e caneta em mãos começa a escrever. 

Enquanto Raquel escrevia, as mulheres conversaram com a equipe de reportagem. Moradora do Aero Rancho, Emília Andrade comenta que jamais esperou entrar num hospital e receber uma poesia especialmente para ela. 

“Nem passou pela cabeça, achei maravilhoso. A gente quando chega no hospital, entra já no jeito pra sair e ir embora. A gente só fica pensando na alta, em tomar remédio e ter alta”, diz.

Raquel entrega caixa onde é guardada literatura para paciente. (Foto: Marcos Maluf)

Formada em enfermagem, ela trabalhava em outro hospital da cidade desde 2000. Mãe e avó, Emília fala que gosta de fazer de tudo quando recebesse alta faria alguma delas. “Cuidar da casa, limpar, fazer comidinha gostosa, chamar minhas filhas e fazer um peixinho com elas”, cita.

Após falar da refeição em família, Emília recebe a caixa onde Raquel coloca o poema. Emília tira o papel de dentro, lê calmamente e em seguida comenta o verso que cita cuidado e enfermagem. 

“Via meu pai cuidando da minha mãe e dos meus irmãos e fui pegando gosto. Queria fazer medicina, mas não foi possível, fiz enfermagem e segui carreira”, pontua.

Acompanhando a esposa, João criou diário onde fala sobre cotidiano dela. (Foto: Marcos Maluf)

Na sala, Raquel não era a única a fazer anotações no papel. Segurando um post it, João Garcete, de 62 anos, anotava quietinho tudo que acontecia, perguntava o nome do projeto, o do jornal, o do fotógrafo e também o meu. 

Sentado na cadeira, ao lado da cama da esposa Ana, de 62 anos, João justificou porque tomava notas dos acontecimentos do dia. “Eu fiz uma página pra ela. É ‘Pensando no Futuro e Sempre a te esperar’, porque sempre espero que ela retorne para casa e a gente volte a passear”, comenta.

O casal adora destinos com praia e sempre gostou de viajar. Os planos da aposentadoria incluíam fazer várias viagens, mas o tratamento pausou temporariamente esse desejo. “Depois de um mês que veio a aposentadoria dela veio esse câncer terrível, mas se Deus quiser vai dar tudo certo e vamos vencer”, destaca. 

No celular, João anota no WhatsApp o que escreveu no post it. (Foto: Marcos Maluf)

Casados há 32 anos, eles se conheceram em Nioaque num casamento. “Conheci a Ana numa Kombi, a irmã dela ia casar”, recorda. Ana relembra como foi o primeiro contato antes da Kombi. “Ele estava jogando num campo de futebol, ia saindo com a chuteira na mão, meu cunhado viu e falou: ‘Esse aí é meu amigo”, diz. 

João foi convidado para o casamento e ambos começaram a conversar. Namoramos muito tempo, fui embora, voltei e ela sempre esperou”, conta. Após 10 anos de namoro, os dois oficializaram a união que segue firme até hoje.

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