Comportamento

Paulo foi anjo para Ivete e esperança de crianças com doenças raras

Mãe transformou dor em livro para ajudar outros pais na luta contra doença incurável

Por Natália Olliver | 19/02/2025 06:10

Em um lugar improvisado, Ivete Krewer quebra a rotina para receber a reportagem. O assunto é uma ferida que nunca cicatrizou, mas com a qual ela aprendeu a conviver: a partida precoce do filho de 9 anos, Paulo Ricardo. Para ela, um eterno boneco de porcelana e o anjo que esteve na Terra para mostrar como salvar outras crianças da doença que o levou, a Lipofuscinose Ceróide Neuronal, também conhecida como doença de Batten. A luta de Ivete virou livro, que, anos depois, cumpriria a promessa que fez ao filho: ajudar outros pais.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O ano era 2000, e, na época, a ciência conhecia pouco sobre essa condição neurodegenerativa. Hoje, os médicos já sabem que existem 14 tipos de manifestações da doença. A família morava em Cascavel, no Paraná. Ivete só chegaria a Campo Grande anos depois.

Os primeiros sinais de que algo estava errado com Paulinho apareceram quando ele tinha quase 4 anos. Antes disso, ele corria, brincava na fazenda e trazia galinhas para a mãe. Na escola, a professora alertou que ele estava caindo demais, e os pais decidiram investigar o motivo.

“Ela [a doença] é muito rápida e cruel. Meu filho era normal até então. Ele voltou a fazer xixi na roupa, coisa que não fazia desde quando tinha um aninho. Fomos a um neuropediatra, e ele disse que nos exames normais não aparecia nada. Então, fomos a São Paulo atrás de um especialista. Lá, o doutor avaliou e disse que havia três hipóteses; a terceira era irreversível. Fizemos exame de eletrorretinografia para ver. Foi complicado porque ele era hiperativo, e criança não entende.”

Paulo foi anjo para Ivete e esperança de crianças com doenças raras
Ivete durante os cuidados com Paulinho (Foto: Arquivo pessoal)

O diagnóstico foi um soco no estômago de Ivete. Não havia nada que ela ou os médicos pudessem fazer para salvar a criança. A única coisa possível era dar a Paulinho qualidade de vida. 

“No primeiro momento eu estava no 16º andar e pensei em desistir, não via motivo de continuar sem ele. Eu queria me levantar e me jogar, mas algo me segurou”, conta. 

Desesperada, ela procurou a opinião de outro profissional que constatou a doença e acrescentou que ela já estava degenerando o cérebro do menino. “A cada dia vimos ele perder aos poucos os movimentos. Eu lutei até o último minuto. Foi cruel porque quanto mais a gente bateu nas portas, elas não se abriram, o governo não ajudou. Era muito raro a doença. Eu tenho certeza que se não fosse Deus eu não teria conseguido”. 

A vida seguiu do jeito que dava e da maneira que Ivete conseguiu levar com o auxílio da família e amigos. Mas o lado pessoal ficou em segundo plano. 'Crocheteira' desde a adolescência, ela passava os dias fazendo peças para médicos e enfermeiras no hospital. Aliás, estar no local foi um momento, além da situação com o filho, de adversidades pessoais. 

Ivete suspira ao lembrar do filho. A morte de Paulinho aconteceu na madrugada. Ele tinha 9 anos. Durante alguns dias ele esteve fraco e com os batimentos cardíacos baixos. Em 28 de novembro de 2006, médicos cochicharam à equipe que “a velinha estava apagando”. A frase foi suficiente para que Ivete entendesse o recado sutil. O coração do filho estava parando.

“Os batimentos dele estavam em 40bpm. Me mandaram embora de noite. Eu tinha ficado sete dias seguidos lá. A médica falava que ele já não estava me ouvindo, mas quando eu chegava e falava 'mamãe chegou', ele erguia a sobrancelha, Era assim que ele falava comigo. Fui pra casa e me ligaram às 5h. Fui correndo. Ele já estava sem vida. Eu pedi para pegar ele no colo uma última vez e pedi para ele cuidar de mim”. 

Após 19 anos, Ivete Krewer fala sobre morte do filho para ajudar outras mães (Foto: Natália Olliver)

Ivete deu um último adeus ao filho, mas continuou indo até o hospital na esperança de encontrar ele. O cemitério também foi cenário da tentativa de vê-lo vivo. 

“A despedida dele parece que foi ontem. A doença compromete só a aparência neurológica mesmo, o corpo estava lá. Eu tive todos os motivos para desistir. Precisei tomar remédio. Eu chegava no hospital, via o quarto vazio, ia até o cemitério. A gente era muito grudado”. 

Apesar da dor, Ivete até pensou em ter outros filhos anos depois, mas foi alertada pelos médicos de que a chance do segundo nascer com a doença era alta, 50%.

“É muito triste não ter certeza de onde vem isso. Para mim, a chance era muito alta. Não tive oportunidade de ter outra criança. Não quero colocar uma no mundo para ter o mesmo problema. Falaram que é malformação, até agora não sei. Sinto saudade dele. Eu ficaria com ele de qualquer jeito, queria que ele fosse para sempre”. 

Um anjo na terra 

Comemorações de aniversário era feitas em hospital (Foto: Arqquivo pessoal)

A história de Paulinho foi contada no livro ‘Um anjo na terra’, escrito por Ivete. Durante anos ela registrou o dia a dia do filho e todo processo da doença, desde o momento que descobriu, sintomas até a morte da criança. O conteúdo foi base de estudos sobre a neuropatologia. 

A ideia de reunir os relatos em um livro foi de uma das médicas de Paulinho. Na época, ela queria que Ivete vendesse o material, mas a mãe disse que ela mesmo faria um livro. Após a morte do garoto, ela se isolou na fazenda da família no interior de Cascavel para escrever. 

“Fui pra lá e fiz, escrevi todos os dias durante um mês. Não tinha nada sobre a doença nos anos 2000. Escrevi quando achei que era a hora. Queria ajudar outros pais. Prometi para o Paulinho que o mundo conheceria a história dele. Não me arrependo, tudo o que eu fiz eu faria hoje e talvez melhor. Deito a cabeça no travesseiro e morro de saudade.

Detalhista, ela explica que nunca cuidou de ninguém como precisou cuidar do filho e que mesmo não sendo enfermeira, ela precisou saber de muita coisa que não dominava. “Tudo o que me falavam para fazer, eu fazia. Aspiração, oxigênio, sonda. Eu observava tudo o que faziam nele. Relatava tudo. Eu era uma leoa. Eu lutei e ele lutou. Ele era muito educado, inteligente e parecia um anjo”.

Paulo Ricardo faleceu devido a doença nerodegenerativa rara e sem cura (Foto: Arquivo pessoal)

Após escrever o livro, Ivete não quis mais saber mais do assunto. Vivia um luto eterno. Porém, a história mudou quando conheceu o caso da pequena Júlia Pontes Teixeira Domingues, de apenas 4 anos, nas redes sociais ela é conhecida como Julinha. A menina luta contra a mesma doença de Paulinho. 

A mãe, Fernanda Pontes, fez contato com Ivete para saber mais da doença. O passado votou à tona. Para tentar salvar a filha, ela fez uma vakinha virtual. A meta é atingir R$ 18 milhões. O valor exorbitante é necessário para o tratamento experimental desenvolvido na Califórnia. Como no caso de Ivete, ela explica como os sintomas aparecem na filha. 

“É o pior dos diagnósticos. A gente observou em 2024 que Júlia estava perdendo habilidades que ela tinha adquirido. Ele se desequilibrou quando estava parada, tinha dificuldade de subir escadas e colocava a mão no chão. Ela começou a falar mais embolado e, por ninguém entender, parou de se comunicar. Ela perdeu o controle de xixi e cocô e começou a babar. No final do ano fizemos exames para detectar doenças raras e recebemos o diagnóstico. O que ouvimos dos médicos era continuar com as terapias e dar muito amor. Ela vai perdendo tudo até entrar em estado vegetativo”. 

Para saber mais da história da Julinha e contribuir com o tratamento acesse esse link. 

Livro escrito por Ivete após morte do filho, Pulo Ricardo, em 2006 (Foto: Natália Olliver)

Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e Twitter. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.

Veja Mais