Comportamento

Médico virou abraço para mãe que viu o filho morrer em acidente

Repórter fotográfico do Campo Grande News registrou instante em que gesto de humanidade atravessou a tragédia

Por Clayton Neves | 09/12/2025 07:07
Médico virou abraço para mãe que viu o filho morrer em acidente
Mãe do jovem morto sendo confortada por médico do Samu. (Foto: Juliano Almeida)

A foto foi feita em segundos, mas carrega um silêncio que pesa toneladas. Na imagem registrada pelo repórter fotográfico do Campo Grande News, Juliano Almeida, um médico do Samu acolhe uma mãe que recebeu a pior notícia da vida. O filho havia perdido a vida em um acidente de trânsito.

Quem morreu foi Leandro Sandim, de 40 anos, que teve um mal súbito e ocasionou um acidente na Avenida Tamandaré na semana passada.

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No meio do barulho das sirenes, da luta contra o tempo e do dever de socorrista, o que se viu foi um gesto de humanidade. Um socorrista que, naquele instante, deixou de ser apenas médico para virar amparo.

O abraço foi dado por Wagner de Abreu, 41 anos, médico emergencista e integrante do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) desde 2020. Ele trabalha em ritmo acelerado, de plantão em plantão, numa rotina em que cada dia é diferente do anterior.

Em Campo Grande, Wagner faz parte do suporte avançado, que atende os casos mais graves. A rotina do Samu é imprevisível e dura. O tempo quase sempre é inimigo, e a maioria das chamadas envolve pacientes entre a vida e a morte.

Wagner Abreu é integrante do Samu desde 2020. (Foto: Arquivo Pessoal)

“É uma área muito voltada para a complexidade. A gente lida com tristeza, com perda. Infelizmente, muitas vezes não conseguimos devolver para aquela família o que eles mais querem, que é a vida”, explica.

No dia da foto, 1º de dezembro, a cena que correu as redes aconteceu após mais um desses atendimentos. Wagner não só anunciou a morte, mas permaneceu ali. Escutou, segurou, ofereceu o silêncio que, segundo ele, às vezes acolhe mais do que qualquer palavra.

“Eu me coloquei no lugar deles. Sou pai de dois meninos e fiquei pensando qual seria a minha reação”, afirma. Segundo o médico, a mãe estava mergulhada nas primeiras fases do luto. Negava, pedia para ver, tentava barganhar com a realidade.

Wagner sabia que nenhuma frase resolveria aquilo. Então ofereceu presença. “A gente sempre lembra de uma frase que é: curar quando possível, aliviar quando necessário e consolar sempre”, destaca.

Acidente que matou jovem aconteceu na semana passada. (Foto: Juliano Almeida)

Trabalhar todos os dias à flor da pele, vivendo extremos, é parte do ofício. E, mesmo assim, o médico garante que a humanidade não se perde, embora precise ser cuidada. Nos últimos anos, ele diz que se reaproximou da religiosidade e passou a enxergar melhor os pequenos gestos, inclusive em casa. 

“Hoje eu olho mais para os meus filhos. Tento ser mais cuidadoso. Pequenas ações confortam. E fazem a gente lembrar do que realmente importa”, avalia.

Wagner afirma que o socorrista, apesar da correria do dia a dia, precisa compreender que confortar faz parte tanto quanto tentar salvar. E que, quando a vida já não pode ser devolvida, o cuidado continua e só muda de forma.

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