Larissa recria aréolas e ajuda 170 mulheres a se reconhecer no espelho
Inspirado pela recuperação do primo, projeto já atendeu dezenas de pacientes que enfrentaram o câncer de mama

Olhar no espelho e reconhecer novamente uma parte do próprio para mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama pode ter uma emoção difícil de explicar. Em Campo Grande, a micropigmentadora paramédica Larissa Moim Fogaça encontrou uma maneira de ajudar essas mulheres. Há sete anos, ela realiza gratuitamente a micropigmentação 3D de aréolas, técnica que recria visualmente o desenho e as cores da região mamária.
RESUMO
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Em Campo Grande, a micropigmentadora paramédica Larissa Moim Fogaça oferece gratuitamente, desde 2019, a micropigmentação 3D de aréolas para mulheres que passaram pela retirada da mama devido ao câncer. O projeto já atendeu 170 pacientes, entre elas Ana Beatriz Alves, de 39 anos, que fez quatro sessões e recuperou parte da autoestima. O serviço funciona o ano todo, com encaminhamento de médicos parceiros ou contato direto pelo Instagram e pelo WhatsApp.
O projeto começou em 2019 e já beneficiou 170 mulheres. Entre elas está Ana Beatriz Alves, de 39 anos, natural do Piauí, mas atualmente moradora de Costa Rica (MS), que enfrentou um longo tratamento e encontrou no procedimento uma forma de recuperar parte da autoestima.
A técnica usada por Larissa é semelhante à tatuagem, mas trabalha com a aplicação de pigmentos de forma mais superficial e com diferentes tonalidades para criar a aparência tridimensional da aréola. Quando a paciente preserva uma das mamas, a profissional usa a região como referência para reproduzir cores, tamanho e características do desenho original.
O objetivo é alcançar um resultado que respeite a aparência anterior à cirurgia. “A nossa aréola tem um degradê de cores, então não é para fazer uma marca muito pesada. Eu procuro copiar de forma fiel a aréola que foi preservada, ver o tamanho, a cor e tentar fazer a projeção do outro lado, deixando a configuração daquela mulher antes da doença preservada o máximo que eu posso dentro da técnica que ofereço”, explica.
O atendimento não tem custo e acontece durante todo o ano, embora ganhe maior divulgação em outubro, durante a campanha de conscientização sobre o câncer de mama. Larissa trabalha em parceria com 18 cirurgiões plásticos, além de mastologistas e oncologistas que encaminham pacientes quando elas estão aptas ao procedimento. As mulheres também podem procurá-la diretamente pelas redes sociais ou pelo WhatsApp.
Antes de iniciar a micropigmentação, ela conversa com cada uma para conhecer o histórico cirúrgico, o tratamento realizado e as condições da pele. “Não existe distinção de credo religioso, posição social ou qualquer outra condição. Se essa mulher estiver precisando, ela pode entrar em contato comigo e eu vou oferecer o atendimento gratuito. Eu enfatizo no mês de outubro por ser o Outubro Rosa, mas atendo o ano todo”, afirma.
A história por trás do projeto – Há sete anos, um primo recebeu o diagnóstico de um tumor na região da têmpora, acompanhado de um prognóstico que deixou a família desesperada. Segundo ela, o menino já havia perdido parte da visão e os médicos alertaram para a possibilidade de comprometimento de outras funções. A família passou dez dias na Santa Casa, enfrentando a incerteza sobre o tratamento.
“O ambiente de internação é muito doloroso. Enquanto a gente estava passando por aquele processo difícil de aceitação, às vezes recebia uma mensagem, uma palavra de conforto no celular, e aquilo trazia um bálsamo para a nossa alma. Como percebi que estava recebendo amor e cuidado, senti o desejo de fazer isso em outro momento por quem precisasse”, relembra.
Na época, Larissa conta que os familiares chegaram a planejar uma viagem para que o menino conhecesse a praia, diante do receio de que a doença comprometesse ainda mais sua visão. Entretanto, durante a internação, uma nova avaliação trouxe uma notícia inesperada. Segundo o relato da micropigmentadora, os médicos informaram que o tumor não aparecia mais nos exames.
“Quando me ligaram da oncologia e pediram para descer, a médica falou: 'Olha, sumiu'. Eu perguntei: 'Mas como sumiu? Perderam o exame dentro da Santa Casa?'. E ela disse que, inexplicavelmente, o tumor havia sumido. Eu não sabia o que fazer, não consegui ir pelo elevador. Subi correndo pelas escadas e abracei minha prima”, recorda. Larissa atribui a recuperação do primo a um milagre. Não foram apresentados à reportagem exames ou laudos que permitam esclarecer clinicamente o desaparecimento relatado.
A experiência despertou nela o desejo de ajudar outras famílias que enfrentavam o câncer, embora ainda não soubesse como faria isso. Inicialmente, imaginava retornar ao hospital para distribuir doces, levar personagens ou promover alguma atividade recreativa. A resposta veio quando conversava com um cirurgião plástico sobre o trabalho que já realizava na área de camuflagem de cicatrizes. O médico comentou que havia dificuldade para encontrar profissionais que reconstruíssem visualmente as aréolas de mulheres submetidas à retirada da mama em Mato Grosso do Sul.
Larissa enxergou ali uma oportunidade de unir sua profissão ao propósito que havia estabelecido durante a internação do primo. “Eu falei: 'Meu Deus, é isso que vou fazer, está dentro do meu propósito'. Tive condições financeiras de ir para São Paulo, fiz minha especialização e, naquele mesmo ano, lancei meu primeiro Outubro Rosa. Desde então, comecei a atender gratuitamente todas as mulheres que me procuravam”, conta.
Uma das mulheres que encontraram apoio no projeto foi Ana Beatriz Alves, de 39 anos, natural do Piauí e moradora de Costa Rica há oito anos. Mãe e responsável pelo sustento de três filhos, ela começou a enfrentar problemas de saúde entre o fim de 2023 e o início de 2024. Ana já fazia acompanhamento periódico devido a cistos nas mamas quando percebeu alterações que a deixaram preocupada.
Uma mamografia inicial não apontou problemas, segundo seu relato, mas o desconforto continuou. Meses depois, realizou uma ultrassonografia e recebeu a suspeita de câncer.
“Quando o médico falou, comecei a ficar muito preocupada. Cheguei em casa, fui tomar banho e resolvi me examinar. Senti vários nódulos e percebi uma alteração na pele, parecida com casca de laranja. Naquele momento, pensei que precisava correr e me tratar. O medo que uma mãe tem de morrer é principalmente pelos filhos. Eu pensava em quem cuidaria deles”, relata.
A confirmação do diagnóstico trouxe uma sequência de consultas, exames e tratamentos. Ana conta que foi atendida na Casa Rosa, em Campo Grande, e posteriormente encaminhada à oncologia da Santa Casa. Durante as avaliações, recebeu a informação de que poderia precisar retirar parte ou toda a mama, dependendo da resposta à quimioterapia. A possibilidade de perder o cabelo ou a mama, entretanto, não era sua maior preocupação.
“Eu falei para a médica que não me importava se precisasse tirar a mama toda, ou até as duas. Na minha cabeça, eu só queria ficar viva para cuidar dos meus filhos. Não importava se ia ficar careca ou sem peito. O restante era o de menos. O mais importante era continuar viva”, recorda. Ana também iniciou acompanhamento psicológico para lidar com o impacto emocional do diagnóstico.
O tratamento foi marcado por dificuldades físicas, emocionais e financeiras. Ana precisava viajar de Costa Rica para Campo Grande para receber quimioterapia e conta que apresentou reações intensas aos medicamentos, incluindo episódios de falta de ar. Em determinado momento, segundo ela, a equipe médica precisou modificar o tempo de administração das medicações para reduzir os efeitos adversos.
A radioterapia também exigiu que permanecesse 1 mês e 10 dias na Capital, longe dos filhos. “Eu fazia quimioterapia a cada 21 dias e nunca vinha com a certeza de que voltaria para casa viva, porque passava muito mal. Eu sempre me despedia dos meus filhos. Quando precisei ficar em Campo Grande para a radioterapia, chorava todos os dias. Queria estar em casa, mas precisava fazer o tratamento. Eu sou pai e mãe, então aquilo me preocupava muito”, desabafa.
Com o tratamento e a reconstrução cirúrgica da mama, surgiu uma nova preocupação: recuperar a aparência da região afetada. Ana conta que, durante a quimioterapia, a prioridade era sobreviver, mas, com o passar do tempo, começou a sentir falta de se reconhecer no espelho. Foi por indicação do cirurgião plástico responsável pela reconstrução que conheceu Larissa.
Sem saber que o atendimento era gratuito, chegou a conversar com a irmã sobre a possibilidade de conseguir dinheiro emprestado para pagar pelo procedimento. “Eu falei que, se fosse caro, venderia até as calças, porque queria fazer alguma coisa para melhorar minha autoestima. Minha irmã disse que a gente daria um jeito, que faria empréstimo se precisasse. Quando entrei em contato com a Larissa, ela falou que faria gratuitamente. Eu só consegui agradecer. Porque, depois que passa aquela fase em que você só pensa em ficar boa, você olha no espelho e quer ver aquela parte do seu corpo de volta”, relata.
Ana começou a micropigmentação em 2025 e já passou por 4 sessões. Larissa explica que a quantidade de atendimentos varia conforme as condições da pele e a absorção dos pigmentos, especialmente em mulheres que realizaram tratamentos prolongados. Mesmo quando são necessários retoques, o serviço permanece gratuito. Para Ana, o resultado trouxe uma sensação de recuperação que vai além da aparência física.
“No começo fiquei com um pouco de medo, porque pensava: 'Nossa, é uma tatuagem'. Depois até brinquei que agora também tinha uma tatuagem. Para mim foi ótimo, porque não tem como ter o mamilo de volta, mas com a micropigmentação a mama ganhou um formato que dá a impressão de que tenho novamente. Isso é muito importante. Só de olhar no espelho e ver alguma coisa ali, já é muita coisa”, afirma. Ana continua em acompanhamento oncológico.
Para Larissa, acompanhar histórias como a de Ana é a maior recompensa dos 7 anos de trabalho voluntário. Ela conta que o atendimento frequentemente se transforma em um espaço de conversa, acolhimento e amizade, principalmente porque muitas pacientes chegam fragilizadas pela experiência com a doença.
“Quando ela chega aqui e eu mergulho nessa história, revivo as dores dela e entendo que, mesmo se colocasse preço, não haveria preço para o que faço. Mais do que o desenho, são nossas conversas, nossas fofocas. A gente se torna amiga. Eu recebi a graça da recuperação do meu primo de graça e é de graça que vou continuar oferecendo esse serviço enquanto tiver habilidade nas minhas mãos”, finaliza.
As interessadas podem procurar a profissional pelo Instagram, no perfil @larissafogacacamuflagem, ou pelo WhatsApp (67) 99135-1023. O atendimento é gratuito durante todo o ano, desde que haja condições clínicas para a realização do procedimento.
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