Comportamento

Há 53 anos, família cuida das memórias que a morte não apagou

Tradição que chegou à terceira geração mantém viva a arte funerária em cemitério em Campo Grande

Por Amanda Ferreira | 02/11/2026 07:00
Há 53 anos, família cuida das memórias que a morte não apagou
Flores, inscrições e monumentos compõem o cenário do Cemitério Santo Antônio às vésperas do Dia de Finados (Foto: Paulo Francis)

Por trás de cada túmulo, escultura ou placa de mármore existe um trabalho que vai além da construção. São peças que atravessam décadas, resistem ao tempo e ajudam famílias a preservar a memória de quem partiu. No Cemitério Santo Antônio, em Campo Grande, parte desse patrimônio carrega a assinatura de uma mesma família. 

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

O Lado B conheceu a história da Marmoraria Carrara, que há 53 anos constrói e restaura monumentos funerários na Capital, em uma tradição que já chegou à terceira geração.

O trabalho começou na década de 1960, quando o pai de João Paulo De Nadai, hoje com 62 anos, ainda morava no interior de São Paulo e produzia monumentos para diferentes regiões do país. Naquela época, as viagens eram difíceis, as estradas tinham pouca estrutura e praticamente todo o serviço dependia das mãos dos artesãos. Em 1973, a família abriu a Carrara em Campo Grande, inicialmente em sociedade com a família Cardassi, de Araçatuba (SP). Anos depois, assumiu sozinha a administração do negócio.

João Paulo De Nadai, de 62 anos, mantém o trabalho com arte funerária que aprendeu com o pai (Foto: Paulo Francis)

Atualmente, João Paulo continua à frente da empresa ao lado do filho Gabriel De Nadai, de 30 anos, responsável pela área de vendas. A marmoraria atende principalmente à construção civil, mas mantém a produção e a restauração de jazigos, capelas e peças funerárias. Os pedidos incluem revestimentos de túmulos, vasos, placas, inscrições e fotografias em porcelana. Segundo João Paulo, muitas famílias procuram o serviço para recuperar estruturas antigas ou substituir materiais por mármore e granito.

Uma obra de 61 anos - Entre os monumentos que ajudam a contar essa história está o jazigo da família Nasser, no Cemitério Santo Antônio. João Paulo acompanhou a reportagem até a construção, que seu pai executou em 1965, quando ele tinha apenas 1 ano de idade. A obra foi uma das primeiras que o profissional realizou em Campo Grande, antes mesmo da abertura da Carrara na cidade.

"Meu pai fez quando eu tinha um ano de idade, em 1965. Foi um dos primeiros trabalhos dele aqui de Campo Grande", contou João Paulo, enquanto observava os detalhes da construção.

Segundo o empresário, a encomenda partiu de um integrante da família Nasser, que soube da presença de seu pai na região e pediu que ele desenvolvesse o monumento. Na época, o profissional ainda morava em Adamantina (SP), no interior paulista.

O projeto começou com desenhos feitos à mão, sem auxílio de computadores. Um primo da família, que trabalhava como desenhista, também participou da elaboração até que o cliente aprovasse o modelo.

Detalhes em pedra revelam o trabalho artesanal utilizado na construção de monumentos funerários antigos (Foto: Paulo Francis)

"Aí foi feito um desenho, naquele tempo era tudo à mão, não tinha computador. Até foi um primo nosso que trabalhava na MASP naquele tempo, que era desenhista", relembrou.

A construção recebeu revestimento externo de granito e acabamento interno de mármore. O processo começou pela base, seguida pela elevação das paredes de tijolos, cobertura e instalação das pedras. O cliente também participou da escolha das cores e dos detalhes. Segundo João Paulo, somente a montagem no cemitério exigiu 40 dias de trabalho ininterrupto. Antes disso, a preparação das peças levou de quatro a cinco meses.

Hoje, com ferramentas modernas, máquinas de corte e equipamentos de acabamento, o mesmo tipo de serviço poderia ser executado em menos tempo. João Paulo estima que a instalação levaria aproximadamente 15 dias, enquanto a fabricação das peças poderia ser concluída em cerca de um mês. Apesar da evolução, ele destaca que a qualidade continua dependendo da experiência dos profissionais.

Arte que resiste ao tempo - Ao caminhar pelo Cemitério Santo Antônio, João Paulo também mostrou trabalhos antigos que revelam como a arte funerária mudou. Monumentos com curvas, pilares, esculturas e detalhes feitos manualmente eram comuns décadas atrás. Algumas peças exigiam meses de dedicação de um único artesão. Hoje, as famílias preferem construções mais simples, com linhas retas e menos elementos decorativos.

Peças trabalhadas manualmente mostram a riqueza de detalhes da arte funerária de décadas passadas feita na epoca pelo pai de João Paulo (Foto: Paulo Francis)

"Naquele tempo, a dificuldade era muito maior, porque era feito um trabalho mais artesanal. Não tinha as ferramentas que tem hoje, mas faziam trabalhos bem elaborados, curvos. Hoje são mais linhas retas, mais simples", explicou.

Mesmo com os avanços, o empresário afirma que restaurar ou construir um jazigo exige cuidados específicos. Como os monumentos permanecem expostos ao sol, à chuva e às mudanças de temperatura, a escolha da pedra e a instalação precisam considerar a durabilidade. O nivelamento e a fixação das placas também fazem diferença para evitar que as peças se soltem com o passar dos anos.

"Não é qualquer mármore, qualquer granito que é adequado para pôr lá. E também a instalação tem os macetes, de nível, como grampear para não soltar essas pedras que ficam no sol. Tem toda uma técnica por trás disso", destacou.

A qualidade dos trabalhos antigos é motivo de orgulho para a família. João Paulo conta que ainda encontra clientes que reconhecem monumentos construídos por seu pai há aproximadamente 60 anos. Para ele, saber que uma obra permanece preservada depois de tanto tempo representa o reconhecimento de um conhecimento transmitido entre gerações.

Porta precisou ser substituída após furtos no cemitério da Capital (Foto: Paulo Francis)

Restauração e perdas no cemitério - Apesar de a estrutura do jazigo da família Nasser continuar no local, parte de seus elementos decorativos desapareceu. João Paulo mostrou à reportagem os espaços onde antes havia vasos, uma cruz e uma porta de bronze. Segundo ele, as peças foram furtadas ao longo dos anos, assim como outros adornos de diferentes sepulturas do Cemitério Santo Antônio.

"Infelizmente, aqui arrancaram toda a parte de bronze. Tinha vasos, a cruz, a porta também, roubaram aqui, que era de bronze", lamentou.

O empresário afirma que os furtos e as depredações mudaram a maneira como a marmoraria orienta os clientes. Atualmente, recomenda gravar os nomes diretamente no granito, em vez de instalar placas metálicas. 

Também aconselha evitar esculturas de bronze e peças de alumínio, materiais que podem despertar o interesse de ladrões. Algumas famílias, segundo ele, retiraram objetos dos túmulos para guardá-los em casa.

Capela da família De Nadai guarda a memória de familiares e também carrega o trabalho de diferentes gerações (Foto: Paulo Francis)

A própria família De Nadai precisou adotar essa medida. Depois que furtaram uma janela de alumínio de sua capela onde está a mãe dele, João Paulo decidiu retirar outras peças para evitar novas perdas. Ele critica a conservação dos cemitérios municipais e considera que a depredação ameaça não apenas as estruturas, mas também parte da história de Campo Grande.

"Ali é a memória da cidade. As famílias tradicionais estão ali, as pessoas que fizeram parte da história estão ali. Cidade não é um monte de prédios de ferro e concreto. Cidade somos nós. Quem mora na cidade é quem faz a cidade", afirmou.

João Paulo também relembrou a história de Jovan Krnican, conhecido como João Sonheiro, um judeu que, segundo o empresário, sobreviveu a um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ele conta que o homem tinha no braço o número tatuado durante o período em que esteve preso. Anos depois, já em Campo Grande, ficou conhecido por vender sonhos em uma cesta de bambu pelas ruas da cidade. 

Placa homenageia Jovan Krnican, conhecido como João Sonheiro, que, segundo relatos, sobreviveu a um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial (Foto: Paulo Francis)

João Paulo chegou a conhecê-lo e guarda lembranças dos doces que ele vendia. Após sua morte, decidiu homenageá-lo com uma placa, que produziu por conta própria, com autorização da esposa. "Eu conheci muito ele. Fiz a placa por minha conta, a esposa deixou, pedi permissão para ela e fiz", relembrou.

Trabalho que também conforta - Além dos projetos antigos, a Carrara continua recebendo pedidos de restauração. Um dos serviços mais recentes foi a recuperação de um monumento da família Jordano, danificado pela queda de uma árvore dentro do cemitério. João Paulo explicou que a empresa precisou recuperar a estrutura e preparar as peças para a reinstalação.

O empresário também mostrou um monumento que a equipe restaurou há aproximadamente dois anos. O serviço incluiu a recuperação da calçada, o fechamento de espaços entre as pedras e a instalação de novos vasos. Segundo ele, os adornos já sofreram novas depredações. Por isso, preservar uma construção antiga nem sempre significa apenas recuperar o desgaste causado pelo tempo.

Gabriel De Nadai, de 30 anos, dá continuidade à tradição familiar iniciada pelo avô na década de 1960 (Foto: Paulo Francis)

Para João Paulo, o trabalho tem um significado que ultrapassa a aparência dos monumentos. Ele acredita que recuperar um jazigo ajuda as famílias a manter o vínculo com quem morreu e pode trazer conforto durante o luto.

"Quando a gente faz um monumento para uma família, está investindo também em um certo conforto para ela. Porque, se você perde um ente e deixa o lugar abandonado, parece que está abandonando aquela pessoa, a memória dela. Quando a gente faz isso, alivia um pouco a dor", explicou.

Terceira geração mantém a tradição - A continuidade da história agora também depende de Gabriel De Nadai. Aos 30 anos, ele representa a terceira geração da família no negócio. Formado em engenharia mecânica, o jovem decidiu seguir os passos do pai e do avô, mesmo depois de estudar uma área que poderia levá-lo a outros caminhos profissionais.

"Fiz engenharia mecânica, alguma coisinha tem a ver na parte de maquinário. Mas, como a gente já tinha uma empresa montada, consolidada, resolveu tocar nessa direção", contou Gabriel.

Para ele, assumir a empresa representa mais do que administrar um negócio. É manter uma relação construída ao longo de décadas com famílias de Campo Grande. Gabriel explica que muitos clientes atuais são filhos ou netos de pessoas que contrataram os serviços de seu avô.

Jazigo da família Nasser foi construído em 1965 pelo pai de João Paulo, com revestimentos de mármore e granito (Foto: Amanda Ferreira)

"É importante manter toda uma tradição, ao longo de mais de 50 anos. A gente já tem uma carteira de clientes que atende. A gente dá sequência, atende o cliente que era o avô, atende o pai, está atendendo o neto. Aí, se tiver um filho, vai passar para ele também", afirmou.

Gabriel conta que os pedidos ligados à arte funerária continuam chegando todos os anos, embora representem uma parcela menor da atividade da empresa. Para João Paulo, a continuidade desse trabalho também preserva o conhecimento que recebeu do pai, especialmente as técnicas de construção e restauração de monumentos expostos ao tempo.

No Dia de Finados, quando famílias voltam aos cemitérios para levar flores, fazer orações e recordar pessoas queridas, o trabalho dos marmoristas ganha outro significado. Por trás de cada pedra polida, inscrição ou monumento restaurado, existe uma história que alguém decidiu preservar. 

Acompanhe o Lado B no Instagram @ladobcgoficial, Facebook e X. Tem pauta para sugerir? Mande nas redes sociais ou no Direto das Ruas através do WhatsApp (67) 99669-9563 (chame aqui).

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para entrar na lista VIP do Campo Grande News.

Veja Mais