Artes

O que era para ser um ateliê virou casa para mais de 15 artistas

Galeria reúne produções de 15 nomes e aposta na formação de novos públicos em meio à falta de incentivo

Por Clayton Neves | 04/11/2026 08:24

Fazer arte em Mato Grosso do Sul ainda é um desafio para quem tenta transformar criatividade em profissão. Com poucos espaços de exposição, editais limitados e falta de incentivo, muitos artistas acabam desestimulados e encontram dificuldades para mostrar o próprio trabalho, principalmente fora da Capital. Em Dourados, o artista plástico Raíque Moura decidiu enfrentar parte desse cenário criando um lugar onde a arte regional pudesse resistir, ser vista e compartilhada.

O espaço, batizado de Inspiratório, começou com um desejo antigo de Raíque, que durante um bom tempo teve o próprio ateliê dentro de casa. Depois da pandemia, com a produção cada vez mais concentrada no ambiente doméstico, a vontade de ter um endereço aberto ao público voltou a crescer.

“Inicialmente, a ideia era montar uma loja para vender minhas obras e uma sala para trabalhar. Mas encontrei o prédio que é bem amplo e esse projeto ganhou outras proporções”, comenta.

O que era para ser um ateliê virou casa para mais de 15 artistas
Na abertura, mais de 15 artistas de Mato Grosso do Sul e de outros lugares do Brasil passaram a expor

Artista plástico e ator, Raíque nasceu em Aparecida do Taboado e se mudou para Dourados em 2011, para estudar artes cênicas. Ao longo dos anos, também se envolveu com a produção de feiras criativas.

A experiência ajudou a perceber que faltava na cidade um espaço dedicado às artes visuais. Assim, o Inspiratório passou a reunir diferentes propostas em um mesmo endereço, com loja, ateliê de criação, galeria, cursos e estrutura para eventos culturais.

Na abertura, mais de 15 artistas de Mato Grosso do Sul e de outros lugares do Brasil passaram a expor no espaço. Também há trabalhos de um artista chileno. A proposta é apresentar diferentes linguagens e permitir que o público conheça produções que nem sempre encontram lugar para circular.

Entre as obras estão pinturas, esculturas, aquarelas, serigrafias, grafites, cerâmicas, marchetaria, estamparia artesanal e arte digital. A diversidade é justamente uma das características que Raíque pretende preservar.

A exposição não segue um tema específico e a intenção é que os artistas tenham liberdade para apresentar suas próprias pesquisas e estilos. A ideia é renovar a galeria a cada três meses, trazendo novos nomes e, uma ou duas vezes por ano, realizar exposições individuais.

Além de expor e comercializar trabalhos, o espaço também pretende investir na formação artística. O mezanino será destinado a cursos e oficinas de pintura, técnicas artísticas e processos criativos. A previsão é divulgar a programação em dezembro, com atividades a partir do início do próximo ano.

Resistência em meio à falta de incentivo - A criação do Inspiratório também tem relação direta com as dificuldades enfrentadas por quem escolhe viver de arte em Mato Grosso do Sul. Para Raíque, a falta de políticas públicas e de oportunidades suficientes acaba restringindo o acesso dos artistas aos recursos necessários para desenvolver seus projetos.

“Acredito que a quantidade limitada de vagas nos editais culturais de Dourados, por exemplo, não acompanha o tamanho da produção artística da cidade, que tem quase 300 mil habitantes. Além disso, a divisão dos recursos por segmentos, como teatro, música e artes visuais, torna a disputa ainda mais restrita. Em alguns casos, são poucas vagas para um número grande de profissionais”, destaca.

Raíque é artista plástico, ator e se mudou para Dourados em 2011. (Foto: Pedro Tokitaro)

Raíque também acredita que existe um desafio de aproximar a população das diferentes manifestações artísticas. Em um Estado onde o agronegócio tem grande presença econômica e cultural, ele avalia que a arte ainda não chega a todos os públicos como poderia.

“Por isso, o Inspiratório pretende funcionar também como um ponto de encontro entre artistas e comunidade, estimulando as pessoas a conhecerem, consumirem e experimentarem a produção artística”, avalia.

Entre os planos estão parcerias com escolas e oficinas gratuitas. Um dos projetos previstos pelo artista é uma oficina de esculturas aprovada pela PNAB (Política Nacional Aldir Blanc). A proposta inclui receber 3 turmas no espaço e levar outra atividade até uma aldeia indígena.

O Inspiratório - Ateliê de Arte funciona de terça-feira a sábado, das 14h às 20h. O endereço é na Rua Pedro Rigotti, 414.

Veja Mais