Artes

Há um século, Auxiliadora ajudava mulheres a conquistar uma profissão

Exposição com 48 fotografias mostra como a escola abriu caminhos para a educação e a independência feminina

Por Amanda Ferreira | 25/10/2026 07:50
Há um século, Auxiliadora ajudava mulheres a conquistar uma profissão
Apresentação de alunas do Colégio Auxiliadora diante de autoridades, entre elas Arnaldo Estêvão de Figueiredo, cuja esposa ajudou a arrecadar recursos para a fundação da escola (Foto: Acervo Arca)

Muito antes de as mulheres conquistarem mais espaço no mercado de trabalho, o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora já preparava meninas para seguir uma profissão em Campo Grande. Fundada em 1926, a instituição oferecia cursos que iam além das disciplinas escolares e ajudavam suas alunas a construir uma carreira. Agora, no ano em que completa um século, essa trajetória é resgatada em uma exposição com 48 fotografias históricas, que mostram a participação da escola na formação de gerações de mulheres.

RESUMO

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O Arca (Arquivo Histórico de Campo Grande) organizou a mostra, em parceria com o colégio, a partir de fotografias, jornais, livros e documentos preservados ao longo dos anos. São 48 reproduções fotográficas e 2 cartazes, distribuídos em painéis instalados na própria instituição. O material apresenta momentos da história da escola, desde sua fundação até atividades que marcaram a vida das estudantes.

Durante aproximadamente 60 anos, o Auxiliadora foi uma escola exclusivamente feminina, passando a receber meninos em 1986. Nesse período, tornou-se um espaço de formação para mulheres que buscavam não apenas a educação básica, mas também conhecimentos que possibilitassem o ingresso no mercado de trabalho.

Além do ensino primário e secundário, a instituição oferecia cursos de música, canto, línguas estrangeiras, costura, bordado e culinária. Também mantinha o curso comercial, que preparava as estudantes para funções administrativas, e o curso normal, voltado à formação de professoras.

Exposição do centenário do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora reúne 48 fotografias históricas que retratam a trajetória da instituição em Campo Grande (Foto: Amanda Ferreira)
O arquiteto e urbanista Bruno Silva diante da exposição que resgata a história e as transformações arquitetônicas do Colégio Auxiliadora. (Foto: Divulgação)

Para o servidor técnico da ARCA (Arquivo Histórico de Campo Grande), Davi Almeida, responsável pela apresentação da exposição, essa formação teve influência na trajetória profissional de muitas mulheres da cidade. "O Auxiliadora formou muitas mulheres para o mercado de trabalho, tornou essas mulheres aptas para exercer uma carreira, uma vida profissional", destacou.

Davi considera que essa contribuição ultrapassou os muros da escola, especialmente pela formação de professoras que posteriormente atuaram na educação de outras gerações. "O Colégio Auxiliadora, sem dúvida nenhuma, contribuiu para o que hoje nós chamamos de empoderamento feminino", afirmou.

Painéis com fotografias históricas mostram a trajetória do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora ao longo de seus 100 anos (Foto: Amanda Ferreira))

Entre as antigas estudantes mencionadas durante a apresentação está Nelly Baís, apontada como a primeira mulher a ocupar a Prefeitura de Campo Grande. Outra ex-aluna lembrada é a artista Nelly Baís Martins, sobrinha de Lídia Baís. As duas fazem parte das personalidades apresentadas como exemplos da presença feminina na história da instituição.

Um século de história – O colégio começou suas atividades em 1926, com 45 estudantes. Sete anos depois, em 1933, já reunia cerca de 400 alunas, além de contar com laboratórios e um museu de história natural. O crescimento mostra a procura pela educação feminina em uma época em que Campo Grande tinha uma população muito menor.

Prédio que abrigava o Ginásio Municipal de Campo Grande, transformado no Colégio Dom Bosco em 1930. (Foto: Acervo Arca)

A fundação foi resultado da participação de famílias da cidade, do poder público e da congregação salesiana. Entre os nomes ligados à criação da escola está o padre João Crippa, que recebeu as primeiras 4 religiosas responsáveis pelo início das atividades, em fevereiro de 1926, na antiga estação ferroviária.

A exposição também presta homenagem ao religioso, cujo nascimento completou 165 anos em outubro, e faz referência ao Dia dos Professores, celebrado no dia 15. A escolha das datas reforça a ligação do Auxiliadora com a formação de educadoras e com o desenvolvimento do ensino em Campo Grande.

Entre os registros reunidos na exposição estão imagens dos antigos desfiles cívicos realizados pelas estudantes do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. As fotografias mostram meninas uniformizadas percorrendo ruas de Campo Grande durante comemorações como o 7 de Setembro e o aniversário da cidade, em 26 de agosto. Na época, essas apresentações eram uma oportunidade de participação das alunas em eventos públicos, acompanhadas por familiares e moradores.

Alunas do Colégio Auxiliadora participam de desfile de 7 de Setembro pelas ruas de Campo Grande na R. 14 de Julho (Foto: Acervo Arca)

Durante a visita, o representante do Arca explicou que os desfiles tinham um significado diferente do atual. “Nas décadas passadas, os desfiles cívicos eram os momentos que as pessoas tinham para desfilar, para ter alguma visibilidade”, destacou. Segundo ele, as famílias acompanhavam as apresentações com orgulho, enquanto a escola mostrava à população parte das atividades desenvolvidas pelas estudantes.

Uma das fotografias, datada de 1948, registra um desfile das alunas poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Outra imagem, de 1941, mostra as estudantes acompanhadas por religiosas com os hábitos utilizados na época. Os registros permitem observar não apenas as mudanças nos uniformes, mas também a presença das mulheres em espaços públicos da cidade.

Alunas participam de apresentação no pátio do colégio, que também era utilizado para atividades esportivas e culturais (Foto: Acervo Arca)

As atividades artísticas também aparecem no acervo. Uma das imagens mostra alunas durante uma atividade de pintura, exemplo dos conhecimentos oferecidos pela instituição além das disciplinas tradicionais. Davi destacou que a escola também incentivava o aprendizado de desenho, música e canto, contribuindo para a formação cultural das estudantes.

Registro histórico mostra a fachada do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, na Rua Pedro Celestino, em 1931. (Foto: Acervo Colégio Auxiliadora)

O arquiteto e urbanista Bruno Silva Ferreira é gestor da ARCA. Ele conta que outro conjunto de fotografias apresenta a transformação do prédio do colégio. Uma das imagens mostra a construção ainda incompleta, com a parte frontal já erguida e outras dependências em obras. “Em 1931, a escola ainda não estava com o edifício atual da sede definitiva concluído, mas, nas partes das dependências que já estavam construídas, o Auxiliadora já se mudou para cá”, explicou.

Bruno chamou a atenção para os detalhes arquitetônicos que permanecem na construção. “Você vê linhas verticais, a platibanda que esconde o telhado, volumes geométricos, retangulares e também circulares”, descreveu ao apresentar uma fotografia do edifício. Segundo ele, essas características são próprias do estilo art déco, presente em construções históricas de Campo Grande.

Fotografia de alunas e familiares da Escola do Sexo Feminino mostra os primeiros passos da educação de meninas em Campo Grande (Foto: Acervo Arca)

Entre os registros religiosos, uma fotografia mostra uma procissão que passou pela região onde hoje está a Casa do Artesão, na Avenida Afonso Pena. A imagem revela uma paisagem urbana diferente da atual, com menos construções e uma cidade ainda em desenvolvimento. O acervo também reúne fotografias de imagens de Dom Bosco e Nossa Senhora Auxiliadora utilizadas nas celebrações religiosas da instituição.

Ao apresentar o conjunto de fotografias, o representante do Arca ressaltou que o colégio teve uma importância que ultrapassou a formação escolar. Durante décadas, suas alunas receberam preparação para exercer profissões, especialmente no magistério.

Fotografia de 1931 mostra estudantes reunidas no pátio do Auxiliadora, que também funcionava como internato para meninas (Foto: Acervo Colégio Auxiliadora)

“O Auxiliadora formou muitas mulheres para o mercado de trabalho, tornou essas mulheres aptas para exercer uma carreira, uma vida profissional”, afirmou.

A exposição também apresenta personagens ligados à criação e à trajetória da instituição, como o padre João Crippa e famílias que contribuíram para sua fundação. Para o Arca, preservar essas imagens é uma maneira de mostrar como a escola acompanhou o crescimento de Campo Grande e participou da formação de gerações de mulheres.

Para o Arca, a homenagem reconhece uma instituição que participou do desenvolvimento da Capital e, principalmente, da formação de mulheres em diferentes épocas. A exposição reúne registros de um tempo em que estudar e conquistar uma profissão representavam possibilidades de ampliar a participação feminina na sociedade.

Serviço: Para a comunidade campo-grandense, a entrada é gratuita. As visitas ocorrem de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30 e das 13h às 16h30, com agendamento prévio obrigatório pelo telefone/WhatsApp (67) 9 8158-0053.

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