De Dourados ao Japão, Mariana Matsui leva música brasileira ao mundo
Mariana Matsui lança primeiro álbum com participações de grandes nomes da cena artística nacional e japonesa
Aos 4 anos, Mariana Matsui já demonstrava interesse pela música em Dourados. Foi em Mato Grosso do Sul que a cantora começou a dar os primeiros passos na carreira que, anos depois, também seria conhecida do outro lado do mundo. Neste mês, a artista sul-mato-grossense lança seu primeiro álbum, pela gravadora japonesa Rambling Records, com nove faixas que unem a música brasileira às suas raízes asiáticas.
Neta de japoneses, Mariana cresceu em uma família que preservava as tradições do país asiático. A avó materna, Tetsuko, chegou ao Brasil aos 17 anos e se tornou uma presença importante na comunidade japonesa de Dourados. Vizinha da cantora durante a infância, ela também foi responsável por aproximá-la da cultura e da música do Japão.
“Eu lembro muito com muita clareza da minha infância, até a minha pré-adolescência”, conta Mariana, que viveu em Dourados até os 13 ou 14 anos. As reuniões de domingo com a família, as idas à fazenda e a convivência no Clube Nipônico estão entre as lembranças que guarda da cidade.

O interesse pelo canto surgiu ainda na primeira infância, quando sua mãe percebeu que ela gostava de cantar. Aos 8 anos, Mariana começou a fazer aulas de canto em Dourados, onde também teve contato com o balé. Mais tarde, mudou-se para São Paulo (SP) para concluir os estudos e dar continuidade à formação artística.
Embora tenha deixado Mato Grosso do Sul para seguir a carreira, ela mantém os vínculos com o Estado, onde ainda vive boa parte da família.
Duas culturas - Em 2021, Mariana se mudou para o Japão, onde viveu por alguns anos. A experiência fortaleceu sua relação com a cultura japonesa e abriu novas possibilidades para a carreira. Desde que retornou ao Brasil, a cantora mantém uma rotina de viagens ao país para apresentações e projetos musicais. “Eu adoro poder fazer essa ponte entre Brasil e Japão”, afirma.
Essa conexão também passou pela compreensão da própria identidade. Durante muito tempo, Mariana sentiu dificuldade para encontrar seu lugar entre as duas culturas. A experiência de morar no Japão ajudou a transformar essa percepção e a reconhecer a riqueza de sua formação multicultural.
“Eu demorei muito tempo para entender, para me achar. Aí eu falava: ‘Não, mas eu não me encaixo em nenhum lugar’. Eu sou eu”, diz. Essa mistura de referências se reflete no primeiro álbum da artista, que combina composições autorais e releituras em um repertório que transita pela MPB, bossa nova, jazz e soul.
Álbum reúne grandes nomes da música brasileira e japonesa - Batizado com o próprio nome, Mariana Matsui chega às plataformas digitais em 28 de outubro de 2026. O disco reúne nove faixas e participações de Marcos Valle, Lisa Ono, Jaques Morelenbaum e Takuya Kuroda. A produção é assinada por Big Rabello, com colaboração do pianista e arranjador Salomão Soares.
Entre as músicas autorais estão “Olhos Morenos”, “Abençoa”, “Somewhere” e “Lullaby”. Mariana também assina “Oxum (Tua Filha)” em parceria com Saulo Fernandes e Renato Iwai. O repertório inclui ainda releituras de “Fotografia”, de Antonio Carlos Jobim, e duas canções japonesas: “Kawa no nagare no yō ni” e “Manatsu no kajitsu”.
Um dos destaques é “Mentira”, composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle lançada em 1973, que ganha novos arranjos com a participação do próprio Marcos Valle. Outra faixa especial é “Kawa no nagare no yō ni”, clássico japonês eternizado na voz de Hibari Misora, que recebe uma versão com influências de bossa nova e jazz e participação de Lisa Ono. A música foi escolhida como primeiro single do álbum.
“É uma música que todo filho e neto de japonês conhece. Ela me remete à infância, à família, às colônias, à convivência entre avós, filhos e netos”, afirma Mariana.
O disco também guarda uma história pessoal em “Lullaby”, composta após a cantora descobrir que estava grávida do primeiro filho. Para a gravação, Jaques Morelenbaum participou de uma sessão ao vivo com Salomão Soares, registrada em um único take.
Lançamento físico e shows no Japão
Além da estreia nas plataformas digitais, o álbum terá edições em CD e vinil. O CD chega às lojas físicas japonesas em 18 de novembro, com distribuição em estabelecimentos de Tóquio. Para Mariana, o formato tem importância especial no país, onde os discos físicos continuam valorizados como parte da experiência musical.
A agenda de lançamento inclui apresentações no Japão. Em 3 de novembro, a cantora participa do Bossa Aoyama, em Tóquio, evento com apoio da Embaixada do Brasil. No dia 6, apresenta-se ao lado do artista de ikebana Ryota Hagiwara. Em 8 de novembro, integra a programação do Local Green Festival, em Yokohama. Já no dia 16, fará um show de lançamento para convidados na Soho House Tokyo.
O trabalho internacional de Mariana inclui apresentações em Lisboa, Osaka e Tóquio, além de passagens pelo Blue Note São Paulo, Billboard Live Tokyo e Blue Note Tokyo. Em setembro de 2025, ela se apresentou na Expo 2025 Osaka, no Pavilhão da França. Em 2023, lançou “REZA”, que alcançou o primeiro lugar na parada de R&B/Soul do iTunes na Holanda, e “Signs”, com participação de Shing02.
Após o lançamento no Japão, a cantora pretende apresentar o novo trabalho também no Brasil, com planos de shows em São Paulo, no interior paulista e no Rio de Janeiro. Voltar a Mato Grosso do Sul para mostrar essa nova fase ao público de sua terra natal também está entre seus desejos.
A cantora diz que não imaginava que a música a levaria tão longe. Hoje, vê na carreira a oportunidade de aproximar culturas, reencontrar suas origens e compartilhar a música brasileira com novos públicos. “Eu me sinto muito feliz de poder trazer a nossa música para cá, trazer a música para o público do Brasil e mostrar”, afirma.
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