Arquitetura

Inspirada no sul, Remi assistiu casa que tanto sonhou acabar em chamas

Imóvel de Rio brilhante virou patrimônio afetivo da população e ficou conhecido como "Casa do Papai Noel"

Por Natália Olliver | 12/09/2025 08:15
Inspirada no sul, Remi assistiu casa que tanto sonhou acabar em chamas
Em 1977 Remi Pivetta levou estilo sulista para casa em Rio Brilhante (Foto: Aqruivo pessoal)

De longe, o tom laranja e os telhados imponentes chamavam a atenção de quem passava pelas ruas Manoel Bento e Expedicionário Hugo Gonçalves. Há 25 anos, Remi Pivetta, 84 anos, e a esposa, Irma Nava Pivetta, de 82, viviam o sonho de ter uma casa inspirada nas residências do litoral catarinense. Apaixonados pela arquitetura da região, os dois trouxeram a ideia de um imóvel sulista para Rio Brilhante. O desenho foi feito pelo próprio Remi.

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Ao todo, são 508 metros quadrados em dois andares, mais quintal e área externa. Na parte de cima, dois quartos grandes, três salas e duas varandas. Embaixo, três quartos com suítes. A casa tinha sete banheiros.

Parecia um sábado normal de bocha e churrasco até que um incêndio de grandes proporções atingiu o telhado. Ao Lado B, ele conta como tudo aconteceu e o porquê de a casa ser tão especial. Hoje, a família chora por ter perdido não só grande parte do bem material, mas também as memórias que se perderam nas chamas. 

Remi e a esposa durante um almoço de família, no imóvel que recebeu nome de "Casa do Papai Noel" (Foto: Arquivo pessoal)

Nascido em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Remi passou por algumas cidades até chegar a Mato Grosso do Sul. No meio do caminho, conheceu a esposa no Paraná e juntos vieram para o interior.

“Minha esposa chora. Eu não consegui chorar ainda, mas às vezes me emociono. A casa foi feita no estilo europeu. Como viajei muito, vi uma casa bonita em Santa Catarina que era assim e isso impressionou a gente. Eu tinha uma casa velha que precisava reformar. Aí um engenheiro fez uma proposta e eu mesmo fiz o desenho.”

Não demorou para que o imóvel da família Pivetta virasse patrimônio afetivo em Rio Brilhante. O motivo Remi não sabe e confessa que não tinha ideia da importância que as pessoas atribuíam à casa.

Remi é jogador de bocha desde os 16 anos e constrói canchas ou quadras de bocha  há mais de 30 anos. Foi assim que conseguiu o dinheiro para erguer a casa em 1997. A inauguração aconteceu três anos depois. A fama começou quando ele decidiu enfeitar a casa para o Natal.

“Naquele tempo, ganhava muito dinheiro, viajava muito, fiz cancha em 14 cidades e quatro países. Enfeitei a casa com vários bonecos de Papai Noel, coloquei também em cima do telhado e as crianças apelidaram de ‘Casa do Papai Noel’. As pessoas faziam fila para ver os enfeites. A gente se impressionou com isso. Temos um gosto na vida e fizemos. Não sabia da importância dela antes do incêndio, que era ponto turístico". 

Incêndio na residência dos Pivetta aconteceu no último sábado, em Rio Brilhante (Foto: Lucas Allan)

Engajado na bocha até hoje, Remi conta que sempre recebeu amigos em casa para jogar, e não foi diferente no último sábado (6). Ele acendeu a churrasqueira e estava na quadra de bocha construída no quintal quando vizinhos avisaram sobre o incêndio. Nessa hora já era tarde. As chamas tinham consumido o telhado, e a tinta a óleo usada na fachada contribuiu para que o fogo se alastrasse.

“Eram dois pisos. A parte de baixo não queimou por causa da laje. Eu construí uma cancha e tinha um torneio, íamos assar uma carne. Fizemos fogo na churrasqueira e em cima era de madeira a parte da casa, mas nunca aconteceu nada. Então fizemos o fogo e continuamos jogando. Quando vimos, não deu pra acudir.”

Desolado, ele conta que perdeu o bem mais valioso: os poemas que escreveu e estavam no computador destruído pelo fogo. Ele é conhecido na cidade pela ligação com a cultura e o esporte. Remi escreveu o livro “A Vida em Versos” que  fala sobre a essência dele e a paixão pela bocha. 

“Me dói muito. Quando o pessoal vinha jogar bocha eu hospedava todo mundo, porque cabia umas 20 pessoas. tinhas várias camas. Perdi minhas memórias em fotografias, tinha relíquias, documentos. Moramos apenas eu e minha esposa, tínhamos duas filhas que se casaram e nós ficamos. Fiz grande porque os parentes moram longe e vinham até em micro-ônibus”.

Agora, o casal continua na parte de baixo da casa, que ainda está de pé, mas o futuro da construção é incerto. Remi ainda não sabe o que vai fazer. “Eu queria até não levantar como era, mas o pessoal está me cobrando. A gente nem achava que tinha tanto valor.”

Fachada da casa antes do incêndio deste sábado. Residência era orgulho de casal (Foto: Arquivo pessoal)

Antes de construir cancha de bocha, Remi era agricultor. Ao telefone, diz que nunca teve estudo e que a casa foi fruto de muito trabalho e dedicação.

“Eu ouvi falar que a cancha era feita e fui pesquisando, fazendo meio de qualquer jeito, e vi que era melhor de taipa e pedra. Hoje é feita de asfalto, piche, depois é feito acabamento com borracha. Eu sempre joguei bocha desde os 16 anos. Onde tem gaúcho tem bocha. Comecei a jogar na grama, na estrada. A gente via o pai e a avó jogando e foi pegando gosto.”

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