Criadas em MS, invenções esbarram no desafio de ganhar escala
IFMS contabiliza 12 pedidos de proteção de tecnologias, mas ainda enfrenta dificuldades para atrair parceiros

O que uma castanha de casca dura, um par de óculos e um tanque de peixes têm em comum? À primeira vista, absolutamente nada. Mas, nos laboratórios de Mato Grosso do Sul, esses três elementos escondem respostas para problemas que, durante muito tempo, pareceram não ter solução.
RESUMO
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No Dia do Inventor, o IFMS informa ter 12 pedidos de proteção de invenções, entre eles uma máquina para abrir baru, um sistema de piscicultura e uma armação de óculos modificável. Apenas a armação foi concedida pelo INPI; os outros 11 seguem em análise. Dois projetos já são usados pela comunidade, e os demais estão em protótipo. Segundo o instituto, a busca por parceiros e recursos para produção em escala é o principal obstáculo. Laboratórios como o IFMaker ajudam a testar as primeiras versões.
Entre máquinas improvisadas, testes que nem sempre dão certo e ideias que começam com uma pergunta, professores e estudantes descobrem que inventar não é necessariamente criar algo extraordinário. Às vezes, é apenas encontrar um jeito diferente de fazer o que ninguém havia conseguido resolver.
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Neste Dia do Inventor, celebrado nesta quarta-feira (4), o Campo Grande News foi conhecer algumas dessas criações do IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul). Por trás delas, há histórias de curiosidade, persistência e uma dificuldade que começa justamente quando a invenção funciona: fazê-la sair do laboratório e chegar a quem precisa.
Diretor de Empreendedorismo e Inovação do instituto, o professor Gilberto Astolfi explica que as necessidades da comunidade orientam parte dos trabalhos. Professores e alunos também podem propor soluções a partir de problemas que identificam nas pesquisas.
“Nada impede de um professor ter uma ideia aqui, que essa ideia possa resolver algum problema. E ele levar essa ideia, desenvolver ela. A gente faz a parte de registro dela para proteger essa propriedade intelectual”, afirma.
O passo seguinte depende de apoio para desenvolver e ampliar a produção. “E aí o professor pode buscar fomento externo, ele pode oferecer para empresas. E aí, se alguma empresa se interessar, ela pode fazer o financiamento e produzir em escala esse produto”, explica Gilberto.
Segundo o IFMS, encontrar parceiros e captar recursos para aperfeiçoar as tecnologias está entre os principais obstáculos à transferência. As demais invenções do levantamento, além das duas que já atendem à comunidade, permanecem na fase de protótipo.
Esse trabalho começa em espaços como o IFMaker, onde impressoras 3D, máquina de corte a laser e componentes eletrônicos permitem construir e testar as primeiras versões. Professor de Engenharia Mecânica e coordenador local do laboratório em Campo Grande, Leonardo Manetti explica que a estrutura serve à experimentação.
“A ideia é fazer o primeiro produto viável. Fazer esse primeiro produto. Ah, deu certo?! Agora ele vai para uma empresa realmente que fabrica isso em escala”, afirma.
Entre os exemplos está a máquina elétrica com discos e lâminas para abrir a casca dura do baru e permitir a retirada da castanha. A demanda partiu da Cooperapoms (Cooperativa de Produção e Comercialização da Rede dos Produtores Orgânicos de Mato Grosso do Sul), de Dourados, e da Apoms (Associação de Produtores Orgânicos de Mato Grosso do Sul), de Glória de Dourados, de autoria do professor Fabiano Pagliosa Branco.
Para Leonardo, projetos assim aproximam o ensino das necessidades de quem trabalha na produção. “É muito satisfatório. Quando a gente entra na carreira docente, a gente quer ensinar, a gente quer ajudar a comunidade. Então, quando vem uma demanda dessa, a gente consegue realmente ajudar e pôr em prática tudo o que o estudante aprende no curso”, diz.
A invenção também abre espaço para novos pesquisadores. Aos 17 anos, Daniel Henrique Sant’Ana Leite, Natan Ferraz Barbosa e Vitor Fernando Ramos Gomes trabalham na automação da máquina. A equipe desenvolve um alimentador para colocar os frutos no equipamento e um mecanismo para separar as cascas das amêndoas.
“A gente está desenvolvendo agora um alimentador automático, que a gente chegou à conclusão de que ele seria muito necessário para aumento da eficácia, por conta de experiências passadas que a gente fez. A gente fez as experiências com a alimentação manual, porém ela se mostrou não muito eficaz e não muito segura”, relata Daniel.
Para o estudante, acompanhar os testes e apresentar os resultados também significa reconhecer a própria participação na pesquisa.
É muito gratificante terminar as apresentações do dia, terminar os testes, conseguir fazer tudo certinho, anotar bonitinho, olhar assim o caderno de bordo preenchido, olhar o caderno de bordo com todos os nossos experimentos, todos os nossos gráficos que a gente montou juntos e saber que foi uma coisa feita por a gente”, conta.
Outro projeto já atende comunidades indígenas e assentamentos. Desenvolvido pelo professor Odair Diemer, do campus Naviraí, o sistema de piscicultura combina tanques de geomembrana, material que reveste os reservatórios, com aeração e circulação contínua da água.
Segundo Gilberto Astolfi, a aplicação busca facilitar a produção de peixes e atender às necessidades locais. Ele cita uma comunidade indígena em Ponta Porã entre os lugares que utilizam a estrutura. “É algo que não tem o objetivo de ter retorno financeiro. É mais para atender a comunidade mesmo”, afirma.
Invenções e inovação - O potencial de novas invenções também aparece em pesquisas que ainda podem resultar em pedidos de proteção. Gilberto cita o uso de drones com IA (inteligência artificial) para detectar pragas e plantas daninhas na soja, além de identificar falhas de plantio em lavouras e áreas de silvicultura.
Na educação, Leonardo relata a construção de uma estação meteorológica de baixo custo em parceria com estudantes do Clube de Ciências de uma escola municipal. O equipamento instalado na unidade acompanha chuva, temperatura e umidade, conta com sensores de gases e disponibiliza dados pela internet.
São aplicações diferentes, mas com um ponto de partida comum: uma necessidade que alguém leva ao laboratório. Na avaliação de Gilberto, é desse contato que surgem oportunidades para transformar conhecimento em soluções.
“Quando há um problema, você tem que resolver alguma coisa, é aonde que surge a ideia de desenvolver alguma coisa para resolver aquele problema”, afirma.
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