Editorial

Quem não tem influência pode confiar na mesma Justiça dos poderosos?

Caso Master expõe relações entre dinheiro e poder e amplia cobrança por reformas no STF

Por José Cândido | 19/10/2026 05:05
Quem não tem influência pode confiar na mesma Justiça dos poderosos?
Sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília: suspeitas envolvendo integrantes da Corte ampliam a cobrança por transparência, apuração rigorosa e imparcialidade. (Foto Antonio Augusto)

Um homem pobre, acusado de um crime que não cometeu, pode perder quase tudo antes de conseguir provar a própria inocência. Perde o emprego, a convivência com os filhos, a reputação. Se estiver preso, cada dia de demora representa um pedaço de vida que nenhuma absolvição conseguirá devolver.

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Imagine o que esse cidadão pensa ao acompanhar as revelações sobre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e suas conexões com diferentes esferas do poder.

De um lado, alguém que depende de conseguir atendimento, de que sua defesa seja ouvida, de que uma injustiça seja percebida a tempo. Do outro, um empresário cercado de recursos, interlocutores e acesso a pessoas capazes de abrir portas que a maioria dos brasileiros sequer sabe onde ficam.

É nessa diferença que a promessa de igualdade perante a lei começa a perder sentido.

Quem tem dinheiro pode contratar equipes para acompanhar cada movimentação do processo, apresentar recursos e cobrar decisões. Quem depende da assistência pública pode encontrar profissionais dedicados, mas sobrecarregados. Sua liberdade corre o risco de disputar atenção com uma pilha de outros casos igualmente urgentes.

O direito de defesa precisa ser assegurado a todos. A desigualdade está na capacidade de exercê-lo. Para um, a demora provoca uma reunião com advogados. Para outro, pode significar mais uma noite na cela, sem saber quando alguém voltará a olhar seu processo.

O caso Master expõe uma dimensão ainda mais inquietante desse desequilíbrio. Segundo reportagem do UOL, mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro construiu uma rede de influência em veículos de comunicação por meio de patrocínios e investimentos, com interferências em conteúdo editorial. As revelações alcançam, portanto, também espaços dos quais a sociedade espera fiscalização independente.

O cidadão comum mal consegue fazer sua versão chegar ao processo. Um homem com tamanho poder econômico dispõe de meios para tentar influenciar também a versão que chega ao público.

Quando o dinheiro abre portas em diferentes ambientes, a vantagem ultrapassa a contratação de uma boa defesa. Envolve a capacidade de mobilizar relações, obter atenção e interferir na maneira como os acontecimentos são apresentados à sociedade.

Mas o ponto mais grave está nas suspeitas que alcançam integrantes do Supremo Tribunal Federal.

A Polícia Federal prepara relatórios sobre menções a ministros nas apurações do caso Master. O presidente do STF, Edson Fachin, declarou que todos os fatos relevantes devem ser esclarecidos. Essas menções não equivalem, por si, à comprovação de corrupção. Exigem, porém, uma apuração cujo rigor possa ser demonstrado à sociedade.

Porque a pergunta que fica é devastadora: se há suspeitas sobre a imparcialidade de quem ocupa a instância máxima da Justiça, onde o cidadão deve depositar sua confiança?

Para uma pessoa humilde, essa dúvida tem consequências concretas. Ela precisa acreditar que, mesmo sem dinheiro ou conhecidos importantes, encontrará um julgador disposto a examinar os fatos. Precisa ter a segurança de que o adversário poderoso não chegará ao tribunal com vantagens que jamais aparecerão nos autos.

Quando essa segurança desaparece, até uma decisão juridicamente fundamentada passa a ser recebida com desconfiança. A suspeita sobre as relações de quem julga contamina a percepção sobre o julgamento.

O Supremo tem uma responsabilidade especial nessa crise. Sua posição exige distância de interesses privados e disposição para esclarecer suspeitas sobre os próprios integrantes. A defesa da instituição exige enfrentar condutas que possam comprometer sua credibilidade.

Não basta exigir confiança. É preciso oferecer razões para que ela exista.

Isso significa investigar sem escolher alvos pela conveniência, explicar decisões, enfrentar conflitos de interesse e responsabilizar quem tiver cometido irregularidades, com provas e direito de defesa. Significa impedir que a importância do cargo transforme uma suspeita grave em assunto que ninguém parece autorizado a esclarecer.

A independência judicial existe para permitir que um magistrado decida inclusive contra os poderosos. Ela precisa vir acompanhada de responsabilidade.

A cobrança deve chegar também aos candidatos à Presidência da República e ao Congresso. Que mudanças estão dispostos a defender para assegurar transparência, prevenir conflitos de interesse e garantir apurações independentes? O eleitor tem o direito de conhecer esses compromissos antes de entregar seu voto.

Uma reforma séria precisa enfrentar as relações de ministros com interesses privados, o recebimento de benefícios, a participação em eventos patrocinados e os critérios de impedimento para julgar. Deve avaliar a suficiência das regras existentes e assegurar mecanismos efetivos de fiscalização e responsabilização. Nenhum cargo pode oferecer proteção contra a apuração de irregularidades.

Os presidenciáveis precisam apresentar propostas claras e assumir o compromisso de debatê-las com o Congresso e a sociedade. A reforma deve preservar a independência do tribunal e estabelecer garantias verificáveis de transparência e imparcialidade. Submeter a Corte aos interesses de um governo apenas criaria outra forma de abuso.

O Brasil chega a uma situação perigosa quando o cidadão começa a acreditar que a lei pesa conforme o patrimônio de quem está diante dela. Mais perigosa ainda quando essa desconfiança alcança o tribunal que deveria oferecer a garantia final de que ninguém está acima das regras.

A quem recorrer? A resposta precisa aparecer em investigações concluídas, decisões compreensíveis e consequências para os responsáveis. Precisa chegar também ao processo esquecido, à prisão injusta, ao direito que perde sua utilidade porque o reconhecimento veio tarde demais.

Para quem está preso injustamente, a demora pode consumir anos de vida. Para quem depende de uma decisão para sobreviver, a espera pode custar tudo.

É a essas pessoas que a Justiça deve explicações. E é diante delas que o Supremo precisa demonstrar que a última porta do Judiciário não se abre conforme a riqueza, a amizade ou a influência de quem bate.

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