Editorial

O futebol precisa parar de tratar violência como parte do jogo

Dentro e fora dos estádios, a paixão pelo time precisa conviver com deveres, punições e respeito à vida

Por José Cândido | 01/11/2026 07:02
O futebol precisa parar de tratar violência como parte do jogo
Confrontos entre torcidas e agressões em campo cobram mudanças para garantir que todos voltem para casa em segurança. (Foto arquivo Campo Grande News)

Uma criança que acompanha uma partida de futebol pode assistir, em poucos minutos, a uma sequência que dificilmente seria aceita em sua escola: adultos se insultando, cercando quem deve cumprir as regras, trocando empurrões e tentando resolver divergências no grito. Nas arquibancadas, o espetáculo pode incluir ameaças, objetos arremessados e humilhações dirigidas a quem está trabalhando. Tudo diante das câmeras, frequentemente tratado como parte natural do jogo.

RESUMO

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Essa naturalização precisa ser enfrentada. O futebol é apaixonante demais para continuar servindo de desculpa à brutalidade. A camisa de um clube não concede autorização para agredir. O ingresso não compra o direito de humilhar. E um erro de arbitragem, por mais grave que seja, não transforma o árbitro em alguém sem direito à integridade física e ao respeito.

Há uma diferença evidente entre disputar uma bola e desferir um soco, entre reclamar de uma marcação e ameaçar o juiz, entre provocar o adversário e praticar discriminação. Preservar a intensidade do esporte exige reconhecer esses limites. Quando qualquer excesso recebe a explicação conveniente de que houve “cabeça quente”, a responsabilidade de quem o praticou acaba diminuída.

É preciso, porém, corrigir uma percepção: o futebol não está legalmente separado da sociedade. O cartão vermelho não é a única punição possível. O Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê sanções para agressões, cusparadas e desrespeito à arbitragem. A Lei Geral do Esporte também estabelece punições para a violência relacionada aos eventos esportivos, inclusive o impedimento de comparecer a partidas. Os instrumentos existem. A cobrança deve alcançar sua aplicação e seus resultados.

Uma agressão deliberada precisa ser examinada para além de sua consequência no placar. Havendo indícios de crime, deve haver apuração pelas autoridades competentes, com direito de defesa e responsabilização conforme as circunstâncias. A súmula e o julgamento esportivo não podem funcionar como ponto final automático para uma conduta que ultrapassou os limites da competição.

Essa exigência vale para jogadores, técnicos, dirigentes e integrantes das comissões. Quem trabalha no futebol deve assumir obrigações compatíveis com a exposição e a influência que possui. Clubes precisam adotar regras internas claras, prever consequências para agressões e oferecer formação sobre respeito, discriminação e resolução de conflitos desde as categorias de base. O talento com a bola não pode comprar tolerância com a violência.

Também cabe proteger a arbitragem sem colocá-la acima da crítica. Árbitros devem prestar contas de suas decisões, receber treinamento e ser avaliados com transparência. Mas nenhuma falha profissional justifica perseguição, intimidação ou ataque à família. Dirigentes que insinuam desonestidade sem apresentar provas precisam compreender a responsabilidade de suas palavras.

Nas arquibancadas, a obrigação é igualmente concreta. Quem arremessa objetos ou líquidos contra outra pessoa deve ser identificado, retirado e responsabilizado. Isso exige câmeras funcionando, equipes preparadas, preservação das imagens, canais acessíveis de denúncia e fiscalização das proibições de acesso. Uma punição anunciada, mas descumprida na entrada seguinte, perde sua capacidade de proteger.

O enfrentamento das torcidas organizadas envolvidas em violência demanda a mesma seriedade. Não se pode atribuir a todos os integrantes a conduta de grupos criminosos. Tampouco se pode permitir que o nome de uma associação esconda quem planeja emboscadas, transporta armas ou promove confrontos. Quando a rivalidade é usada para organizar ataques capazes de matar, a investigação precisa alcançar executores, financiadores e articuladores.

A legislação já prevê responsabilidade civil das organizadas pelos danos causados por seus membros nas situações estabelecidas em lei. É necessário cobrar o cumprimento dessas obrigações e apurar a participação de cada envolvido. Clubes também devem tornar transparentes suas relações com esses grupos e interromper benefícios que sustentem práticas violentas.

A segurança, por sua vez, precisa acompanhar o caminho do torcedor. Planejamento de transporte, monitoramento de ameaças e cooperação entre autoridades são essenciais para impedir que o confronto apenas migre do estádio para uma rodovia, um terminal ou um bairro. Restrições gerais de público não dispensam o trabalho de identificar e afastar os responsáveis.

Mais do que anunciar penas maiores depois de uma tragédia, é preciso demonstrar que as regras serão cumpridas. Federações, clubes e autoridades deveriam divulgar o andamento das providências: quantos autores foram identificados, quais punições foram aplicadas e como seu cumprimento está sendo fiscalizado. A sociedade precisa conhecer os resultados da segurança que financia.

O futebol pode continuar barulhento, intenso, imprevisível. Pode ter vaia, cobrança, provocação e rivalidade. O que precisa perder é a tolerância com quem transforma tudo isso em ameaça e agressão.

A medida mais importante do sucesso de uma partida deveria ser elementar: jogadores, árbitros, trabalhadores e torcedores voltarem para casa em segurança. Nenhuma vitória vale uma vida. E nenhuma paixão pode exigir que a sociedade aceite a violência como preço do espetáculo.

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