Menos palanque, mais soluções para os problemas urgentes de Campo Grande
CPI do tapa-buraco e debate sobre o ICMS precisam produzir resultados para quem paga impostos

Encerrada a disputa eleitoral, os problemas da cidade precisam voltar ao centro da agenda política. Em Campo Grande, basta sair de casa para perceber a urgência. Buracos comprometem ruas e avenidas, impõem prejuízos aos motoristas, ameaçam motociclistas e tornam mais difícil uma rotina que já custa caro ao cidadão.
RESUMO
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A deterioração do asfalto é a face mais visível de uma administração pressionada pela escassez de recursos e pela dificuldade de cumprir compromissos. Mas a falta de dinheiro, embora limite a capacidade de investimento, também aumenta a obrigação de aplicar bem cada real disponível. Quando o caixa aperta, desperdício e serviço malfeito se tornam ainda mais inaceitáveis.
A mobilização dos vereadores para investigar os serviços de tapa-buracos representa uma oportunidade de esclarecer por que a manutenção das ruas não entrega o resultado esperado. O pedido da CPI ganhou amplo apoio na Câmara, mas, conforme as informações divulgadas em 22 de outubro, ainda dependia de análise jurídica e da definição dos integrantes.
O compromisso precisa sobreviver à disputa pelas cadeiras da comissão. A população espera uma investigação séria, capaz de examinar contratos, preços, medições, pagamentos e a qualidade do trabalho das empreiteiras. É necessário confrontar aquilo que foi contratado com o que efetivamente chegou às ruas.
Se houver irregularidades, elas devem ser demonstradas e encaminhadas aos órgãos competentes. Se o problema estiver no planejamento, na fiscalização ou na escolha das soluções técnicas, essas falhas também precisam aparecer. O relatório deve indicar responsabilidades e medidas para impedir que o dinheiro público continue financiando reparos de pouca duração.
Transformar a CPI em palanque seria acrescentar desperdício político ao desgaste administrativo. A investigação precisa assegurar o direito de resposta, trabalhar com documentos e tornar suas conclusões compreensíveis para quem paga a conta.
Há, porém, outra frente que exige dos vereadores capacidade de articulação: a participação de Campo Grande na divisão do ICMS. O índice da Capital para 2026 é de 12,11%. Trata-se da participação na parcela do imposto distribuída aos municípios, e não de 12,11% de toda a arrecadação estadual. Esse percentual já chegou, em 2012, a 25%. A comparação merece exame documental e uma explicação pública sobre as razões dessa mudança.
A redução da participação exige atenção, mas não permite concluir, por si só, que houve retirada ilegal de recursos. O crescimento econômico de outros municípios também interfere no rateio. Essa ponderação apareceu no próprio debate e precisa integrar qualquer discussão responsável sobre o assunto.
É justamente por isso que Campo Grande precisa de um levantamento técnico consistente: conferir a evolução dos índices, examinar os dados utilizados, identificar eventuais erros e avaliar quais critérios podem ser discutidos. Também é necessário separar a perda de participação percentual da evolução dos valores efetivamente recebidos.
A Câmara pode cobrar esse trabalho da prefeitura, acompanhar seus resultados e reunir deputados, governo estadual e representantes da sociedade em torno de uma proposta fundamentada. Havendo base jurídica, cabe avaliar os instrumentos administrativos e judiciais disponíveis.
Essa defesa também não dispensa a prefeitura de prestar contas. Buscar mais receita e melhorar a gestão são obrigações simultâneas. O município precisa mostrar quanto arrecada, onde gasta, quais compromissos consegue honrar e como pretende recuperar os serviços essenciais.
Passada a eleição, vereadores e Executivo têm a oportunidade de demonstrar que conseguem trabalhar pelo mesmo interesse público, preservando a independência da fiscalização. Campo Grande precisa de contratos bem executados, contas transparentes e uma defesa competente de suas receitas.
O resultado desse esforço deve aparecer onde a população vive: na rua recuperada, no atendimento que funciona e no dinheiro público que deixa de se perder pelo caminho.