Editorial

Intervenção no Guaicurus muda a gestão, mas passageiro continua esperando

Após quatro meses, intervenção avança no diagnóstico, mas passageiros seguem sem melhorias

Por José Cândido | 30/10/2026 05:04
Intervenção no Guaicurus muda a gestão, mas passageiro continua esperando
Passageiros embarcam em ônibus de Campo Grande: após quatro meses de intervenção, usuários ainda cobram melhorias no serviço. (Foto Campo Grande News)

Para quem depende de ônibus em Campo Grande, o balanço da intervenção no Consórcio Guaicurus começa no ponto de espera. Se o veículo demora, chega lotado e continua oferecendo as mesmas condições de antes, a mudança no comando do sistema ainda não cumpriu seu principal propósito. A administração mudou de mãos, mas, conforme as reclamações dos usuários, os problemas continuam no trajeto entre a casa e o trabalho.

RESUMO

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Iniciada em 16 de junho de 2026, com prazo de até 180 dias, a intervenção municipal ultrapassou quatro meses e se aproxima do quinto sem entregar uma transformação perceptível no cotidiano dos passageiros. Houve levantamento de dívidas, análise de contratos e identificação de falhas. Falta converter esse trabalho em regularidade nas linhas, redução da superlotação e renovação da frota.

O diagnóstico tem importância. O primeiro relatório divulgado pela Prefeitura apontou cerca de R$ 20 milhões em dívidas com bancos e fornecedores, veículos envelhecidos e problemas de gestão. A equipe interventora afirmou que suas ações iniciais estavam concentradas em estabilizar a operação e preservar a continuidade do serviço. Evitar uma paralisação é necessário, mas constitui o ponto de partida de uma intervenção, não seu resultado suficiente.

Os números ajudam a dimensionar a distância entre o serviço contratado e o efetivamente oferecido. O relatório dos primeiros 90 dias registrou mais de 21 mil autuações entre 2021 e 2025 e apontou que, no último ano desse período, apenas 74,5% das viagens programadas foram realizadas. As empresas contestam a condução da intervenção e sustentam que a crise também envolve desequilíbrio econômico-financeiro do contrato. As responsabilidades precisam ser apuradas, mas a discussão entre os envolvidos não pode suspender o direito do passageiro a um transporte adequado.

Esse histórico também impõe uma cobrança à Prefeitura. Se os descumprimentos se acumularam durante anos, cabe explicar por que a fiscalização e as medidas adotadas não foram suficientes para corrigir o serviço. A responsabilidade municipal não começou quando os interventores entraram nas garagens. Ela já existia no dever de acompanhar a concessão e exigir o cumprimento das obrigações.

Agora, com a gestão temporária sob seu comando, a administração precisa apresentar resultados verificáveis. Quantas viagens deixaram de ser suprimidas? Quais linhas tiveram os intervalos reduzidos? Quantos veículos retornaram à circulação após manutenção? Qual é o calendário de substituição dos ônibus mais antigos? Essas informações devem integrar uma prestação de contas pública, compreensível e frequente.

A insegurança dos trabalhadores reforça a necessidade de respostas. Em outubro, a proposta de transferir para janeiro o pagamento de uma parcela da participação nos lucros provocou preocupação com o recebimento do 13º salário. O interventor classificou o adiamento como uma proposta normal de negociação. O receio da categoria não comprova que haverá atraso salarial, mas mostra que a confiança na recuperação financeira permanece frágil.

Também não basta depositar a solução na venda das empresas. A negociação com o grupo ligado à HP Mobilidade enfrenta novos questionamentos no Cade, após a aprovação inicial pela Superintendência-Geral, e a transferência depende da autorização municipal. Qualquer mudança de controle precisa estar acompanhada de compromissos claros de investimento, prazos e fiscalização. Trocar os responsáveis pela operação só terá valor público se melhorar o atendimento.

A complexidade financeira do transporte coletivo exige trabalho técnico e decisões responsáveis. Ainda assim, não pode se transformar em justificativa permanente para adiar melhorias. A população precisa conhecer o plano de recuperação, as fontes de recursos e as metas que deverão ser cumpridas até o encerramento da intervenção.

O passageiro já conhecia a crise antes dos relatórios: enfrentava seus efeitos todos os dias. Depois de mais de quatro meses, espera que o poder público demonstre capacidade de resolvê-la. O balanço decisivo da intervenção será feito na rua, pelo ônibus que chega no horário e oferece condições dignas de viagem.

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