Economia

Saída da pobreza esbarra na falta de rede de apoio para cuidar dos filhos

Doméstica quer se qualificar profissionalmente, porém depende de uma rede de apoio

Por Duda Schindler e Fernanda Palheta | 08/09/2026 10:00
Saída da pobreza esbarra na falta de rede de apoio para cuidar dos filhos
Valquiria Lino Costa é mão solo de duas meninas, de 10 e 4 anos. (Foto: Osmar Veiga)

Quando os R$ 450 do Mais Social caem na conta, por volta dos dias 21 e 22, o salário de Valquiria Lino Costa, de 41 anos, geralmente já está no fim. Empregada com carteira assinada como doméstica e responsável pelas duas filhas, de 10 e 4 anos, ela usa o benefício principalmente para alimentação, roupas e medicamentos.

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O auxílio dá fôlego ao orçamento, mas ainda não resolve uma dificuldade que pode impedir Valquiria de avançar profissionalmente: quem ficará com as meninas caso ela volte a estudar.

“Quando você acha que vai sair do sufoco, acontece alguma coisa e você volta de novo”, resume.

Valquiria concluiu o ensino médio e gostaria de continuar os estudos com um curso ligado à moda, área pela qual se interessa desde a adolescência. O problema é que as aulas são, em geral, oferecidas à noite, e ela precisaria pagar alguém para cuidar das filhas.

A preocupação tende a aumentar no próximo ano, quando a mais nova deixar a creche em período integral e passar a frequentar a escola.

“Eu vou precisar de alguém para olhar elas no restante do dia, porque eu não trabalho só meio período. E não é barato uma babá ou uma pessoa que vai pegar da escola, trazer e dar almoço”, afirma.

Beneficiária do Mais Social há cerca de cinco anos, ela diz que pretende deixar o programa quando conseguir melhorar a condição financeira da família. Até lá, o dinheiro continua funcionando como complemento da renda.

“Me ajuda muito em relação a manter a casa. É alimentação, vestuário, medicação”, conta.

A experiência de Valquiria ajuda a mostrar tanto o alcance quanto os limites de uma das propostas defendidas pelo Governo de Mato Grosso do Sul para os programas de assistência social: fazer com que o auxílio funcione como uma ponte até a autonomia financeira.

Patrícia Cozzolino, secretaria da Sead-MS. (Foto: Paulo Francis)

Erradicar a pobreza 

A proposta do Governo de Mato Grosso do Sul vai além da transferência de renda. Por meio do programa Sem Deixar Ninguém para Trás, a Sead-MS (Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos) reúne benefícios, qualificação profissional, educação e outras ações voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade, com a meta de criar condições para que elas deixem gradualmente a dependência dos auxílios.

A secretária Patrícia Elias Cozzolino de Oliveira afirma que mudanças nas regras foram feitas justamente para evitar que o acesso ao emprego provoque a perda imediata do benefício. Atualmente, segundo ela, quem consegue trabalho com carteira assinada pode continuar recebendo o Mais Social, desde que a renda familiar per capita permaneça em até meio salário mínimo.

A política também prevê complementos para mulheres atendidas pelo programa. Conforme Patrícia, mães chefes de família que retornam aos estudos podem receber R$ 300 adicionais. Também há previsão de R$ 600 por filho para o custeio de creche privada, desde que a família atenda aos critérios estabelecidos.

O caso de Valquiria mostra que ter renda e receber o benefício não significa necessariamente encontrar condições para avançar profissionalmente. Mesmo querendo voltar a estudar, ela ainda esbarra na falta de uma rede de apoio para cuidar das filhas.

Para receber o auxílio-creche, a mulher precisa estar empregada ou contribuir com a Previdência como autônoma, além de comprovar a contratação de uma instituição regularizada.

Valquiria questiona justamente o suporte disponível depois que a criança deixa a creche em período integral.

“Eu acho que falta aquele olhar um pouquinho mais minucioso para a gente, para as mulheres chefes de famílias, e não precisa ser necessariamente financeiramente”, diz.

Segundo Patrícia, cerca de 95% dos beneficiários do Mais Social são mulheres. A secretaria também afirma que a estratégia adotada nos últimos anos busca localizar famílias em situação de pobreza que estavam fora dos cadastros tradicionais.

A partir de 2023, conforme a pasta, equipes visitaram mais de 26 mil endereços nos 79 municípios de Mato Grosso do Sul após o cruzamento de diferentes bases de dados.

Patrícia afirma ainda que 44 mil famílias deixaram a situação de insegurança alimentar. Segundo ela, o número tem como base dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Na casa de Valquiria, os efeitos do programa são sentidos mês a mês. O benefício cobre parte das despesas básicas, mas o próximo passo, voltar a estudar para buscar uma renda maior, ainda depende de encontrar uma solução para o cuidado das filhas.

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