Economia

Fora das autoescolas, número de instrutores autônomos mais que dobra em MS

Norma de março deste ano permite que o aluno contrate esses profissionais diretamente

Por Cassia Modena | 05/08/2026 06:24
Fora das autoescolas, número de instrutores autônomos mais que dobra em MS
Autônoma desde abril, a instrutora Cleu entra no veículo que mandou adaptar para dar aula (Foto: Osmar Veiga)

Mato Grosso do Sul tem atualmente 74 instrutores de trânsito autônomos ensinando alunos a dirigir e pilotar sem vínculo com autoescola. Segundo dados do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), o número era de 34 há cerca de dois meses, o que significa que mais do que dobrou em pouco tempo.

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Os relatos dos independentes são de “otimismo” com esse novo mercado, aberto desde março deste ano. Naquele mês, as autoescolas perderam a exclusividade de oferecer aulas de direção que contam como obrigatórias para tirar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação), por decisão do Contran (Conselho Nacional de Trânsito). A medida acompanha uma série de mudanças que pretendem facilitar o acesso à primeira habilitação.

“Eu vejo esses profissionais bastante otimistas no mercado de trabalho. Eles comentam que estão se surpreendendo com a procura de candidatos à habilitação”, afirma Noemia Rodrigues, gerente de Controle de Credenciamento de Habilitação e Condutores, setor que também é responsável pelo credenciamento de instrutores. 

Carro adaptado para o ensino, com duplo comando (Foto: Osmar Veiga)

A flexibilidade no trabalho e a possibilidade de negociar diretamente com o aluno são as vantagens que eles mais destacam. “Estão sentindo mais liberdade para trabalhar dentro dos horários que eles escolhem, têm mais contato com os candidatos. O que eu ouço é que estão buscando isso mesmo”, continua a gerente. 

Para aqueles que não querem largar o contrato pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), é permitido ser instrutor de autoescola e instrutor independente ao mesmo tempo. Noemia explica que as taxas são únicas para exercer a profissão das duas formas, o que vai mudar é a necessidade de fazer vistoria a cada seis meses no veículo próprio ou locado para o ensino como autônomo. 

Impulso - Instrutor autônomo em Bonito desde o fim de março, Mario Augusto de Souza, 45, dá aulas de carro desde 1999. Também trabalhou em autoescolas de Guia Lopes da Laguna, Jardim e Bela Vista. Parou em 2022. 

“Desanimei e comecei a atender só de forma particular quem precisava de aulas extras e quem já era habilitado, mas tinha medo de pegar o carro”, conta. Ele também passou num concurso público e abriu uma empresa de higienização de estofados no período. Dava para conciliar.

De Bonito, Gutão se frustrou com tentativa de locação de carro e comprou o próprio (Foto: Arquivo pessoal)

Este ano, ele tentou alugar o carro de uma autoescola para ensinar a sobrinha a dirigir após duas reprovações na prova prática. A negativa recebida virou um impulso.

 “Tenho até que agradecer, porque eles negaram e aí fui atrás de comprar o meu próprio para ajudar a minha sobrinha e começar a trabalhar como autônomo. Mandei caracterizar, colocar placa especial e adaptar com os comandos no lado do passageiro, tudo o que pede o Detran”, comentou. 

O veículo que ele comprou é do modelo Fiat/Mobi. As mudanças necessárias no carro ficaram em torno de R$ 4,8 mil. 

Mario, conhecido como “Gutão” em Bonito, fala que o investimento está dando um ótimo retorno. A agenda está lotada e alunos estão reservando horários com ele antes mesmo de chegarem à etapa em que podem fazer as aulas práticas.

Ele afirma que ganhou a liberdade de escolher os horários e ter mais folgas, mas até trabalha no domingo, quando é vantajoso. "Tem gente que só vem para a cidade nesse dia. Eu atendo, mas cobro o dobro", relata. 

O maior ganho, para ele, está sendo o financeiro. “Nós, instrutores, nunca tivemos preguiça de trabalhar. A gente não gosta de ganhar pouco. É uma área pouco valorizada”, desabafa. 

Na Capital - Cleuma Silva Alegre, 45 anos, começou a investir no carro que usaria para dar aula em abril deste ano. Em maio, já estava trabalhando em Campo Grande, que concentra a maioria dos instrutores autônomos já credenciados. 

Chamada de Cleu pelos alunos, ela chegou a ser diretora de ensino de uma escola no interior do Estado e a dar aulas teóricas. Conheceu todas as funções desde que começou a trabalhar no ramo, em 2014. Decidiu mudar-se para Campo Grande após a pandemia de covid-19, que deixou as coisas mais difíceis para o setor.

Cleu estaciona no ponto de encontro com alunos onde geralmente as aulas começam (Foto: Osmar Veiga)

Insatisfeita com o salário como funcionária, ela decidiu pagar para adaptar o carro próprio, um Fiat/Cronos. “Vi a oportunidade de trabalhar para mim mesma, ser dona do meu negócio e me desenvolver”, falou.

Com as novas regras do processo de habilitação, ela avalia que há mais candidatos. Assim, a procura aumentou e abriu espaço para os autônomos entrarem no mercado que as autoescolas ainda dominam em Mato Grosso do Sul. 

Para ela, a troca também foi mais vantajosa. Para os alunos, agora há mais opções, na visão dela. "Consigo oferecer um horário noturno de aula para aqueles que trabalham o dia todo", diz. 

Como trabalhar na área?

Noemia Rodrigues explica que o primeiro passo para quem quer ser um instrutor autônomo é saber se atende aos seguintes critérios:

  • Ter mais de 21 anos;
  • Ter Ensino Médio completo;
  • Estar habilitado há pelo menos dois anos;
  • Não responder a processo de cassação ou suspensão da CNH;
  • Não ter cometido infração gravíssima nos últimos 60 dias;
  • Apresentar certidão negativa de antecedentes criminais do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), Polícia Civil e PF (Polícia Federal);
  • Ter concluído o curso de Formação de Instrutores de Trânsito. 

Os documentos necessários para credenciamento, os mesmos exigidos para trabalhar como instrutor de autoescola, são: 

Eles podem ser entregues pessoalmente no bloco 5 da sede do Detran em Campo Grande e em agências de trânsito, no caso do interior. Não é preciso agendar. Outra opção é enviá-los por e-mail para disup@detran.ms.gov.br.

Instrutora da Capital mostra a credencial, que precisa renovar a cada ano (Foto: Osmar Veiga)

O primeiro registro terá a cobrança da taxa de R$ 193,36. Quem já é instrutor em autoescola não precisará fazer novo credenciamento nem pagar novamente a taxa de primeiro registro. Nesse caso, a exigência é emitir a credencial de instrutor autônomo junto ao Detran, que hoje custa R$ 56,57. O valor do primeiro registro foi informado com base na tabela de julho, enquanto o da credencial já considera a atualização de agosto. 

Instrutores autônomos só podem atuar nas categorias A (motocicleta) e B (veículo de passeio). Quanto ao carro utilizado, ele pode ser manual ou automático, e não precisa ser próprio. Se for locado, é registrado como "veículo eventual". A vistoria não é dispensada em nenhuma situação. Até julho deste ano, o valor cobrado pela avaliação era de R$ 235,74. Segundo a gerente, é uma taxa anual que cobre duas vistorias, realizadas com intervalo de seis meses. 

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