Economia

Empreendedores de MS revelam "preço" de ser dono do próprio negócio

Com mais de 62 mil empresas abertas em 2026, relatos contam os sacrifícios por trás do sonho de empreender

Por Izabela Cavalcanti | 01/11/2026 10:52
Empreendedores de MS revelam "preço" de ser dono do próprio negócio
Consumidor efetuando pagamento em loja do comércio central de Campo Grande (Foto: Osmar Veiga)

Ficar sem gás em casa, catar lenha para esquentar água e procurar alimentos na rua fizeram parte da rotina de Flaviany Fleita, de 38 anos, quando decidiu apostar no próprio negócio em Campo Grande. Ao lado do marido, ela trocou a segurança da carteira assinada pela incerteza de empreender. Hoje, depois de enfrentar dificuldades financeiras, fechar uma loja durante a pandemia e recomeçar, mantém a Mercearia Portuguesa na Avenida Mato Grosso.

RESUMO

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A trajetória de Flaviany Fleita, de 38 anos, é uma das histórias de quem decidiu abandonar o emprego formal para construir uma fonte de renda própria. Em Três Lagoas, Jullyanna Fernandez também deixou para trás anos de trabalho na área de Enfermagem para investir na distribuição de café. Em comum, as duas enfrentaram o medo de perder a renda fixa e os desafios de manter um negócio funcionando.

De janeiro a outubro deste ano, Mato Grosso do Sul registrou a abertura de 62.914 empresas nas categorias MEI (Microempreendedor Individual) e ME (Microempresa), conforme dados da Receita Federal divulgados pelo Sebrae. Foram 51.486 MEIs e 11.428 microempresas. Os números mostram a movimentação do empreendedorismo no Estado, embora não indiquem quantos desses novos empresários deixaram empregos com carteira assinada.

A experiência de Flaviany no empreendedorismo começou antes mesmo de ela deixar definitivamente a carteira assinada. Após passar 6 anos em Portugal para estudar, ela retornou a Campo Grande em 2012 e começou a trabalhar com carteira assinada no ano seguinte.

Ao longo da carreira, passou por uma confeitaria, trabalhou na limpeza do Parque Jacques da Luz e voltou ao mercado formal como chefe de cozinha em um restaurante. Durante esse percurso, também fez um curso profissionalizante de cozinheira.

Paralelamente aos empregos, Flaviany produzia doces e salgados para complementar a renda.

“Entregava de bicicleta, o Vini [marido] saia na rua para vender coxinha. Sempre com um trabalho paralelo e usando os doces como fonte de renda. Sempre me identifiquei mais com essa área, tinha oportunidade de trabalhar com venda de roupas, mas eu nunca gostei disso”, disse.

O hábito de empreender, inclusive, começou antes de sua volta ao Brasil. Em Portugal, enquanto trabalhava como atendente e caixa em uma cafeteria, ela já preparava brigadeiros e bolos de cenoura para vender.

Flaviany ao lado do marido, que também é sócio na empresa Mercearia Portuguesa (Foto: Arquivo pessoal)

A mudança definitiva aconteceu em 2017, quando Flaviany e o marido perderam os empregos em Campo Grande. Com a possibilidade de se dedicar ao próprio negócio, ela também enxergou a oportunidade de acompanhar mais de perto o crescimento da filha.

“Eu não ia conseguir voltar para o CLT por causa da minha filha, eu queria estar perto dela, acompanhar o desenvolvimento. Meu marido embarcou junto comigo, foi muito difícil, um nível de dificuldade de ficar sem gás dentro de casa, de sairmos na rua para pegar tronco para esquentar água, a gente saia para catar abóbora, jaca, porque a gente só pensava em investir”, contou.

O começo foi marcado por dificuldades financeiras e pela necessidade de reinvestir o pouco dinheiro disponível. Segundo Flaviany, a iniciativa que começou em 2013 teve um investimento inicial de apenas R$ 50 para a venda dos produtos.

A primeira loja foi aberta nas Moreninhas, em Campo Grande. Com o tempo, o negócio passou por uma mudança de identidade: os doces e salgados deram espaço também a produtos inspirados na culinária portuguesa. A ideia surgiu da relação entre a própria história de Flaviany e a da filha, que nasceu em Portugal.

“A minha primeira filha é portuguesa e ela pedia muito para comer as coisas de lá. Eu decidi unir as coisas da minha infância com a infância da minha filha, foi quando surgiu a ideia de trazer isso para a mercearia portuguesa”.

No cardápio, a Mercearia Portuguesa passou a oferecer doces tradicionais como travesseiro de Sintra, pampilho e queijada, além das areias de Cascais. O biscoito, tradicionalmente preparado com sabores como canela e limão em Portugal, ganhou versões adaptadas aos ingredientes regionais, como baru e guavira. Em Campo Grande, os produtos são comercializados com o nome de areias do Cerrado e areias do Pantanal.

A trajetória, porém, não foi linear. Após alugar um espaço com a ajuda dos pais, a empreendedora precisou fechar a primeira loja durante a pandemia de covid-19. Ela e o marido levaram a produção para casa e continuaram vendendo.

“Alugamos um espaço com a ajuda de nossos pais. Na pandemia, a gente faliu e teve que fechar, porque não estávamos preparados emocionalmente, levamos tudo para casa e continuamos vendendo em casa”, contou.

A retomada veio com a participação em uma feira no bairro Carandá Bosque. A oportunidade permitiu que o casal voltasse a gerar receita e reconstruísse o negócio aos poucos. “Deu uma boa entrada de dinheiro e a gente foi se recuperando”.

Depois de aproximadamente 4 anos participando de feiras, Flaviany conseguiu voltar a investir em um ponto comercial. Em 2025, a Mercearia Portuguesa abriu uma nova loja na Avenida Mato Grosso, em Campo Grande. “Juntamos dinheiro da feira, conseguimos empréstimo para conseguir abrir”, comentou.

O investimento também cresceu: de aproximadamente R$ 15 mil na primeira unidade para R$ 45 mil na loja atual.

“Não é a loja dos sonhos, mas é o que a gente conseguiu agora para oferecer para os clientes. Estamos retomando com mais força, é os altos e baixos para empreendedor”, ressaltou.

Do setor de Enfermagem à distribuição de café - Em Três Lagoas, Jullyanna Fernandez também decidiu mudar de rumo profissional após anos de experiência no mercado de trabalho formal. Formada em Enfermagem, ela foi concursada e também trabalhou com carteira assinada entre 2008 e 2023.

A relação com Mato Grosso do Sul ocorreu ainda na época da faculdade, quando deixou Goiás para estudar na Universidade Federal de Três Lagoas.

Jullyanna, proprietária do Café Abelha em Três Lagoas, apresentando o produto em evento (Foto: Arquivo pessoal)

Após concluir a graduação, voltou para Goiás e começou a trabalhar formalmente em 2008. No ano seguinte, foi convocada para assumir um concurso público em um posto de saúde, onde permaneceu até 2013. Depois, retornou ao setor privado, mas a insatisfação com a rotina profissional continuou.

Durante esse período, Jullyanna também abriu o próprio consultório de enfermagem estética, mas percebeu que aquela atividade não correspondia ao que buscava. A decisão de abandonar a carreira como funcionária ganhou força quando surgiu a possibilidade de mudar de cidade por causa do trabalho.

“Eu tinha que migrar de cidade, era uma multinacional, meu serviço ia triplicar e meu salário não ia aumentar nem 1%. Eu estava insatisfeita com a carga horária, a pressão de números. Eu ia ter que ir para Rio Verde de Goiás”, contou.

A saída encontrada foi apostar em uma atividade ligada a um negócio que já fazia parte da história da família. A empresa Café Abelha tem origem em Goiás, onde atua há 43 anos com torrefação, torra e moagem de grãos. Em julho de 2024, Jullyanna decidiu levar a operação comercial para Três Lagoas, com a proposta de ampliar a distribuição de café na região.

“Eu decidi abandonar o consultório e vim e montei uma distribuidora em Três Lagoas. Eu estava decidida que eu não queria mais ser funcionária. Eu vi uma oportunidade, o mercado tinha cafés muito ruins aqui, de pouca qualidade”, pontuou.

A escolha do município foi resultado de uma observação do mercado local. Por já frequentar a região em visitas à família do ex-marido, ela identificou uma oportunidade de oferecer produtos que, na avaliação dela, tinham espaço para conquistar consumidores.

“Fiz um estudo de campo, no máximo três meses. Eu sempre visitava a família do meu ex marido, a gente sempre via que os cafés eram muito ruins, houve uma oportunidade de vir e trazer a empresa de café. Hoje eu me consolidei aqui, eu abasteço Três Lagoas, Inocência, Selvíria”, disparou.

Atualmente, Jullyanna aguarda a liberação da prefeitura para construir uma torrefação própria em Três Lagoas, etapa que poderá ampliar a estrutura do negócio na cidade.

Apesar do vínculo familiar com o setor, empreender em um novo município trouxe desafios. Um dos mais difíceis foi lidar com a insegurança de trocar uma renda fixa pela instabilidade dos primeiros meses de uma empresa.

“Foi muito desafiador, tive muito medo de largar o seguro pelo incerto. Quando eu trouxe a empresa, em outubro teve a crise do café, que o preço disparou. Eu aprendi que dinheiro é energia, quanto mais você corre atrás, mais você consegue. Me descobri uma vendedora nata, não sabia desse potencial, não me arrependo, estou muito satisfeita, tenho tempo para cuidar de mim, tempo para as crianças”, disse contente.


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