Economia

Com Shein sem taxas, lojistas voltam ao “comércio no gogó” e promoções no Centro

Vendedores apostam em proximidade e experiência presencial para manter vendas

Por Kamila Alcântara e Gabi Cenciarelli | 13/05/2026 12:55


RESUMO

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O fim da chamada “taxa das blusinhas” reacendeu uma preocupação antiga entre comerciantes do Centro de Campo Grande: como competir com sites internacionais que vendem barato, entregam rápido e agora também ficaram livres do imposto federal para compras de até US$ 50. 

Na manhã desta quarta-feira (13), lojas da Rua 14 de Julho já discutiam o impacto da medida e tentavam entender se o consumidor vai voltar ainda mais forte para as plataformas digitais ou se o comércio físico conseguirá manter espaço apostando em atendimento, promoções e contato direto com o público.

A mudança foi anunciada pelo Governo Federal na noite de terça, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou medida provisória zerando o imposto federal de importação para compras internacionais de até US$ 50. A cobrança de 20%, criada em 2024 e apelidada de “taxa das blusinhas”, atingia roupas, acessórios, eletrônicos e outros produtos populares vendidos em plataformas estrangeiras.

Com Shein sem taxas, lojistas voltam ao “comércio no gogó” e promoções no Centro
Placas de promoções começam a aparecer nas portas das lojas (Foto: Juliano Almeida)

Para o comerciante Luiz Bento, de 62 anos, a concorrência com a internet já faz parte da rotina do Centro há bastante tempo, mas ele acredita que a experiência presencial ainda pesa na decisão de muitos consumidores. 

Segundo ele, o cliente continua valorizando a possibilidade de pegar o produto na mão, conferir tamanho, qualidade e sair da loja com a compra pronta, sem precisar esperar entrega ou correr risco de receber algo diferente do anunciado na internet.

Bento afirma que o comércio da região precisou se reinventar nos últimos anos, principalmente após a chegada das lojas populares administradas por chineses, que, na avaliação dele, ajudaram a manter o fluxo de consumidores no Centro. 

Comerciante Luiz Bento conhece o movimento do Centro há muito tempo (Foto: Juliano Almeida)

“Se não fossem essas lojas hoje, o Centro estava acabado”, resume. Para enfrentar a concorrência digital, ele diz que comerciantes passaram a resgatar estratégias antigas de venda, como o uso de locutores na porta das lojas para chamar atenção de quem passa pela rua. “É um marketing antigo, mas funciona. A pessoa entra por causa de uma promoção e acaba levando outras coisas”, afirma.

Mesmo sem apostar nas vendas online, ele acredita que o atendimento presencial continua sendo o principal diferencial das lojas físicas, especialmente para consumidores mais velhos ou para quem busca produtos que precisam ser testados antes da compra. “O comércio físico nunca vai acabar. A pessoa quer ser atendida, quer conversar, quer ajuda”, diz.

Na loja de roupas onde trabalha na 14 de Julho, a gerente Ana Cláudia Martinez Corrêa, de 28 anos, admite que a queda do imposto aumenta a pressão sobre os comerciantes. Segundo ela, a internet já virou o primeiro lugar onde muitos consumidores pesquisam preços antes de sair de casa, o que obrigou o comércio tradicional a mudar a forma de atrair clientes.

Ela conta que a estratégia da loja passou a incluir promoções mais visíveis, montagem de kits de roupas e exposição de peças logo na entrada para tentar chamar atenção de quem circula pelo Centro.

Ana Cláudia monta kits de exposições para chamar atenção dos consumidores (Foto: Juliano Almeida)

“O pessoal passa e olha muito o que chama atenção na frente da loja. Então temos que conquistar aos poucos”, explica. Além disso, a presença nas redes sociais se tornou praticamente obrigatória. “A gente começou a postar bastante no Instagram. Hoje praticamente precisa de uma pessoa só para cuidar disso”, relata.

Para Ana Cláudia, a percepção de perda de clientes para a internet ficou mais forte desde dezembro, quando aumentou o número de consumidores dizendo que iriam pesquisar online antes de comprar. Ainda assim, ela afirma que o comércio físico tenta sobreviver apostando em proximidade e relacionamento. “Tem que conversar, fazer amizade, chamar o cliente para dentro da loja”, comenta.

Na Rede Preço Único, a vendedora Emily Gonzaga, de 24 anos, avalia que o impacto do fim da taxa varia conforme o perfil da loja. Nos estabelecimentos que trabalham com preços muito baixos conseguem enfrentar melhor a concorrência das plataformas estrangeiras, embora a disputa continue desigual por causa dos custos que existem apenas no comércio físico.

Pela manhã, Centro estava movimentado e as lojas com várias opções (Foto: Juliano Almeida)

“Quem vende pela internet tem menos despesas. Loja física paga aluguel, água, luz e imposto. Isso quebra bastante o lucro”, afirma. Para continuar competitiva, a loja investe tanto em divulgação nas redes sociais quanto em estratégias mais tradicionais para atrair movimento. “A gente faz vídeos, divulga no Instagram e ainda usa locutor na porta”, diz.

Apesar da concorrência crescente do comércio online, Emily afirma que o fluxo de consumidores na loja continua alto, principalmente entre clientes mais velhos, que ainda preferem experimentar os produtos e sair da loja com a compra pronta. “O pessoal mais antigo gosta de ver o produto pessoalmente e experimentar antes de comprar”, termina.

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