Ninguém acima da lei

Grandes resultados nascem devagar

Por André Borges | 04/08/2026 07:50

Charlie Munger, um dos maiores investidores americanos, deixou uma frase que serve para qualquer profissão: "Não é necessário fazer coisas extraordinárias para obter resultados extraordinários. Você só precisa ser um pouco melhor que a média por muito tempo." Parece simples. E justamente por isso costuma ser esquecida.

Vivemos a era da pressa. As redes sociais nos mostram apenas o resultado final: o advogado que venceu um grande processo, o jornalista que faz entrevistas importantes, o empresário bem-sucedido. Quase ninguém vê os anos de estudo, as dúvidas, os erros e o trabalho silencioso que vieram antes.

Na advocacia, ninguém começa sendo uma referência. O jovem advogado escreve suas primeiras petições com insegurança, acompanha audiências para aprender, perde algumas causas, acerta outras e, aos poucos, desenvolve técnica, equilíbrio e confiança. O reconhecimento não chega em um único processo. É construído ao longo de centenas deles.

Com o jornalismo acontece exatamente o mesmo. O bom jornalista nasce fazendo pequenas reportagens, aprendendo a ouvir, a perguntar, a conferir informações e a escrever melhor a cada dia. As grandes entrevistas e os textos memoráveis costumam ser fruto de muitos anos de prática.

É como construir uma casa. Ninguém começa pelo telhado. Primeiro vem o alicerce, depois as paredes e, somente no final, aquilo que todos enxergam. O sucesso profissional segue a mesma lógica. Quem tenta pular etapas normalmente constrói carreiras frágeis.

Existe uma ilusão perigosa de que resultados extraordinários exigem talentos extraordinários. Nem sempre. Em muitas situações, basta fazer o básico um pouco melhor do que a maioria e repetir esse comportamento durante muitos anos.

Um advogado que lê um pouco mais, prepara melhor suas sustentações orais e trata clientes com respeito acaba se diferenciando. Um jornalista que pesquisa mais, apura com cuidado e escreve com clareza também. Pequenas vantagens, repetidas diariamente, tornam-se enormes com o passar do tempo.

O curioso é que quase ninguém percebe esse crescimento enquanto ele acontece. É como plantar uma árvore. Durante muito tempo parece que nada mudou. Então, um dia, ela oferece sombra, frutos e todos dizem que cresceu rapidamente. Não cresceu. Apenas cresceu todos os dias.

Talvez a maior virtude seja a paciência. Melhorar um pouco hoje, um pouco amanhã e outro pouco depois exige disciplina. Não rende aplausos imediatos, mas produz resultados duradouros.

Charlie Munger entendia isso. O verdadeiro sucesso raramente nasce de um único momento brilhante. Ele costuma ser a soma de pequenas escolhas corretas, repetidas durante anos.

Essa é uma lição valiosa para advogados, jornalistas e para qualquer profissional que esteja começando. Grandes carreiras não são construídas por feitos espetaculares. São construídas pela constância. E, quase sempre, é a constância que separa os bons dos verdadeiramente inesquecíveis.

(*)André Borges, advogado e professor de direito constitucional.

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