Momento Saúde Bucal

Saúde bucal e doenças neurodegenerativas

Por Pedro Freitas | 20/10/2026 08:41



O Sr. Antônio, 76 anos, foi diagnosticado com Parkinson há cinco anos. A esposa, dona Lourdes, cuidadora dedicada, notava que ele estava perdendo peso, recusando comida e com um mau hálito persistente que nenhum enxaguante resolvia. Quando finalmente o trouxe ao consultório, encontrei a explicação: dificuldade de deglutir, boca seca pelos medicamentos e uma higiene bucal que se tornara quase impossível por causa dos tremores. O sr. Antônio não estava recusando comida por falta de apetite — ele estava com dor e desconforto na boca que ninguém enxergava.

Essa cena se repete em milhares de lares brasileiros. As doenças neurodegenerativas — especialmente o Alzheimer e o Parkinson — transformam profundamente a relação do paciente com a própria boca. E entender essa relação é essencial para quem cuida.

Por que a boca sofre nas doenças neurodegenerativas?

Tanto no Alzheimer quanto no Parkinson, a saúde bucal é atingida por uma combinação de fatores que se somam e se agravam mutuamente:

No Alzheimer: O declínio cognitivo faz o paciente esquecer de escovar os dentes, esquecer como se escova ou simplesmente recusar o cuidado por confusão e agitação. A capacidade de comunicar dor também diminui — o paciente pode estar com uma cárie avançada ou uma infecção sem conseguir dizer. Estudos mostram que a má higiene bucal em pacientes com demência está associada a um risco aumentado de pneumonia aspirativa, uma das principais causas de morte nessa população.

No Parkinson: Os tremores tornam a escovação manual quase impossível. A rigidez muscular afeta os movimentos da mão e da mandíbula. A disfagia (dificuldade para engolir) aumenta o risco de aspiração de alimentos e bactérias. E a hiper salivação ou, ao contrário, a boca seca causada por medicamentos, cria um ambiente bucal desequilibrado, propenso a cáries e infecções fúngicas.

A conexão boca-cérebro, novamente

Como já abordamos nesta coluna, a relação entre a boca e o cérebro é de mão dupla. A inflamação periodontal crônica pode acelerar processos neurodegenerativos — bactérias bucais como a Porphyromonas gingivalis já foram encontradas no cérebro de pacientes com Alzheimer. E, no sentido inverso, a doença neurodegenerativa compromete a capacidade de cuidar da boca, criando um ciclo vicioso: o cérebro doente piora a boca, e a boca inflamada piora o cérebro.

O papel do cuidador é decisivo

Quando o paciente não consegue mais cuidar da própria boca, a higiene bucal se torna responsabilidade do cuidador. E aqui vale um alerta importante: essa tarefa não é opcional nem secundária. A boca de um paciente com Alzheimer ou Parkinson precisa de atenção diária, adaptada à condição de cada um.

3 Orientações Práticas para Cuidadores:

  1. Adapte a técnica à condição do paciente: Para quem tem tremores, use escovas de cabo engrossado ou adaptadores que facilitem a pegada. Para quem tem dificuldade de abrir a boca, use escovas menores ou dedeiras de gaze. O importante é que a limpeza aconteça, mesmo que de forma diferente da tradicional.
  2. Crie uma rotina previsível: Pacientes com demência respondem bem à rotina. Estabeleça horários fixos para a higiene bucal, no mesmo local, com os mesmos objetos. Use comandos simples e demonstrações — mostre como escovar antes de pedir que ele faça.
  3. Observe a boca como parte do cuidado diário: Verifique diariamente se há feridas, sangramentos, acúmulo de alimentos ou mau hálito. Em pacientes que não conseguem comunicar dor, a boca é um dos primeiros lugares onde o sofrimento se esconde. Qualquer alteração deve ser levada ao odontogeriatra.

Cuidar da boca de quem tem Alzheimer ou Parkinson é cuidar da dignidade de quem já não consegue cuidar de si. É também proteger o corpo — e o cérebro — de infecções que aceleram a doença. Porque até na neurodegeneração, o sorriso cuidado continua sendo vida que dura.

(*) Dr. Marco Polo Siebra Odontólogo (CRO/MS 2172), Especialista em Prótese Dentária, Odontogeriatria, Implantodontia e Neurociência.

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