Facção “comprava” policiais para eliminar rivais e ocultar provas
Investigação aponta participação de agentes de MS e MT em ataques, vazamentos e proteção a traficantes

Três policiais civis e um militar de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal aposentado de Mato Grosso são investigados por receber dinheiro e bens para fornecer informações sigilosas a uma organização criminosa envolvida com tráfico internacional de drogas e armas. Segundo apuração, os agentes ajudavam a localizar rivais do grupo, monitoravam veículos e celulares e repassavam dados utilizados para planejar ataques, incêndios e até homicídios.
RESUMO
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A Polícia Federal deflagrou a Operação Ifrit e investiga três policiais civis, um militar de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal aposentado por venderem informações sigilosas a uma organização criminosa ligada ao tráfico de drogas e armas. Entre os presos estão o investigador Douglas Tobias e o delegado Hoffman D'Ávila, suspeito de receber R$ 15 milhões e desviar 2 toneladas de cocaína. O grupo teria movimentado R$ 500 milhões. Foram expedidos 76 mandados de busca e 26 de prisão.
O investigador Douglas Tobias, também implicado na Operação Infiltrados, é um dos agentes citados no contexto da Operação Ifrit, deflagrada nesta quarta-feira (4) pela Polícia Federal e Receita Federal, com cumprimento de mandados em sete estados.
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Os outros dois policiais civis são o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa e o investigador especial Andrey Elesbão Silva. Tobias teve a prisão preventiva no âmbito da Operação Infiltrados revogada ontem e hoje foi alvo de outra cautelar.
Ele foi preso em sua casa no Condomínio Alphaville, em Campo Grande, de onde os policiais levaram um Ford Mustang Shelby GT500 avaliado em R$ 370 mil (veja o vídeo abaixo). Andrey também foi preso hoje. O nome do policial militar implicado no caso não foi revelado.
De acordo com a investigação, os policiais não se limitavam a vender informações. Eles também atuavam para afastar adversários da organização criminosa, inclusive por meio de prisões, o que ajudava o grupo a ampliar seu domínio sobre territórios e atividades ilegais.
Os agentes ainda são suspeitos de avisar os criminosos sobre operações policiais, dificultar investigações e eliminar provas que poderiam comprometer integrantes da organização. A estrutura de proteção incluía a liberação irregular de veículos apreendidos e drogas que, segundo a PF, voltavam ao mercado ilegal sob controle do próprio grupo.
As informações obtidas pelos policiais também eram utilizadas para identificar a localização e os deslocamentos de rivais. Com esses dados, a organização planejava ações de intimidação, ataques a tiros contra imóveis e execuções. A investigação aponta que a participação dos servidores públicos era uma das ferramentas utilizadas para manter o controle territorial, especialmente na faixa de fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa comandou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) e a Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros). Ele já estava preso e hoje foi alvo de outro mandado de prisão preventiva.
Conforme apuração da reportagem, o delegado mantinha uma relação estável com a cúpula criminosa e permitia o acesso de traficantes ao depósito de drogas da Denar. A investigação aponta que aproximadamente 2 toneladas de cocaína foram desviadas e comercializadas por valores entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil o quilo.
A suspeita é de que Hoffman tenha recebido pelo menos R$ 15 milhões, além de veículos, uma mansão no condomínio Alphaville, em Campo Grande, e um sítio em Pirenópolis (GO), em cerca de dois anos.
Para esconder os desvios, os criminosos substituíam a cocaína apreendida por uma mistura de baixa pureza, preparada com produtos como maisena e fermento. O material adulterado permanecia no depósito até ser encaminhado para destruição, enquanto a droga original voltava ao tráfico.
Ligação com a Operação Infiltrados
Douglas Tobias e Hoffman já haviam sido alvos da Operação Infiltrados, deflagrada em setembro pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A investigação apura o desvio de drogas apreendidas por policiais e a posterior comercialização dos produtos no mercado ilegal.
Douglas estava lotado no GOI (Grupo de Operações e Investigações) e foi afastado das funções pela Corregedoria da Polícia Civil.
O investigador também aparece nas apurações sobre uma apreensão de cocaína em Bela Vista, em maio de 2024. Na ocasião, segundo o Gaeco, aproximadamente 400 quilos da droga teriam sido desviados antes do registro oficial da ocorrência.
Operação Ifrit
A ofensiva desta quarta-feira mobilizou 500 policiais federais e 44 servidores da Receita Federal para cumprir 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária. Também foram determinadas medidas de monitoramento eletrônico e afastamento das funções de três policiais civis de Mato Grosso do Sul.
A Justiça Federal determinou ainda o compartilhamento de provas com o Ministério Público e as corregedorias das instituições policiais envolvidas, para apuração das responsabilidades dos servidores.
A organização criminosa investigada é comandada, segundo a PF, por um núcleo familiar formado por três irmãos e outros parentes, com atuação principalmente em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina e vínculos com o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense).
Entre os 3 irmãos com descendência árabe acusados de liderar a organização está Adel Hassan Haidar, preso hoje em um condomínio de luxo em Ponta Porã.
Em dois anos, o grupo teria movimentado mais de R$ 500 milhões por meio do tráfico de drogas e armas, empresas de fachada e operações financeiras destinadas a esconder a origem do dinheiro.
A Justiça também determinou medidas de apreensão sobre cerca de 160 imóveis e mais de 150 veículos, além de bloqueios bancários de até R$ 300 milhões.
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