Comerciantes denunciam boicote político e clima de perseguição em MS
Listas com nomes de empresas circulam nas redes sociais e provocam reações contra a intolerância
RESUMO
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Edson Vargas Benites, de 52 anos, dono de uma loja de venda e reparo de bicicletas em Jardim, levou um susto quando recebeu uma mensagem pelo WhatsApp com o nome de sua empresa no topo de uma lista que apontava petistas e comunistas que deveriam ser boicotados. Morador da cidade desde a infância, ele publicou um vídeo em rede social e contou à reportagem que votou em Augusto Cury (Avante) no primeiro turno das eleições justamente para fugir da polarização política, mas acabou sendo arrastado para ela ao ter o nome incluído na lista.
Benites gravou um longo vídeo, em tom pacificador, que teve grande repercussão nas redes sociais. “Vivemos em uma sociedade que é uma engrenagem, um precisa do outro”, afirma em um trecho da gravação, ao defender que essa relação deve se basear no respeito mútuo. Ele também diz que continuará frequentando e comprando em estabelecimentos de bolsonaristas, a menos que seja impedido, o que acredita que não acontecerá.
Sobre o responsável pela lista, Benites afirma que não age como uma pessoa humana, mas que pode mudar essa postura. Segundo ele, quem se dedica a esse tipo de iniciativa demonstra o perfil de uma pessoa derrotada, que incita o ódio por ter tempo de sobra. “Você que fez isso aí, para e pensa”, conclui.
O comerciante contou que mantém a loja há seis anos. Bastante conhecido na cidade, recebeu muitas manifestações de apoio. Ele afirma ter boa relação tanto com apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto com eleitores de Flávio Bolsonaro (PPL). Benites já foi candidato a vereador e, durante a campanha, apoiou publicamente candidatos ao Legislativo aliados ao grupo político de Flávio. Segundo ele, poucas pessoas defenderam o discurso de ódio nas redes sociais. A lista reúne cerca de 20 nomes.
Ainda no vídeo, o comerciante pede que o responsável pelo boicote reflita sobre suas atitudes e considere que a democracia pressupõe respeito ao próximo.
Também em Jardim, o proprietário de uma espetaria publicou uma manifestação de repúdio à lista que sugere o boicote. Ele afirma que o estabelecimento sempre foi apartidário e atua há mais de 20 anos. “Não compactuamos com a polarização que divide brasileiros. Nosso único partido é o trabalho, nosso único lado é o cliente.”
O empresário rejeita o uso do nome de sua empresa para provocar discórdia e alerta que a exposição pode prejudicar seu sustento e o de seus funcionários.
A proprietária de um estabelecimento em uma cidade vizinha também se manifestou nas redes sociais. Ela pediu que as pessoas ignorem a lista que associa seu comércio a uma posição política e afirmou não ter vínculo, posicionamento ou preferência por qualquer grupo político. A publicação ressalta que o objetivo do estabelecimento é atender a todos, “independentemente de qualquer posicionamento político”.
Na região norte do Estado, uma mototaxista também divulgou um vídeo em que demonstrou surpresa ao descobrir seu nome em uma lista. Ela afirmou que não se envolveu com política e não compreendeu o motivo da exposição. A profissional explicou que trabalha com entregas e transporte de passageiros. “Vocês têm que aprender a respeitar.”
A mototaxista contou que recebeu uma captura de tela com seu nome e o de várias outras pessoas, incluindo empresários conhecidos da cidade.
O clima de perseguição se estende a outros locais. A reportagem recebeu diferentes relatos, entre eles o de uma mulher que frequenta uma clínica de fisioterapia e afirmou ter presenciado uma profissional de saúde incentivando pacientes a manifestar rejeição e criticar eleitores petistas.
Uma professora também relatou que passou a enfrentar um ambiente hostil na escola particular onde trabalha. Segundo ela, os apoiadores de Flávio Bolsonaro não enfrentam oposição, enquanto aqueles que declararam voto em Lula convivem com “desconforto e receio de perseguição política”.
Nas relações de trabalho, situações dessa natureza podem configurar assédio eleitoral, dependendo das circunstâncias. O MPT (Ministério Público do Trabalho) promoveu uma campanha sobre o tema durante o período eleitoral e mantém um canal para receber denúncias.
A eleição de 2022, igualmente marcada pela polarização, também registrou um clima de hostilidade nos dias seguintes ao fim da votação, com manifestações nas redes sociais e repercussões nas ruas.