Interior

Atirador que matou indígena é paraguaio e estava com pistoleiros, diz comunidade

Valdecir Alonso Brites foi identificado por uma das vítimas dos disparos e Sejusp o trata como guarani

Por Clara Farias | 18/11/2025 18:24
Valdecir Alonso Brites, de 45 anos, preso pelo assassinato de Vicente Fernandes Vilhalva durante o conflito na área de retomada Pyelito Kue, não é reconhecido como indígena e estaria atuando ao lado dos pistoleiros, conforme relato da comunidade local. O confronto ocorreu no último domingo (16), em Iguatemi, a cerca de 400 quilômetros de Campo Grande e também resultou na morte do vigilante Lucas Fernando da Silva.

De acordo com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), a comunidade Pyelito Kue encaminhou uma carta à Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) afirmando que Valdecir, que é de nacionalidade paraguaia, morou na área por dois anos, pois é casado com uma mulher indígena da comunidade, mas se mudou e hoje vive a 45 quilômetros da comunidade. “O Valdecir estava junto com os pistoleiros”, diz um trecho do documento.

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Ele foi identificado como autor dos disparos pelo indígena Eliéber Riquelme Ramires, que também ficou ferido durante o ataque. Um adolescente indígena, de 14 anos, foi atingido no braço. Em nota divulgada pela Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública) de Mato Grosso do Sul, nesta segunda-feira (17), Valdecir era tratado como indígena e teria matado um dos "seus".

Ainda conforme o Cimi, os indígenas da comunidade Pyelito Kue pedem que a PF (Polícia Federal) investigue se Valdecir não foi cooptado por fazendeiros para participar da ação.

A outra vítima, Lucas Fernando da Silva, morreu após ser atropelado por um trator que derrubava barracos no local, conforme apurado pela reportagem.

Atirador que matou indígena é paraguaio e estava com pistoleiros, diz comunidade
Munições encontradas após ataque na retomada Pyelito Kuê (Foto: Reprodução)

Ao Campo Grande News, o advogado de Valdecir, Paulo Donati, afirmou que o acusado negou participação no crime durante a audiência de custódia. “Falou que em nenhum momento esteve na área de retomada”, disse. Segundo o advogado, a prisão ocorreu por volta das 11h de ontem (17), e nenhuma arma ou munição foi encontrada com ele. A Justiça decretou a prisão preventiva.

Uma equipe do Ministério dos Povos Indígenas e da Funai está em Mato Grosso do Sul para acompanhar o caso. A comitiva desembarcou em Campo Grande na noite de segunda-feira (17) e seguiu para Iguatemi. Na manhã de hoje, integrantes visitaram a Polícia Civil.

O caso - Indígenas da etnia Guarani Kaiowá denunciaram, no domingo (16), um ataque à área de retomada na Fazenda Cachoeira, em Iguatemi. Segundo a comunidade, cerca de 20 homens armados atacaram a comunidade. Durante o conflito, o indígena Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, foi atingido com um tiro na cabeça.

Conforme o Cimi, os atiradores tentaram recolher o corpo da vítima para levar, mas foram impedidos pelos indígenas.

Após os ataques, os ruralistas tentaram demolir os barracos montados pela comunidade com tratores, momento em que o vigilante da Fazenda Cachoeira foi atropelado pelo maquinário. O vigilante estava há uma semana em Mato Grosso do Sul e, segundo familiares, foi contratado para proteger os trabalhadores da fazenda.

Nesta segunda-feira (17), a Justiça Federal proibiu a atuação das forças policiais do Estado na área de retomada de Iguatemi.

A área em disputa integra parte da Terra Indígena Iguatemipeguá, cuja identificação e delimitação já constam em relatório da Funai. A região, que abrange quatro municípios do sul de Mato Grosso do Sul, enfrenta conflitos fundiários há anos. 

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