Capital

Protesto na UFMS pede demissão definitiva de docente condenado por estupro

Professor de biologia da instituição continuou ministrando aulas por nove anos, mesmo após ser denunciado

Por Clara Farias e Gabi Cenciarelli | 14/03/2025 16:46

Estudantes da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) se reuniram em frente à Reitoria para pedir a exoneração de um professor de biologia condenado por estupro. Atualmente, ele está afastado, e a universidade abriu uma Comissão de Processo Administrativo Disciplinar.

A manifestação reuniu cerca de 40 alunos, que, com gritos de ordem, exigiram a demissão do docente. Em vídeo enviado ao Campo Grande News, é possível ouvir os estudantes dizendo: "UFMS, vê se escuta, quem estupra não educa" e "Estuprador eu não aceito, cadê a campanha Eu Respeito?".

O professor do Inbio (Instituto de Biociências) da UFMS continuou ministrando aulas por nove anos, mesmo após ser denunciado por estupro contra uma aluna da instituição. A bióloga, que pediu para não ser identificada, tem 30 anos e relatou que estudava na universidade quando o crime aconteceu.

Protesto na UFMS pede demissão definitiva de docente condenado por estupro
Estudante segurando cartaz após manifestação (Foto: Paulo Francis)

Ela afirmou não poder dar detalhes do caso, mas disse que, na época, as alunas não tinham "muita força" para agir. "Não tínhamos tanto entendimento do que é assédio ou estupro. Durante todo esse tempo, vimos o sofrimento das colegas. Essa decisão dá um gostinho de justiça, mas ainda há impunidade. Nenhum julgamento paga o que ele fez", declarou.

Quando o caso veio à tona, em 2016, a bióloga foi uma das criadoras de uma hashtag que incentivou outras estudantes a relatarem casos de assédio na universidade.

Cartazes colados em frente ao Inbio (Foto: Paulo Francis)
Bióloga de 30 anos segurando cartaz com a hashtag criada em 2016 (Foto: Paulo Francis)

Outra estudante, de 21 anos, também pediu para não ser identificada por medo de represálias dentro da instituição. Ela contou que os alunos se reuniram para denunciar o crime ocorrido há quase dez anos. "Era aquela coisa de que todo mundo sabia, mas ninguém falava. Hoje estamos aqui para levantar a nossa voz. Existem milhares de denúncias na ouvidoria. É bonito fazer campanhas, mas será que as alunas se sentem seguras em sala de aula? Eu, como estudante e pessoa trans, não me sinto segura", afirmou.

Outra jovem, de 20 anos, reforçou que a luta não é apenas por esse caso específico. "É pela opressão sistêmica que as mulheres sofrem nas salas de aula", disse.

Para ela, o afastamento do professor não é suficiente. "O caso ainda não está resolvido. Ele pode recorrer e tentar voltar a dar aula. Queremos a demissão dele. Lutamos para conquistar um espaço aqui e agora temos que lidar com mais um obstáculo: a presença de alguém que violou o corpo de outra pessoa em sala de aula", desabafou.

Academicos sentados na UFMS, a espera de reunião (Foto: Paulo Francis)

O caso - O crime ocorreu em 2016, quando a vítima tinha 22 anos. Durante uma festa em uma república estudantil, onde os jovens ingeriram bebidas alcoólicas, o professor já havia passado as mãos pelo corpo da aluna.

Em determinado momento, a jovem foi para um quarto dormir. Segundo a denúncia, o docente a seguiu. Pouco depois, amigas da vítima desconfiaram da ausência dela e foram procurá-la, mas encontraram a porta trancada. Elas tentaram forçar a entrada, e, instantes depois, o professor destravou a fechadura e saiu do cômodo.

A jovem foi encontrada nua, desorientada e chorando. No dia seguinte, o professor a procurou e pediu que tomasse a pílula do dia seguinte. Incentivada pelas amigas, a acadêmica denunciou o caso à direção da UFMS, mas, até esta semana, a universidade não havia tomado nenhuma medida.

O docente foi condenado a oito anos de prisão em regime semiaberto e terá que pagar R$ 30 mil à vítima por danos morais. Como a decisão é de primeira instância, ele ainda pode recorrer.

O Campo Grande News solicitou um posicionamento à UFMS, que enviou uma nota publicada no dia 12 deste mês. Confira a nota na integra:

"A reitora Camila Ítavo, mediante sentença proferida pela Justiça Estadual, determinou hoje o afastamento preventivo de professor lotado no Instituto de Biociências e constituiu Comissão de Processo Administrativo Disciplinar para a completa apuração de responsabilidade do servidor, sob supervisão da Corregedoria da UFMS. A decisão se baseia no parecer da Procuradoria Federal da UFMS, exarado na data de hoje, 12 de março, e revisa o ato administrativo de agosto de 2016 que havia definido pela não apuração dos fatos pela UFMS à época". 

(*) Matéria editada às 17h48 para acréscimo de nota.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.

Veja Mais