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Família acusa polícia de matar jovem por engano em investigação de latrocínio

Pai e namorada afirmam que Bruno dormia em casa quando foi baleado e contestam versão de confronto com Choque

Por Bruna Marques e Victória Costacurta | 20/10/2026 10:23
Família acusa polícia de matar jovem por engano em investigação de latrocínio
Tampa de caixão ao lado do corpo de Bruno, velado por amigo (Foto: Juliano Almeida)

Na varanda da casa de tijolos à mostra, no Portal Caiobá, o caixão com o corpo de Bruno Rafael Souza da Silva, foi posicionado à esquerda da porta. Um ventilador de chão e uma placa com trechos bíblicos que tratam de ressurreição foram posicionados perto da cabeça dele, rodeada de flores. Dentro do imóvel e no quintal, familiares e amigos participavam do velório, revoltados com a morte do rapaz, aos 18 anos, atribuída a confronto com policiais do BPChoque (Batalhão da Polícia Militar de Choque).

RESUMO

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Na geladeira da casa, ainda tem a marmita que Bruno deixou pronta para o trabalho, em uma empresa prestadora de serviço de limpeza. Também há outras marcas que evidenciam o que aconteceu na madrugada de segunda-feira (19). Marcas de sangue no sofá, na parede, no cobertor do filho de 4 meses, além de buraco de tiro na parede.

A polícia chegou até a casa na investigaçao de latrocínio ocorrido no dia 17, no Parque do Lageado. O irmão dele, Miguel Sousa da Silva, foi preso, confessou que atirou na vítima e disse que Bruno não teve participação no crime.

Familiares confeccionaram camisetas em homenagem ao jovem, inclusive uma para o bebê. O pai, Valdir Souza da Silva, de 56 anos, e a namorada contestam a versão policial de que Bruno teria reagido à abordagem. Segundo os dois, ele estava dormindo quando os agentes entraram na residência e não tinha uma arma. 

No quarto onde o jovem dormia, a família mostrou uma marca de tiro na janela. O colchão, que ficou ensanguentado, foi descartado. Ainda havia vestígios de sangue no cobertor do bebê, estampado com o personagem Homem-Aranha, no sofá ao lado da cama e na parede próxima à marca de disparo.

Trecho de Eclesiastes e ventilador posicionados ao lado do caixão (Foto: Juliano Almeida)

Bruno foi baleado durante as diligências relacionadas à investigação do latrocínio de Gian Marcelo Samaniego Ramão, de 27 anos, assassinado na noite de sexta-feira (16), no Bairro Parque do Lageado.

A namorada de Bruno, que pediu para não ser identificada por afirmar que está recebendo ameaças de morte, relatou que ouviu a movimentação policial por volta das 4h, quando o bebê chorava e ela alertou o companheiro sobre a chegada dos agentes.

“Por volta das 4h da manhã, ouvi minha sogra falando: ‘Véi, olha os homens’. O neném estava chorando, então olhei para o Bruno e falei: ‘Amor, os homens’. Ele apenas abriu os olhos e, quando olhei novamente, já tinha entrado aquele monte de gente vestida de preto. Os policiais começaram a mandar: ‘Vai, vai, vai! Sai para fora, sai para fora!’”, contou.

Segundo ela, ao sair do quarto com o bebê, ouviu um policial cobrar que Bruno entregasse uma arma. A jovem afirma que o namorado negou estar armado e disse que não havia feito nada.

“Fui me levantar com o neném, mas quase aconteceu alguma coisa, porque eles já pisaram no colchão. Saí e, quando atravessei a cortina e cheguei à porta da sala, ouvi um policial falando para o Bruno: ‘Vai, seu filho da puta, cadê a arma?’. O Bruno respondeu: ‘Não, senhor, não está comigo, não fui eu, não’”, relatou.

Familiares e amigos em velório realizado no Portal Caiobá (Foto: Juliano Almeida)

Na sequência, ela ouviu um disparo. Conforme a namorada, cerca de 20 minutos depois, os policiais saíram do local e disseram ao pai do jovem que Bruno havia apontado uma arma para a equipe.

“Eu respondi: ‘Mentira, mentira! Não tinha arma lá dentro?’”, afirmou.

A mulher relata que, pouco depois, os policiais retiraram Bruno da casa enrolado em uma coberta e o colocaram na viatura. Ela diz que, inicialmente, recebeu a informação de que ele havia sido levado para atendimento médico e acreditou que o namorado ainda estivesse vivo.

“Depois que o levaram, me chamaram ali na frente e falaram para eu ficar tranquila, que ele já tinha ido para o posto e estava sendo atendido. Eu acreditei nisso”, disse.

A família foi orientada a procurar o posto de saúde do bairro. No local, segundo a namorada, recebeu a notícia da morte. Ela afirma que um médico informou que Bruno já havia chegado sem vida e que não houve tentativa de reanimação.

“Em outra reportagem, estavam dizendo que ele tinha saído daqui com vida. Mas, quando cheguei ao posto, o médico falou que ele já tinha chegado sem vida e que não havia mais nada a fazer. Nem tentaram reanimá-lo, porque ele já chegou lá sem vida. Zero de vida”, declarou.

A namorada afirma que as marcas de sangue deixadas no quarto reforçam suas dúvidas sobre a versão apresentada pelos policiais. “Para nós, isso não faz sentido, porque o colchão ficou cheio de sangue. A coberta do meu filho está ali, com o sangue dele até agora”, disse.

Quarto onde Bruno morreu: casal dormia em colchão no chão (Foto: Juliano Almeida)

Injustiça - O pai de Bruno, Valdir Souza da Silva, de 56 anos, também contesta a versão de que o filho teria reagido à abordagem. Ele afirma que o jovem trabalhava durante o dia, tinha rotina simples e não costumava se envolver com armas. O rapaz trabalhava em prestador de serviço de limpeza.

“Uma coisa que achei muita injustiça foi o que fizeram com ele. Falaram que ele reagiu e colocaram um monte de coisas nas costas dele que não estavam aqui dentro de casa, inclusive uma arma. O guri nem gostava de arma”, afirmou.

Valdir conta que estava saindo para trabalhar com a esposa quando os policiais chegaram. Segundo ele, Bruno já estava acordado e se preparava para ir ao serviço.

“Na hora em que aconteceu, eu estava saindo para trabalhar com a minha esposa. Chamei ele, e ele respondeu: ‘Pai, eu já estou acordado, já não vou perder a hora para ir trabalhar’. Eu falei que já estava saindo, porque pego o ônibus às 5h20”, relatou.

O pai afirma que abriu o portão acreditando que os policiais fariam uma revista na residência. Ele diz que o filho trabalhava nas proximidades e costumava ir de bicicleta.

“Foi na hora em que fomos abrir o portão que eles chegaram. Abri o portão com a intenção de permitir que fizessem uma revista, procurassem alguma coisa, porque aqui não tem nada de errado”, declarou.

Segundo Valdir, os policiais entraram, retiraram a namorada e o bebê do quarto e, em seguida, Bruno foi baleado dentro da casa.

“Aí entraram, pegaram o guri, colocaram a mulher dele e o neném para fora e mataram o guri ali dentro. É certo isso? Para mim, não é. Mataram o guri com a maior injustiça”, afirmou.

Valdir, pai de Bruno, contesta versão da polícia (Foto: Juliano Almeida)

Valdir também contesta a informação de que o filho teria trocado tiros com os policiais. Ele sustenta que a família ouviu apenas um disparo.

“Os policiais me falaram que ele reagiu. Mas reagiu de que jeito, se o guri tinha medo até de pegar uma faca? Como é que ele ia reagir? Ele não gostava de arma, não gostava de faca, não gostava de nada disso”, disse.

O pai acrescentou que o filho evitava até cortar carne durante os churrascos em família porque não gostava de manusear facas.

“Só deu um tiro. Nós estávamos aqui na frente e ouvimos apenas um disparo, que foi o do policial. Não saiu tiro nenhum daqui. Ele também não tinha arma dentro de casa”, alegou.

Valdir diz que não pretende atacar a instituição policial, mas considera que houve falha na abordagem.

“Por isso, acho que houve uma falha de policiais mal preparados. É isso que penso. Não quero falar mal da polícia nem de ninguém, mas considero que houve uma falha na forma como trataram o guri”, afirmou.

Ele questiona por que os policiais não teriam confirmado a identidade do filho antes de entrar na residência. “Por que não perguntaram quem ele era? Por que não fizeram a identificação direito? Poderiam ter perguntado o nome e dito que queriam falar com determinada pessoa, mas não fizeram isso. Já chegaram atirando no guri”, declarou.

“Ele estava dormindo ali, com a família. É isso que tenho para falar”, completou.

Homenagem prestada a Bruno estampada em camisa (Foto: Juliano Almeida)

Investigação - Bruno morreu durante uma ação do Batalhão de Choque realizada no âmbito da investigação sobre o latrocínio de Gian Marcelo Samaniego Ramão, de 27 anos. O caso levou à prisão de Yuri Silva Santos Modesto, de 27 anos, Matheus Pereira da Silva Lima, conhecido como “TH”, e Miguel Sousa da Silva, o “Neguinho”.

Yuri foi localizado em uma boate de Corumbá após a polícia ter acesso a um áudio enviado por ele ao próprio pai. Em depoimento, admitiu que dirigia o Gol prata usado no crime, mas tentou afastar a responsabilidade pelo planejamento e pelos disparos.

A polícia prendeu Miguel e Matheus em um ônibus na cidade de Itu (SP), quando seguiam para o Rio de Janeiro. Em depoimento, Miguel confessou ter atirado contra Gian, mas alegou que reagiu depois que a vítima sacou uma arma. Ele também afirmou que o irmão, Bruno Rafael, não teve participação no latrocínio. Já Matheus negou envolvimento no crime e disse que estava na casa da companheira no momento do assalto.

Durante as diligências em Campo Grande, policiais do Batalhão de Choque foram a endereços ligados aos investigados. Na casa de Bruno, conforme a versão policial, a equipe teria sido ameaçada com uma arma de fogo. O jovem foi baleado, socorrido e levado a uma unidade de saúde, onde morreu.

Em outro imóvel, aparentemente abandonado, no Bairro Tijuca, os policiais encontraram mercadorias que teriam sido roubadas, entre elas pneus, óculos, eletrônicos e cigarros. No local, também foram apreendidos colete balístico, placas de proteção, uma espingarda calibre 12, conversores para pistola e munições.

O delegado Luca Venditto Basso ratificou a prisão em flagrante dos três suspeitos por latrocínio, roubo majorado pelo concurso de pessoas, emprego de arma de fogo e restrição da liberdade das vítimas. Ele também pediu a conversão das prisões em preventivas.

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