Capital

Diretor desistiu de comprar carrão após Conselho Fiscal mirar patrimônio

Outro carro de R$ 350 mil, no estacionamento de diretor, acendeu alerta sobre patrimônio na Santa Casa

Por Ângela Kempfer | 14/09/2026 09:57


Diretor desistiu de comprar carrão após Conselho Fiscal mirar patrimônio
Caminhonete pode custar até R$ 270 mil (Foto: Divulgação)

RESUMO

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Áudio obtido na investigação sobre suspeitas de fraudes na Santa Casa de Campo Grande mostra que o então gerente administrativo Alessandro Dias Junqueira, preso na Operação Antidotum, decidiu adiar a compra de uma picape Ram Rampage diante da suspeita sobre a evolução patrimonial de integrantes da direção do hospital, veículo que pode custar até R$ 270 mil.

A conversa foi encaminhada por Alessandro à esposa em 14 de fevereiro de 2026 e aparece entre os dados de celulares analisados pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Segundo o relatório, ele relata que a movimentação patrimonial dos diretores estava sendo observada pelo Conselho Fiscal e poderia provocar novos questionamentos. 

No áudio, Alessandro comenta a repercussão provocada dentro da Santa Casa por um veículo atribuído ao então diretor administrativo e financeiro Rinaldo Hakme Romano, também preso na operação. 

Em seguida, afirma que não poderia comprar a Rampage nem trocar de carro naquele momento e menciona ainda comentários sobre a aquisição de um apartamento.

Mor, o pau está torando na Santa Casa ainda sobre esse carro. Eu não vou poder comprar a Rampage, não vou poder trocar de carro agora. E ainda tem mais, tem a conversa do apartamento. Está, assim, acaloradíssima dentro do hospital isso"

Ele descreve uma conversa envolvendo Alir Terra Lima, então presidente da Santa Casa, e um Antônio Urban, do Conselho Fiscal. Segundo ele, Urban viu veículo estacionado em sua vaga e entrou em contato com Alir, inicialmente acreditando que Alessandro fosse o proprietário.

Alir teria explicado que o automóvel não pertencia ao gerente. Ela, porém, também não sabia naquele momento que o veículo era de Rinaldo Hakme Romano, diretor administrativo e financeiro da instituição. “Ela não sabia que o Rinaldo tinha trocado de carro”, afirma Alessandro no áudio.

De acordo com o relato, Urban chegou a fotografar o veículo e enviou a imagem para Alir. Convencido naquele momento de que Alessandro havia adquirido o automóvel, ele questionou a compatibilidade da compra com o pouco tempo do gerente no cargo.

“Se o diretor novo desse jeito entrou agora, tem 125 dias que ele está no cargo, ele sabia dias que eu estava no cargo, e já trocou de carro, Alir, esse carro custa 350 mil reais. Se ele não tiver outra fonte de renda, ele está roubando a Santa Casa”, reproduziu Alessandro ao contar o que Urban teria dito.

A reação atribuída a Alir foi imediata: “Urban, não, calma aí, pera aí, você não está falando isso comigo”.

A suspeita inicial sobre Alessandro estava baseada em uma conclusão equivocada. Conforme ele próprio explica na sequência da gravação, Urban posteriormente descobriu que o veículo estacionado em sua vaga não era dele, mas de Rinaldo.

Coordenador de Infraestrutura, Alessandro Junqueira foi preso na sexta-feira (Foto: arquivo)

A conversa aparece no relatório em meio à individualização da participação atribuída a Alessandro no núcleo administrativo investigado. Ele é apontado pelo MPMS como um dos responsáveis pela contratação e fiscalização do serviço de digitalização prestado pela Redvalue à Santa Casa.

Segundo a investigação, Alessandro participou da contratação, atuou como fiscal do contrato e teria atestado serviços sem comprovação suficiente. Ele e Rinaldo também aparecem ligados à tentativa de alteração das condições do contrato. O aditivo reduziria de três milhões para um milhão a quantidade mensal de páginas a serem digitalizadas, mas preservaria a remuneração máxima mensal da Redvalue. 

Os áudios são usados pelo MPMS para sustentar que integrantes da administração tinham conhecimento dos questionamentos que já cercavam a gestão. Em outra conversa também encaminhada por Alessandro em fevereiro de 2026, ele menciona nominalmente integrantes da direção e afirma, conforme a transcrição do relatório, que “está todo mundo sabendo de tudo”. 

Alessandro está entre as seis pessoas presas preventivamente na Operação Antidotum. Além dele, foram presos a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima; Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa; Rinaldo Hakme Romano; a supervisora Monique Gregório de Oliveira; e o empresário Maurício Aparecido Benites.

A investigação apura suspeitas relacionadas a contratos e movimentações financeiras da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde. As interpretações sobre os áudios são apresentadas pelo MPMS no relatório da investigação e ainda estão sujeitas ao contraditório e à análise da Justiça.

A presidente da instituição, Alir Terra Lima, presa também na sexta

Casa em dinheiro vivo - A investigação também passou a analisar a evolução patrimonial de integrantes ligados à administração da Santa Casa. Segundo relatório do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), a então presidente da instituição, Alir Terra Lima, comprou em 24 de janeiro de 2025 um imóvel residencial na Rua João Pessoa, em Campo Grande, por R$ 400 mil. O documento registra que o valor foi “pago no ato, em espécie da moeda corrente nacional”.

O relatório também cita aquisições feitas por Paulo da Cruz Duarte, apontado como sócio e parceiro profissional de Alir. Em junho de 2023, ele e a esposa compraram um apartamento no Edifício Pernambuco por R$ 350 mil. Em março de 2025, adquiriram outro imóvel, no Edifício Tom Jobim, por R$ 670 mil, com pagamento parcelado.

Para o Gecoc, essas aquisições ocorreram paralelamente à criação de empresas, assinatura de contratos e transferência de valores milionários pela Santa Casa Saúde. O relatório, porém, não afirma que os imóveis tenham sido comprados com dinheiro desviado da instituição. As operações foram incluídas na apuração sobre a origem e a movimentação dos recursos no período.

Outro lado - Em nota, a defesa de Alessandro Junqueira afirmou que o diálogo divulgado pelo Ministério Público não tem o alcance atribuído a ele. Segundo os advogados, a conversa ocorreu de maneira informal, em fevereiro deste ano, e não representa confissão, reconhecimento de irregularidades ou combinação de condutas. A defesa também contesta a interpretação de que Alessandro teria desistido de utilizar um veículo para evitar fiscalização, classificando essa leitura como uma conclusão do Ministério Público que, segundo os advogados, não estaria demonstrada.

A defesa sustenta ainda que Alessandro sempre viveu de sua remuneração e que exercia funções técnicas sem controle sobre os órgãos de fiscalização da instituição. Os advogados criticaram a divulgação de trechos de materiais obtidos durante a investigação antes de uma decisão judicial definitiva e afirmaram que vão analisar a íntegra dos elementos reunidos no caso. Segundo a defesa, Alessandro não participou de desvios nem obteve qualquer benefício e deve colaborar com o esclarecimento dos fatos. Os advogados também ressaltaram que a prisão preventiva não representa antecipação de culpa e afirmaram que ele é inocente.

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