Capital

Após contradição, polícia faz reconstituição do caso de garoto morto por vizinha

Autora diz que disparo foi acidental, mas já deu três versões sobre onde estava a vítima

Por Aline dos Santos e Antonio Bispo | 23/02/2024 10:16
Após contradição, polícia faz reconstituição do caso de garoto morto por vizinha
Elianete [na viatura] está presa desde setembro por homicídio culposo. (Foto: Henrique Kawaminami)

O homicídio de adolescente de 17 anos, morto com tiro no olho esquerdo pela vizinha na madrugada de 2 de setembro, em condomínio no Jardim Canguru, tem reprodução simulada na manhã desta sexta-feira (dia 23), em Campo Grande. 

O caso, registrado como homicídio culposo (sem intenção de matar), registra uma série de versões. A mulher de 44 anos, autora do disparo, já disse que o adolescente foi atingido em três situações diferentes:  em pé, sentado e deitado na cama. Elianete Ramona Monteiro está presa desde o crime e alega disparo acidental. 

Mãe da vítima, Sirlene Soares de Castro, que segue morando no condomínio e acompanha o trabalho da perícia, conta que aquele dia não sai da sua cabeça e espera que a verdade apareça. “Quando entrei na casa, encontrei meu filho caído no quarto. Eu pedia para chamar socorro. Mas a mulher gritou, lá da sala, que não era para chamar o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] coisa nenhuma”.

Ela diz que seu coração de mãe alerta que o filho sabia de algo. “Meu filho nunca desrespeitou ninguém, eu sou mãe. Sei quem eu criei. A única coisa que eu quero é que ela tenha decência de falar a verdade, por mais dolorida que seja”, desabafa. 

Ainda sobre o adolescente, a mãe afirma ele era querido no condomínio e que o único defeito era não saber dizer não. Na manhã do dia anterior ao crime, ajudou a carregar as compras da vizinha autora do disparo. 

O adolescente era diagnosticado com a doença de legg-calvé-perthes, enfermidade que interfere na placa de crescimento dos ossos, causando dores no quadril e dificuldade para andar. 

Sirlene Soares de Castro chora ao falar sobre filho, que foi morto por vizinha. (Foto: Henrique Kawaminami)

Estou à base de remédios. É assim que estou vivendo a minha vida. Não durmo, não como, eu só quero a verdade. Já que ela foi mulher de atirar em uma criança especial, que seja mulher para contar a verdade. Meu coração está disposto a perdoar, mas não agora, quem sabe um dia”, diz a mãe.

Contradições – A advogada Bruna Garcia, que representa a família do adolescente, destaca que já foram dadas três versões sobre o disparo do revólver calibre 38.

 “Primeiro, ela falou que estava deitada do lado dele. Depois, fala que ele estava de pé. Depois, que estava sentado na cama. A cena do crime, propriamente dita, está muito controversa. A autora diz que quem chegou primeiro na casa foi um vizinho. Mas a mãe da vítima garante que foi ela quem chegou primeiro”, afirma. 

Advogada Bruna Garcia aponta falhas na investigação de homicídio. (Foto: Henrique Kawaminami)

A defesa também aponta que houve falhas, além de não preservar o local do crime. Segundo ela, o vídeo da câmera de segurança do condomínio mostra barulho de tiro à meia-noite e cinco minutos. Mas a mulher só chamou ajuda à 1h58, horário que consta no laudo necroscópico. 

“Só esse lapso temporal já é uma falha gigante. O celular da acusada não foi apreendido, não foi periciado. Tem muitas lacunas. A denúncia foi feita como homicídio culposo, mas os autos nos leva a crer que tem alguma coisa escondida”. 

A autora já tem passagens por sequestro e cárcere privado, além de algumas ocorrências de tráficos de drogas e roubo. 

Adolescente foi morto no quarto da vizinha, como mostra imagem no processo. (Foto: Henrique Kawaminami)

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