Capital

Ação contra “gato” corta energia de 200 famílias na saída para Sidrolândia

Loteamento é clandestino e há 4 anos funciona na base de ligações irregulares

Por Bruna Marques e Geniffer Valeriano | 23/07/2026 10:29
Ação contra “gato” corta energia de 200 famílias na saída para Sidrolândia
Equipes da Energisa atuam na retirada de fiação e equipamentos usados no fornecimento irregular de energia à comunidade (Foto: Victória Costacurta)

A Energisa desligou, na manhã desta quinta-feira (23), as ligações irregulares de energia da comunidade Agrovila Campão, localizada às margens da BR-262, na saída para Sidrolândia, no Jardim Tarumã, em Campo Grande. O lugar, basicamente, funcionava graças às ligações clandestinas.

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Equipes da concessionária de energia estiveram em setembro do ano passado no mesmo local para também cortar "gatos" de energia. 

Durante a operação, que durou aproximadamente uma hora, as equipes retiraram fios e um transformador instalado próximo à comunidade, usado pelos moradores para levar energia até as casas. Segundo os ocupantes, esta é a segunda vez que a concessionária realiza o desligamento no assentamento que também é irregular.

A comunidade afirma estar instalada na área há cerca de quatro anos e reunir mais de 200 famílias, entre crianças, idosos, pessoas com deficiência e recém-nascidos. A água consumida pelos moradores vem de poços e depende de bombas elétricas. Com o corte, além da falta de luz, as famílias também ficaram sem meios de retirar água.

Jonas Lima Vieira, líder da Agrovila Campão, cobra a regularização do fornecimento elétrico na comunidade (Foto: Victória Costacurta)

Grupo de moradores acompanhou o trabalho. Equipe da Polícia Militar permaneceu no local para evitar tumultos, mas não houve registro de confusão nem bloqueio da rodovia durante a ação.

Líder da Agrovila Campão, Jonas Lima Vieira, de 41 anos, afirmou que os moradores reconhecem a irregularidade das instalações, mas cobram uma solução para poderem pagar pelo fornecimento. “Da outra vez, eles vieram, arrancaram toda a fiação e levaram. É direito deles. Só que eles não deixam nada, chegam arrancando tudo”, disse.

Trabalhador recolhe cabos durante operação contra ligações irregulares na Agrovila Campão (Foto: Victória Costacurta)

Segundo Jonas, representantes da comunidade já procuraram vereadores, deputados e a prefeitura para tentar regularizar a área e o serviço. Ele afirmou que uma reunião chegou a ser realizada e que os moradores receberam a informação de que as instalações não seriam retiradas enquanto uma alternativa não fosse apresentada.

“Houve uma reunião em que disseram que não mexeriam com a gente. O secretário falou que ninguém mexeria com a gente e que era para ficarmos sossegados até regularizarem a questão da energia”, relatou.

O líder disse que a comunidade não se recusa a pagar as contas e defendeu a instalação de um padrão coletivo ou social. Conforme Jonas, a concessionária exige endereço formal e regularização da área para realizar as ligações.

Moradora mostra medicamentos que precisam ser mantidos sob refrigeração após o corte de energia (Foto: Victória Costacurta)

“Ninguém está se recusando a pagar pela energia. A gente só quer que eles coloquem um padrão social e forneçam energia para nós”, afirmou.

Jonas também relatou que os fios foram comprados por meio de contribuições dos próprios moradores. Ele alegou que a comunidade não recebeu notificação antes da retirada dos equipamentos.

“Nós já fizemos cota e contribuição entre mais de 200 famílias para conseguir puxar a energia. Aí eles simplesmente vêm aqui, não entregam nenhuma notificação para a gente e só chegam arrancando tudo”, declarou.

Entre os moradores afetados está a venezuelana Greice Bravo, de 52 anos. Diabética, ela utiliza insulina, medicamentos que precisam ser mantidos refrigerados.

Greice afirmou estar preocupada com a conservação dos medicamentos e dos alimentos. Ela também citou a presença de duas crianças recém-nascidas na comunidade, uma delas com quatro dias de vida.

A venezuelana Greice Bravo, de 52 anos, relata preocupação com a conservação da insulina após o corte de energia (Foto: Victória Costacurta)

“Além disso, preciso me medicar e fazer uma terapia que utiliza energia, porque sofro com problemas nos ossos. Eu fico preocupada com a comida e com os medicamentos”, relatou.

A moradora afirmou que os líderes tentam regularizar o fornecimento, mas que as promessas apresentadas até agora não resultaram em uma solução.

“O que as pessoas querem é que coloquem energia. Tem gente morando aqui. Aqui há idosos, pessoas com deficiência e pessoas com problemas renais”, disse.

Marcelo Ferreira, de 53 anos, destacou que o principal impacto imediato será a falta de água. Como as bombas dos poços dependem de eletricidade, os moradores não conseguem abastecer as casas após o desligamento.

Moradias da comunidade são cercadas por postes de madeira e fiação improvisada (Foto: Victória Costacurta)

“Sem energia, a gente não pode fazer nada, principalmente por causa da água. A água é uma das coisas de que mais precisamos, e eles chegam aqui e cortam tudo”, afirmou.

Marcelo disse que muitas famílias foram para a ocupação por não conseguirem mais pagar aluguel e que o corte atingiu toda a comunidade.

“Nós temos água no poço, mas, sem energia, o que vamos fazer? Como vamos retirar essa água?”, questionou.

Após a saída das equipes, os moradores permaneceram reunidos próximos ao ponto onde estavam os fios e o transformador. Eles afirmaram que ainda não sabem como vão restabelecer o acesso à água e conservar alimentos e medicamentos sem energia elétrica.

Em nota, a concessionária respondeu que "a ação no assentamento teve como principal objetivo retirar ligações clandestinas de energia que representavam risco à segurança dos moradores. Redes irregulares são instaladas sem critérios técnicos, aumentando as chances de choques elétricos, incêndios e até acidentes fatais, além de comprometerem a qualidade do fornecimento de energia para quem utiliza o serviço de forma regular. A empresa ressalta que a medida está prevista na regulamentação da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que rege o setor elétrico no país, e segue à disposição do poder público para buscar soluções legais que permitam o atendimento regular da comunidade, dentro das normas vigentes e de segurança".

Matéria editada às 12h05 para acréscimo de informação

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