Cidades

Sesau detalha pedidos, mas não explica envio de bebê para hospital sem UTI

Secretaria não informou unidades hospitalares consultadas ou se houve recusa de vagas

Por Silvia Frias | 22/10/2026 08:14
Sesau detalha pedidos, mas não explica envio de bebê para hospital sem UTI
Cartaz com foto de Anna Laura, em protesto realizado no dia 20 (Foto/Arquivo/Paulo Francis)

A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) de Campo Grande informou que os pedidos de transferência da bebê Anna Laura, de oito meses, foram enviados para análise dos hospitais de referência, responsáveis por avaliar as solicitações e autorizar o recebimento de pacientes. A explicação foi apresentada em resposta ao Campo Grande News após o protesto da família, realizado na terça-feira (20).

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Apesar disso, a Secretaria não esclareceu quais hospitais foram consultados, se houve recusa de vagas ou por que a criança, diagnosticada com pneumonia e dificuldades respiratórias, foi encaminhada ao Hospital de Câncer Alfredo Abrão, que não tem UTI (Unidade de Terapia Intensiva) pediátrica. A bebê morreu em 11 de outubro, após passar pela UPA Universitário, pelo Hospital de Câncer e pelo Hospital Regional.

Na manifestação, a Sesau afirmou que "os registros demonstram que as solicitações foram encaminhadas aos serviços de referência e submetidas aos respectivos processos de avaliação e aceite, em conformidade com os fluxos regulatórios e os critérios institucionais aplicáveis".

A pasta também sustentou que todas as ações administrativas e regulatórias seguiram rigorosamente os protocolos vigentes, para garantir a assistência necessária conforme a evolução clínica da paciente.

Embora confirme que os pedidos passaram pelo processo de regulação, a Secretaria não apresentou a sequência das solicitações, os horários em que foram encaminhadas nem os critérios utilizados para definir o hospital que receberia a criança.

Também não informou se outras unidades com UTI pediátrica foram consideradas antes da autorização da vaga no Hospital de Câncer ou se houve dificuldade para conseguir internação em hospital com estrutura de terapia intensiva.

Pais de Anna Laura durante protesto (Foto/Arquivo/Gennifer Valeriano)

A ausência dessas informações mantém sem resposta o principal questionamento dos familiares, que cobram explicações sobre o encaminhamento da menina a uma unidade que, poucas horas depois, precisou solicitar nova transferência em razão da gravidade do quadro clínico.

Caso - Ana Laura começou a receber atendimento na madrugada de 7 de outubro, quando foi levada à UPA Universitário com sintomas gripais. Segundo a mãe, Ana Maria Morel, um exame de raio X identificou uma mancha no pulmão, mas a criança foi liberada para continuar o tratamento em casa, com prescrição de antibiótico.

Na madrugada de 10 de outubro, a bebê apresentou febre alta, vômitos e diarreia. Por volta das 6h, a família retornou à UPA, onde a menina passou por nova avaliação médica, recebeu medicação, oxigênio e permaneceu em observação.

Com a queda da saturação de oxigênio, a equipe solicitou uma vaga hospitalar. A transferência foi autorizada para a Fundação Carmen Prudente de Mato Grosso do Sul, conhecida como Hospital de Câncer Alfredo Abrão. A criança deixou a UPA por volta das 13h59.

Segundo informações do próprio hospital, Ana Laura foi admitida às 15h05, com diagnóstico de pneumonia.

O prontuário médico da unidade, apresentado pela família ao Campo Grande News, registra que a bebê chegou com broncopneumonia e insuficiência respiratória aguda hipoxêmica, condição caracterizada pela dificuldade de manter níveis adequados de oxigênio no sangue.

A documentação aponta dificuldade para respirar, sonolência, frequência cardíaca de 186 batimentos por minuto e saturação de oxigênio de 90%, mesmo com suplementação.

Diante da gravidade, a equipe médica solicitou transferência emergencial para um hospital com UTI pediátrica e suporte ventilatório avançado.

Em resposta anterior à reportagem, o Hospital de Câncer confirmou que não dispõe de UTI pediátrica. A instituição informou que a bebê permaneceu em um leito semi-intensivo e recebeu os cuidados disponíveis na unidade.

Segundo o hospital, às 17h20 de 10 de outubro, diante da evolução do quadro clínico e da necessidade de terapia intensiva, foi solicitada a transferência para o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul.

A unidade afirmou que providenciou ambulância de suporte avançado, com médico, enfermeiro e técnico de enfermagem, e que o transporte ocorreu por volta das 18h.

A criança foi encaminhada ao Hospital Regional, onde recebeu atendimento de emergência, passou por intubação e foi levada à terapia intensiva.

Apesar das intervenções, Ana Laura morreu às 4h35 de 11 de outubro. A certidão de óbito aponta insuficiência respiratória, choque séptico, septicemia, pneumonia, coagulação intravascular disseminada e hemorragia das vias respiratórias como causas da morte.

Protesto - Na terça-feira (20), familiares e amigos de Anna Laura protestaram em frente à UPA Universitário para cobrar explicações sobre os atendimentos. O principal questionamento é por que a bebê foi encaminhada ao Hospital de Câncer, que não possui UTI pediátrica. 

A mãe, Ana Maria Morel, também relatou possíveis falhas na administração de medicamentos e no fornecimento de oxigênio durante os atendimentos. A família registrou boletim de ocorrência na Depca (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) e apresentou denúncia ao MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Os familiares também recebem acompanhamento da AVEM (Associação de Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul) e buscam esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte.

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